quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A Ponte Salazar e a falsa controvérsia sobre a memória histórica.


Começa este pequeno apontamento pela constatação de que, de facto, há, ainda, muito tonto, para dizer o mínimo, habitando este país. Outro dia, numa pesquisa relativa ao meu mestrado que efectuava no google, deparei-me com a existência de um relativamente extenso grupo no facebook que advoga que a Ponte 25 de Abril volte a ter o nome originário: Ponte Salazar. Fiquei interessado em perceber os argumentos desta gente e prossegui um pouco na minha inquirição, acabando por encontrar a petição posta a circular por este grupelho e que, online, conseguiu 149 assinaturas...Enfim, já diz tudo, não?

Justificam, os peticionários, a sua iniciativa com o argumento de que "a verdade Histórica deve ser em qualquer situação, grande preocupação de qualquer povo" e acrescentam que "a omissão de factos, incoerências, desvios à verdade, esquecimentos a prazo, receios ou vergonha da sua História, no caso concreto, do nosso povo, que somos nós e os que antes de nós fizeram História, torna-nos superficiais, descaracteriza-nos como entidade cultural e acima de tudo faz-nos cúmplices da mentira".

Perante tudo isto, sinto-me compelido a avançar algumas "verdades históricas". Em primeiro lugar, não há coisa mais natural, mais humano, mais profundo do que sentirmos vergonha de certos acontecimentos da nossa história. Eu sinto uma vergonha que roça a humilhação quando penso que o meu país foi o maior traficante de escravos que já operou nesta terra. Sinto vergonha de termos sentido que pela força das armas podíamos destruir culturas milenares e forçar a aceitação dos nossos preceitos morais, jurídicos, religiosos e culturais. Sinto vergonha quando penso em todas as pessoas que foram assassinadas nas fogueiras do Santo Ofício por todo o nosso país. E sim, sinto imensa vergonha de toda a história portuguesa que diz respeito ao período do Estado Novo.

Toda esta vergonha que sinto não se traduz no desconhecimento destes factos. Muito pelo contrário. Penso que é sobre estes erros que mais se deve trabalhar, mais se deves estudar, ler, reflectir. Fazer de tudo para que não se repitam. Considero, por outro lado, completamente idiota dignificá-los e celebrá-los permitindo que continuem a constar como denominação de um qualquer monumento.


Por outro lado, o 25 de Abril é o momento histórico fundador do nosso actual regime político. Por que razão é que já era lícito apagar este acontecimento?


Para além disso, eu ainda poderia admitir, por uma razão de justiça histórica, digamos, que a ponte sobre o Tejo mantivesse o nome de Ponte Salazar (que creio, todavia, nunca ter sido, sequer, o nome oficial da dita) se Oliveira Salazar tivesse contribuído, efectivamente, de forma crucial, com forte empenho, para a construção da referida via de comunicação. Não foi, todavia, de todo, aquilo que se passou. Salazar, como sabe qualquer pessoa que tenha um mínimo conhecimento de história contemporânea portuguesa, foi sempre um inimigo visceral de tudo o que cheirasse remotamente a progresso e desenvolvimento como seria construção de uma via de ligação entre as duas margens do Tejo em Lisboa. Já desde 1933 que Duarte Pacheco moía o juízo do Presidente do Conselho com a ideia da construção da ponte, contando sempre com a sua mais veemente oposição. O começo das obras acaba por acontecer, somente, em 1962 e a inauguração da ponte em 1966 (já quase no fim do consulado de Oliveira Salazar).



Considero que seria uma estupidez gigantesca manter na ponte o nome de uma criatura que se revelou o maior obstáculo a qualquer tipo de avanço cultural, científico e tecnológico do nosso país, o que nos legou um atraso de mais de 50 anos em relação à restante Europa ocidental. Atraso do qual, note-se bem, nunca chegámos a recuperar e se conseguimos que não se continuasse a alargar foi unicamente por causa da Revolução do 25 de Abril. Mas isto sou só eu...