segunda-feira, 3 de maio de 2010

Um dia posso ser eu...




Ninguém tem pachorra para a vítima, para quem está frágil, para quem não se conseguiu defender, para quem o sofrimento é, mais do que um estado de espírito permanente, uma atitude perante a vida. Sentimo-nos, todos, no direito de criticar, de perguntar por que é que não fixeram mais, por que é que não souberam resistir, por que é que não fugiram da casa do agressor, por que não responderam na mesma moeda, por que se ficaram...


Depois, quando uma mulher que foi abusada sexualmente, uma criança que sofreu maus-tratos domésticos ou um jovem violentamente espancado por colegas durante anos, não consegue manter uma "vida normal", sentimo-nos no direito de aconselhar "reage!", de nos queixarmos de que "já não há paciência", "outra vez?"; "vai ao médico" aconselhamos com a sobranceria que a nossa via imaculada nos garante.


E tudo isto porquê? Por que nos sentimos no direito (e mesmo no dever) de odiar, menosprezar, ostracizar as vítimas. Porque, afinal, nós somos diferentes, nós teríamos resistido, teríamos mostrado o outro punho e não a outra face. Enquanto nos enganamos com estes argumentos, uma vozinha irritante na nossa cabeça vai perguntando o que faríamos se estivéssemos já tão destruídos que não aguentávamos mais dizer que não, tão magoados que mais uma sova, um insulto, um abuso seriam tão rotineiros como o levantar, comer, respirar...


E é esse murmúrio que nos revela a verdade: a de que bastava um azar, um enquadramento familiar menos benéfico, uma diferença inaceitável para estarmos no lugar do outro, daquela que já não se levanta depois da sessão de porrada, do que já não responde ao insulto e o aceita, do que já não estrebucha perante a violação permanente...E então vem o medo e o outro é o fraco e nós os fortes, ele o estúpido que se meteu onde não devia, eu o suficientemente esperto para resistir sempre...Até ao dia em que o azar nos encontra num momento mais frágil...Até ao dia...

2 comentários:

  1. E é verdade, a vítima tem que reagir, fazer qualquer coisa!

    Não pode ficar parada à espera que terceiros resolvam o problema! Claro que deve haver ajuda, mas sem a vítima se ajudar a si própria, nada feito.

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  2. Pois...é extremamente fácil falar de "barriga cheia". Estando na situação, estando completamente sozinho, desamparado, destruído, ultra-magoado, humilhado é que gostava de saber como se reagiria. Adivinho que não seria assim de uma maneira tão "corajosa"...

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