sábado, 28 de agosto de 2010

Anatomia da traição.






As relações (afectivas - namoros, casamentos, etc.) duram muitíssimo menos tempo do que em tempos passados. É um facto que a emancipação da mulher permitiu que, na maior parte dos casos, a dependência económica feminina deixasse de ser um entrave à separação, permitindo que o vínculo entre o casal se fragilizasse pela perda da componente financeira. Ficavam, assim, homem e mulher (porque, nestes tempos de que agora se fala, as relações homossexuais eram, absolutamente, residuais) numa paridade relativa que permitia ao elemento do sexo feminino decidir, igualmente, do fim da relação.





Considero, todavia, que, nos dias de hoje, a inexistência de relações duradouras como as de outrora tem que ver, igualmente, com alguns factores adicionais. Um deles relaciona-se, creio, com a crescente valorização de um certo tipo de monogamia, exclusividade e posse. Em tempos que já lá vão, a fidelidade, apesar de apanágio de uma sociedade católica que se prezasse, não tinha de passar do mundo da aparência. Desde que tudo parecesse conforme aos padrões de comportamento social da altura (o homem casava com uma rapariga virgem de condição social semelhante, os pais escolhiam ou tinham muito a dizer na escolha do par dos filhos, o casamento era indissolúvel, etc.), aquilo que depois era feito era, cumpridas, obviamente, algumas condições, perfeitamente aceite.



Assim, sobretudo nas classes mais favorecidas, era perfeitamente normal os homens terem amantes. Até porque a "sereníssima esposa" não servia para aplacar os desejos sexuais do marido, mas somente para ser mãe dos filhos. Uma esposa não se rebaixava ao cumprimento dessa função. Ainda na alta sociedade (e já não no seio das classes mais baixas), era, igualmente, comum as senhoras terem amantes (normalmente mais jovens) com quem se entretinham. E marido e mulher (mas sobretudo esta) aceitavam (ou eram obrigados a aceitar) as "escapadelas" dos companheiros.



Hoje, a ideia de um certo tipo de verdade, da monogamia, da exclusividade, foi passando da teoria para uma prática obrigatória. Os affaires são cada vez mais mal vistos e quem é traído tem de arcar com sentimentos de vergonha e humilhação. É o "corno", o fraco, etc. A confiança é criada, não pela honestidade, mas pela posse. E quantas relações não ficam destruídas pela prossecução deste tipo de sentimentos, por um ciúme, as mais das vezes, irracional.

E quantas relações belíssimas não foram, ja, salvas por uma "traição"?


sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Medo.



Medo - Amália Rodrigues

Quem dorme à noite comigo
É meu segredo,
Mas se insistirem, lhes digo,
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo.

E cedo porque me embala
Num vai-vem de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.

Gritar quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim
Gostava até de matar-me,
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.


Depois disto, ainda não gostam de fado?!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Avé de Fátima, um hino gay?!







E aqui vai a história da, provavelmente, mais conhecida música religiosa (popular) portuguesa: o Avé de Fátima ("A 13 de Maio na Cova da Iria apareceu brilhando a Virgem Maria..."). A letra da referida música roça muitas vezes (ou afunda-se mesmo) o piroso. Ainda assim, admitamos, fica no ouvido e duvido que exista algum português que não saiba, pelo menos, entoar a primeira estrofe.




O que, muito provavelmente, muito poucos saberão é que tão singela poema é da autoria de um dos primeiros homossexuais assumidos portugueses. Pois é, a letra do hino do 13 de Maio foi composta por António Botto (1897 - 1959) que, após a perseguição a que foi sujeito pelo regime do Estado Novo que culminou na sua exoneração das funções públicas que exercia, terá exclamado: "Sou o único homossexual reconhecido no país".




Esta informação será, com certeza, do desconhecimento do país beato que com tanta fé entoa o cântico oferecido por Botto (um católico fervoroso) ao Cardeal Cerejeira (então patriarca de Lisboa) por ocasião das comemorações marianas. Ficam, agora, aqui, a saber que quando o fazem homenageiam um homossexual assumidíssimo, que não tinha vergonha daquilo que era, que se orgulhava da sua sexualidade.




Afinal, o autor do mais conhecido hino nacional de culto a Maria (mãe de Deus) é exactamente aquele que a Igreja (e seus consortes no seio da população) estigmatiza e ostraciza, o homossexual, o pecador que não deseja expiar as suas supostas faltas. Sem saber e sem querer, a tradicionalíssima hierarquia católica portuguesa deu, ainda nos anos 50, um importante passo na aceitação da homossexualidade no seu seio, ao aceitar a criação de um homossexual católico assumido.




Lembrem-se todas as beatas e os ratos de todas as sacristias d'este mui pio país que enquanto o Avé de Fátima se ouvir no respectivo Santuário, a homenagem à homossexualidade e às suas criações não poderá ser calada e ecoará a partir do núcleo religioso fundamental deste país.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Solidão.




Diz o povo que "mais vale só que mal acompanhado". Assumo-me um incondicional seguidor da sabedoria popular, mas, pelo menos nos dias de hoje, sou obrigado a discordar do ditado. Quantas vezes uma companhia menos boa se torna uma boa alternativa à solidão? Só sendo muito desonesto, ou sofrendo de algum tipo de fobia social, alguém poderia afirmar estar feliz num período relativamente prolongado de solidão.

Para o bem e, infelizmente, também para o mal, o homem é um "animal social". Grande parte do nosso contentamento advém, assim, da interacção com outras pessoas. Somos, por condição inerente à nossa natureza, miseráveis se sujeitos a períodos prolongados de isolamento. É por esta razão que o aprisionamento na "solitária" foi, desde sempre, um dos castigos mais temidos aplicado aos incumpridores em locais de detenção por todo o mundo.

Mais vale, então, relativamente mal acompanhado que só. Claro que o objectivo (inantingível, tanto quanto sei) seria a pessoa sentir-se tão bem consigo própria, ter a auto-estima num nível tão elevado, que a companhia de outros seres humanos não mais seria do que um bom complemento, algo que se procurava porque era bom, porque preenchia, e não por necessidade, por medo de envelhecer abandonado, de experimentar tudo sozinho, de desbravar o caminho sem ter com quem parar para recuperar as forças. Ninguém se sente, contudo, assim.

Claro que a "solidão interior" é muito pior do que a circunstância de, de um ponto de vista externo, físico, uma pessoa se encontrar, momentânea ou permanentemente, sozinha. E é por isso que Nietzsche dizia: "Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeira companhia" (obrigado, T., pela frase). Aquela solidão partilhada de que todos temos pavor, mas que, igualmente, todos preferimos a ter de enfrentar um abandono solitário. Ao menos distrai-nos, enquanto dura o fingimento, enquanto ninguém nos preenche, nos ocupa por completo. Daí se dever, mais correctamente dizer, "melhor bem enganado que só".


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A receita do desastre.






Ou seja, a partir de hoje, os EUA já não se encontram, oficialmente, em guerra contra nenhum grupo dentro do Iraque. Até ao final de 2011, todas as tropas americanas deverão abandonar o país. Será, certamente, a receita para a catástrofe. Alguém, honestamente, ainda acredita na viabilidade do Estado iraquiano?

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A bissexualidade e a patriarcalidade.




Há um amigo meu que acredita, piamente, que todas as mulheres são bissexuais. Será, penso, uma crença (talvez não nestes moldes tão definitivos), relativamente, difundida na nossa sociedade, pelo menos dentro hemisfério masculino (heterossexual). É comum (quase obrigatório...?) os homens heterossexuais terem a fantasia de estar sexualmente com duas mulheres que se satisfazem, também, mutuamente. Depois, o contacto físico feminino mais próximo (beijos, andar de mão dada, etc.) é também entendido com normalidade, enquanto que a dois homens é, rigorosamente, proibido que se cumprimentem com um beijo na face (a menos que sejam familiares).


A bissexualidade feminina é, assim, parece-me, bastante mais aceitável que a masculina. Todavia, tenho as maiores dúvidas em afirmar que a homossexualidade feminina seja entendida da mesma forma (comparativamente com a masculina). Isto porque a nossa sociedade (em que o domínio masculino é, ainda, evidente) não compreende, nem tão-pouco acredita, que duas mulheres possam quedar-se, sexualmente, satisfeitas apenas com a intimidade feminina. A presença de um homem (e de um pénis) é sempre necessária e é com ela que o desejo feminino verdadeiramente se apaga. As relações sexuais entre duas mulheres servem, assim, somente, para colmatar a falta do elemento masculino ou, então, para deleite deste.


Às relações (exclusivamente) lésbicas fica, desta forma, reservado um estatuto de inexistência. (São, quanto muito, mulheres que não conheceram um "homem verdadeiro"). E a "nova moda" da bissexualidade das cantoras e actrizes pop torna-se, sem querer provavelmente, um reforço da patriarcalidade em que se encontra submsersa, ainda, a nossa sociedade actual.

domingo, 15 de agosto de 2010

O "mundo gay".





Por vezes, sobretudo em sites/chats de encontro pouco recomendáveis (é bem provável que num post próximo explique por que razão os considero de evitar) , é comum encontrar-se descrições pessoais que incluem a seguinte expressão: "gajo, tal e tal, fora do mundo gay". Sempre me intrigou a expressão e várias são as causas da intriga. Em primeiro lugar, tenho alguma dificuldade em definir aquilo que se entenderá por "mundo gay". É-me, sobretudo, difícil entender de que forma é que pessoas que dizem não pertencer a um determinando ambiente/conjunto de pessoas/cultura o conseguem delimitar tão bem, ao ponto de poderem afirmar com segurança dele não fazerem parte.


Por outro lado, qualquer que seja o entendimento que se tem das coisas que estão incluídas no "mundo gay", sites como manhunt, gaydar e etc estão lá seguramente. Poria as partes mais sensíveis do meu corpo, os meus olhos, no fogo, apostando não existir nenhum gay português que nunca tenha dado, pelo menos por curiosidade, uma espreitadela nos referidos portais. Assim sendo, a frequência das respectivas páginas tem de ser vista, obviamente, como uma das práticas do chamado "mundo gay", estando, desta forma, os seus praticantes incluídos no universo a que rejeitam pertencer. Uma contradição muito mais aparente do que efectiva.



Claro que todos sabemos a que se referem estas pessoas quando falam do "mundo gay". Referem-se, provavelmente, a uma certa maneira de vestir (mais feminina? mais avant-guarde?), à frequência de certos espaços de diversão nocturna, ao estabelecimento de um certo tipo de relacionamentos, etc. Por várias razões, para alguns, isto ainda é visto de uma forma negativa. Não percebem estas gentes que o pior do "mundo gay" são exactamente aquelas práticas que prosseguem: a sordidez dos encontros combinados pela net, o pseudo straight acting, os relacionamentos escondidos...Não percebem que estão muito mais dentro desse universo do que aquilo que pensam, e que estão, precisamente, na pior parte do mesmo.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Ser alternativo.




O "Andanças" será, provavelmente, o mais alternativo dos festivais de verão portugueses. Alternativo, em primeiro lugar, porque prima pela aceitação e promoção da diferença. Procura-se, tendo o festival o centro gravitacional na dança (o que, desde logo, promove um cderto grau de libertação, pelo menos, corporal), que todos se sintam bem e atenta-se na necessidade de protecção do ambiente, dos recursos naturais, das tradições culturais e das liberdades de expressão.

O aspecto alternativo do "Andanças" traduz-se na miríade de formas de vestir, nos ornamentos utilizados e nas diferentes formas de estar dos participantes. Lá, muito dificilmente uma pessoa seria julgada pelo modo como se veste ou apresenta. E, contudo, como bem lembrou um rapaz espanhol com quem por lá me cruzei, ser alternativo não é, primacialmente, usar rastas ou um sari indiano. Ser alternativo é, mais do que valorizar a diferença própria, procurar aceitar/ respeitar a diferença alheia. É procurar adaptar uma certa realidade social preexistente (ainda que rompendo com algumas tradições culturais bem enraizadas) à quebra de todos os preconceitos. É levar a tolerância ao grau máximo, promovendo a diversão de todos, independentemente das características segundo as quais se apresentam.

Porque, afinal, o mote do "Andanças" era "o melhor bailarino é aquele que mais se diverte", as regras e as convenções da dança devem ceder perante a promoção do bem-estar e divertimento de cada um, e não o contrário. Ora, neste particular, o festival, no meu entender, assumiu um completo falhanço, provocando, de forma inadvertida, certamente, situações de discriminação. É certo que a maioria das danças de pares foram construídas para serem executadas por um homem e uma mulher, embora, ao que sei, o tango, por exemplo, tenha sido criado, inicialmente, como uma dança exclusiva de homens. Há um que conduz (o homem), sendo a mulher conduzida.


Na medida em que é uma prática recorrentíssima (quem não se lembra dos bailes de aldeia?), duas mulheres dançarem juntas (sendo as mesmas lésbicas ou heterossexuais), no festival, os pares compostos por dois elementos do sexo feminino eram aceites com a maior normalidade. Já os pares integrados por dois homens eram vistos com a maior estranheza. Era comum ouvir-se afirmações do género: "Isto é uma dança para dançar homem com mulher. Duas mulheres também pode ser. Homem com homem é que não, porque dá faísca", por parte dos instrutores de dança. Acontecia, também, casais gays que optavam por fazer os workshops juntos serem separados pelos instrutores, porque havia "mulheres disponíveis".


Sinceramente, adorei participar no "Andanças". Esperava, todavia, sinceramente, que existisse uma política maior de integração das orientações sexuais minoritárias (nomeadamente no tocante a casais homossexuais masculinos). Todas as danças podem, perfeitamente, ser adaptadas (com um prejuízo mínimo) para serem executadas por dois homens. Basta que os professores sejam avisados e estejam atentos para esse tipo de situações. Um pequeno briefing inicial, com todos os professores e staff, alertando para a participação no festival de casais homossexuais e para o imperativo de estes se sentirem tão bem e se divertirem tanto como os restantes, seria, penso, um bom primeiro passo a tomar numa próxima edição. Quem sabe, uma tarefa de que se poderia encarregar o Núcleo LGBT da Amnistia Internacional....


quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O regresso.





Depois de uma relativamente prolongada ausência, os meus pensamentos retornam a estas ruas. Peço desculpa àquele punhado de leitores que me acompanha com alguma regularidade pela aus~encia de actualizações, mas a minha mente já precisava a de umas merecidas férias da escrita e da leitura. Volto, agora, ligeiramente mais recuperado e, espero, com algo de interesse para partilhar convosco.