terça-feira, 24 de agosto de 2010

Solidão.




Diz o povo que "mais vale só que mal acompanhado". Assumo-me um incondicional seguidor da sabedoria popular, mas, pelo menos nos dias de hoje, sou obrigado a discordar do ditado. Quantas vezes uma companhia menos boa se torna uma boa alternativa à solidão? Só sendo muito desonesto, ou sofrendo de algum tipo de fobia social, alguém poderia afirmar estar feliz num período relativamente prolongado de solidão.

Para o bem e, infelizmente, também para o mal, o homem é um "animal social". Grande parte do nosso contentamento advém, assim, da interacção com outras pessoas. Somos, por condição inerente à nossa natureza, miseráveis se sujeitos a períodos prolongados de isolamento. É por esta razão que o aprisionamento na "solitária" foi, desde sempre, um dos castigos mais temidos aplicado aos incumpridores em locais de detenção por todo o mundo.

Mais vale, então, relativamente mal acompanhado que só. Claro que o objectivo (inantingível, tanto quanto sei) seria a pessoa sentir-se tão bem consigo própria, ter a auto-estima num nível tão elevado, que a companhia de outros seres humanos não mais seria do que um bom complemento, algo que se procurava porque era bom, porque preenchia, e não por necessidade, por medo de envelhecer abandonado, de experimentar tudo sozinho, de desbravar o caminho sem ter com quem parar para recuperar as forças. Ninguém se sente, contudo, assim.

Claro que a "solidão interior" é muito pior do que a circunstância de, de um ponto de vista externo, físico, uma pessoa se encontrar, momentânea ou permanentemente, sozinha. E é por isso que Nietzsche dizia: "Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeira companhia" (obrigado, T., pela frase). Aquela solidão partilhada de que todos temos pavor, mas que, igualmente, todos preferimos a ter de enfrentar um abandono solitário. Ao menos distrai-nos, enquanto dura o fingimento, enquanto ninguém nos preenche, nos ocupa por completo. Daí se dever, mais correctamente dizer, "melhor bem enganado que só".


2 comentários:

  1. O ditado não refere que mais vale só do que com "uma companhia menos boa". Nem que mais vale só do que "relativamente mal acompanhado".
    Diz simplesmente que mais vale só, do que mal acompanhado, sem qualquer excepção ou relativização.
    De resto, o que dizes talvez seja verdade. Mas quando alguém se apercebe de que é vítima desse "engodo" não fica melhor do que ficaria se estivesse sozinho. Creio que até vai um pouco da pessoa e da habitualidade. Há quem seja, naturalmente, mais sociável...

    "Melhor bem enganado que só"?
    Ai Manel Manel... depois queixa-te!

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  2. João,

    Eu até teria tirado a relativização. Tive, contudo, medo de ser mal interpretado, no sentido de estar a aceitar a violência física e psicológico no seio de um relacionamento. Tirando isso, diria, até, mais vale pessimamente acompanhado do que só.

    Quanto ao "melhor bem enganado que só", mantenho, e mais digo, tomara eu poder enaganar-me melhor.

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