segunda-feira, 7 de junho de 2010

O "totalitarismo do orgasmo".




Hoje, Teresa e Helena casaram, naquele que foi o primeiro casamento entre pessoas do mesmo sexo a ser celebrado em Portugal. Continuo sem perceber por que razão, nos dias de hoje, duas pessoas insistem em casar (ainda por cima sendo homossexuais, o que retira grande parte da pressão social...), mas enfim, elas pareciam estar felizes e, assim, não posso deixar de as acompanhar nesse sentimento. Afinal, foram as duas principais responsáveis (com grande custo pessoal) por este passo (tímido) em direcção à igualdade.


Entretanto, numa crónica de 31 de Maio a que só agora tive acesso, João César das Neves ( o arauto nacional da discriminação) faz um certo tipo de afirmações que não poderia deixar de comentar. Não me refiro àquelas em que fala, no registo de língua extremamente baixo que lhe é característico, da homossexualidade como sendo um "comportamento sexual desviante", da "maioria porcalhona" (que termo para utilizar numa crónica num jornal nacional reputado....) ou da falta de discussão nacional sobre a qual assentou a aprovação do casamento gay (outra vez a mesma história?!).


Aquilo que me preocupa no discurso (que a certa altura se torna extremamente desconexo, na medida em que se refere a este alargamento do casamento como um marco fundamental na mudança de uma instituição milenar, mas que terá poucas consequências....Hã?) da criatura é a comparação que estabelece entre o prazer sexual e o "deboche" (obviamente utilizando a palavra no seu pior sentido: de depravação). Ataca, assim, o orgasmo, o sexo não-procriativo, a educação sexual.


César das Neves nunca praticou sexo oral (muito menos anal), nunca atingiu o orgasmo...Fala do sexo como algo virado para a fecundidade. E isto é digno de uma incomensurável pena...As afirmações com que tem sempre vindo a atacar a felicidade alheia ficam, assim, explicadas e são, quase, perdoáveis. O hedonismo é exactamente o conceito filosófico subjacente ao sexo. Quem, aos 60 e tal anos (Ou mais?), ainda não foi capaz de perceber isto, está, efectivamente, destinado a ser um frustrado. E a frustração sexual é um catalisador perigosíssimo para todas as formas de discriminação contra a liberdade sexual.

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