quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

As revoltas populares e a Sharia.





Tem-se revelado gigantesco o entusiasmo com as recentes revoltas no Norte de África. ONGs, governos e "sociedade civil" ocidentais alimentam uma enorme esperança de que as presentes insurreições populares levem à queda dos regimes autocráticos tunisino e egípcio e, num efeito dominó, das restantes ditaduras magrebinas, da Síria, Jordânia e, há até quem acredite, do Irão e Arábia Saudita. Claro que à queda dos regimes suceder-se-á a democracia e o desenvolvimento económico. E o fim do "conflito de civilizações".

Devo confessar que não tenho tão grande confiança nesse desenrolar de acontecimentos. Basta, aliás, pensar nas expectativas que foram criadas com o derrube do Xá do irão em 1979 pela Revolução Islâmica. Toda a esquerda parisiense apoiou, inicialmente, a instauração do regime de Khomeini. E vimos, depois, naquilo em que se converteu o Estado teocrático iraniano. As eleições argelinas de 1991 também revelaram um resultado que não foi muito animador para o regime democrático (e para os interesses ocidentais).



Claro que a democracia é perfeitamente compatível com o Islão. Não o é, todavia, com a sharia. Há questões de igualdade de direitos (entre homens e mulheres, crentes muçulmanos e não crentes) e direitos humanos (proibição de castigos corporais) que a lei islâmica não respeita, mas que são fundamentais para a sustentação de um Estado democrático.


O problema, em relação às recentes manifestações no Egipto e Tunísia, recai, precisamente, neste ponto: apesar da maioria dos habitantes destes países não professar um Islão radical, apoia a instauração da Sharia como base da organização política estadual. Veremos como se comportam os eleitores (e as eleitoras, sobretudo) destes Estados nas eleições que foram, no caso tunisino, anunciadas para breve.
Dossier: Público.

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