quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A ideologia do analfabetismo.



O Ministério da Educação (ME) decidiu recusar o apoio da distribuição dos cartazes produzidos pelo Projecto Inclusão de uma associação de promoção dos direitos dos jovens LGBT. Justificou esta decisão com o facto de considerar a campanha "ideológica". Claro que a campanha é ideológica na medida em que tem por objectivo veicular um certo tipo de convicções de um determinado grupo de pessoas (neste caso, daquelas que acreditam que uma criança não deve ser vítima de violência por ter uma determinada orientação afectiva). É, contudo, também muito óbvio que a "desculpa" do ME não faz o mínimo sentido, na medida em que todo o nosso sistema escolar se encontra imbuído de ideologias: que os professores e colegas devem respeitar a diferença "racial" dos alunos, que os conteúdos programáticos devem ser veiculados de uma determinada forma, que o sistema democrático deve ser adoptado, na medida do possível, na gestão das escolas, etc.




Ideologia, na definição do dicionário Houaiss, é o "conjunto de convicções filosóficas, sociais, políticas, etc. de um determinado indivíduo ou grupo de indivíduos". Assim, a convicção de não ser justo discriminar um aluno com base na orientação afectiva é uma ideologia (ou está inserido num certo tipo ideologia de não discriminação) que o próprio ME considera que deve ser prosseguida pelas escolas (como se encontra previsto na legislação do ensino). Assim sendo, muito pouco sentido faria vetar uma campanha com base numa ideologia que o próprio Ministério considera ser aquela sobre a qual se deve organizar, nestas matérias, o sistema de ensino português.




É óbvio que o tipo de ideologia a que os incompetentes e analfabetos do ME (incompetência e nalfabetismo comprovado por todos aqueles que foram (des)educados numa qualquer escola portuguesa) se referem é a ideologia política, cujas campanhas, por motivos óbvios, o ME não pode apoiar, nem divulgar. Tratando-se, todavia, da transmissão de ideias que a sociedade portuguesa, através dos seus representantes parlamentares e governativos, aceitou, não se percebe a justificação das gentes do ME.




Claro que o slogan "Ele é gay e estamos bem com isso", uma tradução demasiado literal do inglês, não é lá grande coisa, mesmo em termos gramaticais, mas enfim, isso e outra história.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Que parvo que sou.








O Bloco de Esquerda anunciou na semana que passou que irá, em Março, apresentar uma moção de censura ao presente executivo. Os partidos da direita já vieram, obviamente, contestar a apresentação da moção: o PS por razões óbvias, o PSD porque não "nada a reboque", o CDS não consigo perceber bem porquê, na medida em que quando Paulo Portas me aparece na televisão tenho sempre dificuldade em ultrapassar a combinação do branqueamento dental com o casaco "à agricultor-caçador" e a boina e concentrar-me naquilo que é dito. Os comunistas não percebem por que razão foi apresentada esta moção quando, faz umas semanas, o BE tinha declarado que a aprovação de uma moção de censura apenas abriria a porta do governo à direita. Não me recordo desta afirmação ter sido proferida por algum responsável do Bloco, mas se tiver sido apenas se poderia tratar de lapus linguae, já que, como bem vem sendo reconhecido pelo PCP, o executivo de Sócrates vem governando à direita.




Enfim, a quase totalidade do povo português (pelo menos aqueles que têm consciência do rumo que a situação nacional vem tomando, e excluindo os que usufurem de tachinhos e tachões partidários) reconhece que o governo actual navega sem direcção. O desemprego aumenta de forma galopante, assim como o montante da dívida pública. Os salários diminuem, as condições de vida deterioram-se, o Estado Social sucumbe. Assim, PCP, CDS e PSD, se estivessem realmente preocupados com o bem-estar populacional, melhor fariam em engolir os preconceitos partidários e aprovar a moção. Mas não, porque o BE é um partido da "esquerda radical" e cumpre aparecer na altura em que se possa garantir uma maior quantidade de lugares para atribuir a colaboradores bem treinados. Assim, mais vale deixar o estado do país degradar-se um pouco mais, deixar que mais uns quantos milhares caiam no desemprego e na pobreza, para que, depois, mesmo um tonto como Passos Coelho consiga dar o golpe de misericórdia.




Até porque um povo mais analfabeto, mais pobre, mais dependente é sempre mais conveniente para quem exercita o poder (já ensinava o saudoso dr. Salazar). sobretudo numa altura em que a classe política chegou a um ponto de carestia intelectual confrangedor. Entretanto vai-nos sendo pedido que façamos sacrifícios: ganhar menos, esperar mais tempo por uma consulta, pagar mais por serviços públicos cada vez mais miseráveis. Sacrifícios em nome da "economia". Uma economia que permite que gestores públicos ganhem milhões de euros por ano, enquanto outros contam os tostões para pôr alguma comida na mesa. Que permite que empresas gerem milhares de milhões de lucros que nunca chegam ao povo. E um sacrifício gigantesco já fazemos todos quando temos de ver uma pessoa que não fora a política estaria no desemprego comandar os destinos deste pseudo-país.




Como podemos ter a esmagadora maioria dos jovens licenciados sem qualquer vínculo laboral (no desemprego, a recibos verdes, em trabalhos mais do que precários)? Como podemos achar que a nossa democracia subsiste com jornalistas a ganharem o salário mínimo? Como podemos, sequer, pensar se nem dinheiro temos para nos emanciparmos materialmente?




Há umas semanas Manuel Vilaverde Cabral referiu que a revolta ainda não estalou nas ruas porque "os paizinhos andam a aguentar os meninos". Infelizmente, creio não ser o caso. Simplesmente, a juventude anda completamente alienada. Afinal, já é "bom conseguir um estágio não remunerado". E enquanto houver um dinheirinho para ir ao Lux, mamar umas cervejas ou mandar umas valentes com a ranhosa do andar de baixo, tudo vai estando bem.




E o que irá acontecer quando tiverem sido vendidos os últimos cacos da avó?






PS: algumas notícias: Público I, II e III.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

As revoltas populares e a Sharia.





Tem-se revelado gigantesco o entusiasmo com as recentes revoltas no Norte de África. ONGs, governos e "sociedade civil" ocidentais alimentam uma enorme esperança de que as presentes insurreições populares levem à queda dos regimes autocráticos tunisino e egípcio e, num efeito dominó, das restantes ditaduras magrebinas, da Síria, Jordânia e, há até quem acredite, do Irão e Arábia Saudita. Claro que à queda dos regimes suceder-se-á a democracia e o desenvolvimento económico. E o fim do "conflito de civilizações".

Devo confessar que não tenho tão grande confiança nesse desenrolar de acontecimentos. Basta, aliás, pensar nas expectativas que foram criadas com o derrube do Xá do irão em 1979 pela Revolução Islâmica. Toda a esquerda parisiense apoiou, inicialmente, a instauração do regime de Khomeini. E vimos, depois, naquilo em que se converteu o Estado teocrático iraniano. As eleições argelinas de 1991 também revelaram um resultado que não foi muito animador para o regime democrático (e para os interesses ocidentais).



Claro que a democracia é perfeitamente compatível com o Islão. Não o é, todavia, com a sharia. Há questões de igualdade de direitos (entre homens e mulheres, crentes muçulmanos e não crentes) e direitos humanos (proibição de castigos corporais) que a lei islâmica não respeita, mas que são fundamentais para a sustentação de um Estado democrático.


O problema, em relação às recentes manifestações no Egipto e Tunísia, recai, precisamente, neste ponto: apesar da maioria dos habitantes destes países não professar um Islão radical, apoia a instauração da Sharia como base da organização política estadual. Veremos como se comportam os eleitores (e as eleitoras, sobretudo) destes Estados nas eleições que foram, no caso tunisino, anunciadas para breve.
Dossier: Público.