quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Crónica de uma péssima moeda - parte I.




O primeiro mandato do actual Presidente da República está a chegar ao fim, razão pela qual sinto poder, já, classificar Cavaco Silva como tendo sido o pior Presidente da República eleito depois do 25 de Abril. (Não considero que tenha sido o pior PR desde o 25 de Abril, na medida em que, entre os não eleitos, consta António de Spínola). Por uma questão de honestidade intelectual (para melhor explicitação dos critérios que me levaram a esta conclusão), indico aquele que acredtito ter cumprido de forma mais competente o cargo de Presidente da República. Trata-se de Jorge Sampaio. Os porquês, em relação a Sampaio, ficarão para um post posterior.

Seguem, agora, as bordoadas (contra Cavaco, como é lógico).
O dr. Cavaco (gosto sempre de repetir a maneira "carinhosa" como VPV se refere ao actual PR) nunca foi e não passará a ser nos tempos que lhe restam (enquanto político e enquanto ser vivo) um democrata. Desde os tempos da praia de Olhos d'Água que não compreende a agitação política, as manifestações, as greves, a necessidade do debate parlamentar. Na sua autobiografia política refere-se ao brutal sistema salazarista como um regime que "não apreciava", como quem fala de uma comida de que não é, especialmente, adepto. Na sua passagem por Inglaterra viveu isolado do meio académico e político britânico (já tinha família e filhos) e a democracia inglesa não exerceu sobre a criatura qualquer tipo de influência.

Da leitura da sua autobiografia política pp 36 e ss) percebe-se, claramente, que não compreendeu, nunca, aquilo que se passou no 25 de Abril de 1974 e o período revolucionário que a esta data se seguiu. As palavras que mais utiliza para se referir a este momento histórico são "confusão" (nas três páginas em que trata do assunto aparece aí umas cinco ou seis vezes), "degradação", "ambiente caótico". A participação dos alunos na direcção das faculdades perturbava-o imensamente e só conseguiu atingir alguma paz quando ingressou nos quadros docentes da Universidade Católica Portuguesa (cuja organização era mais próxima daquela do "Antigo Regime" e com a qual se sentia mais à-vontade).

Para Cavaco Silva a democracia não passa de um expediente técnico de escolha dos governantes. Acredito que aceite as eleições democráticas como a melhor forma de legitimar a cehagada ao poder. Atingido esse patamar, todavia, não compreende a contestação, os checks and balances (a que sempre chamou "forças de bloqueio"), o sistema de separação de poderes, enfim, toda a práxis democrática do período entre eleições. "Deixem-me trabalhar" (no fundo uma versão actualizada do "no mais, que o País estude, represente, reclame, discuta, mas que obedeça quando se chegar à altura de mandar" de Salazar) era o lema que atirava ao povo, à comunicação social, ao PR e aos outros órgãos de soberania enquanto foi primeiro-ministro.


Chega, então, em 2006, ao cargo de Presidente da República sem fazer a mínima ideia da função que deveria desempenhar. Ao Presidente da República não cabe dirigir a política administrativa, económica, financeira, cultural, etc., do país, mas garantir o regular funcionamento das instituições democráticas. Cavaco fez-se eleger como o tecnocrata que iria resolver, a partir da presidência, o problema das finanças portuguesas. Nada fez para isso, sobretudo porque cedo se deve ter apercebido que não possuía qualquer tipo de atribuições na matéria.


Deixou, contudo, que a democracia portuguesa se degrada-se imensamente. O lugar de Portugal no Índice de Percepção da Corrupção da Transparency Internacional e no Ranking de Liberdade de Expressão dos Repórteres Sem Fronteiras tem vindo a cair sucessiva e perigosamente durante o consulado Sócrates, sem que Cavaco se tenha pronunciado, uma única vez, de forma assertiva, sobre a questão. Andava entretido na "cooperação estratégica" (que no recente anúncio de candidatura às presidenciais foi substituído pela expressão "magistratura activa", repararam?).


Foi, assim, completamente incompetente na função que principalmente lhe cumpria levar a cabo: a garantia da democracia portuguesa, como referimos. É por esta razão que considero ter sido o pior PR eleito desde o 25 de Abril de 1974. É também por esta razão que começa, hoje, neste blog, a campanha contra a reeleição de Cavaco e em prol de Manuel Alegre (um verdadeiro democrata, um lutador pela liberdade e democracia portuguesa, um conhecedor e interventor no 25 de Abril de 1974, um produtor de cultura de excelência, um tudo menos um tecnocrata, e, portanto, a pessoa certa para o cargo).


Força Manuel Alegre! 25 de Abril sempre, Cavaco nunca mais!
Saudações democráticas.







2 comentários:

  1. Votar no candidato do Sócrates?!?! Nem com 17 shots de bagaço em cima!

    Chico Lopes all the way!

    Ele agora até descobriu que a China não é comunista. Antes tarde que nunca!

    Todos comigo: Chiquinho! Chiquinho! Chiquinho!

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  2. Estávamos a falar dos candidatos "existentes". ; )

    P.S.: Alegre não é o candidato de Sócrates.

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