terça-feira, 22 de março de 2011

Artur Agostinho: o outro lado.




Hoje morreu Artur Agostinho, jornalista e actor português de renome. Morre como um herói, com direito aos maiores elogios de Cavaco Silva, o mesmo que ignorou a morte de José Saramago, um dos maiores escritores contemporâneos portugueses e único galardoado nacional com Prémio Nobel da Literatura. Com o maior respeito pela figura de Joaquim Agostinho e sem querer, de forma alguma, fazer um ajuste de contas com o passado, penso, contudo, ser meu dever não deixar cair no esquecimento alguns outros factos da vida deste profissional do jornalismo português (que muito terá dado à reportagem desportiva nacional).


Este senhor, por muitos apodado de "fascista", foi preso no rescaldo dos acontecimentos do dia 28 de Setembro de 1974, acusado estar conluiado com as maquinações da reacção. Decidiu, depois de ter sido libertado, exilar-se no Brasil. Esta prisão talvez tenha sido exagerada, produto do ímpeto revolucionário que se vivia, mas a verdade é que, penso, Artur Agostinho não se pode desligar inteiramente do epíteto de "jornalista do fascismo". É que, antes do 25 de Abril de 1974, Artur Agostinho estava, na Emissora Nacional, sempre pronto para entrevistar as mais altas figuras da ditadura portuguesa (até Salazar, no retorno do Santa Maria, capturado por democratas portugueses) e para transformar a reunião de meia dúzia de pacóvios para ver o Almirante Américo Tomás em grandes manifestações de adeptos do regime fascista português.


Este jornalista, agora falecido, não negou nunca estas suas práticas, justificando-as com o facto de "serem aquilo que toda a gente (no âmbito do jornalismo) fazia". Não é verdade. Mesmo nos mais negros tempos do fascismo, os verdadeiros democratas não ficaram calados. Lutaram, sempre, os verdadeiros jornalistas, arriscando a carreira, a liberdade física e mesmo a vida! Àqueles menos corajosos pedia-se, apenas, que não colaborassem com a repressão e com o culto de personalidade posto em prática pelo regime. Não foi esta, infelizmente, a atitude de Artur Agostinho.

2 comentários:

  1. A voz que atravessou gerações, o homem dos sete ofícios, o verdadeiro desportista, competente, da paixão pelo arrebatador Sporting dos "cinco violinos". A suprema ironia: o comunicador nato incomunicável numa cela de Caxias, preso pelos revolucionários que cuspiram nos ideais de Abril a troco da imposição da sua democracia. Fazendo jus ao nome, o Artur, corajoso e autoconfiante, começou uma nova vida aos 50 anos no país irmão, porque o nosso, maldizente, fechou-lhe as portas. Voltaste, rejuvenescido e aclamado até chegar o descanso, nobre Leão, com a certeza e a consciência de que nunca te arrependeste de nada na tua exemplar vida.

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  2. Criticavam Salazar por prender quem era contra o regime e afinal acabaram por fazer o mesmo que Salazar ! Que liberdade e que moralidade é essa ?

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