domingo, 30 de maio de 2010

A estupidez da reacção.





Um conhecido meu costumava dizer que as pessoas mais inteligentes eram de esquerda. Interiormente, desejoso de manifestar a mais aberta concordância, exteriorizava, todavia, algum desacordo com tal generalização e atirava com nomes como Vasco Pulido Valente e Vasco Graça Moura (embora este último, quando obcecado com a defesa de alguma posição ultra-reaccionária, não tenha qualquer problema em repetir os mais idiotas argumentos).

Toda esta histeria da reacção à volta da promulgação do casamento gay por Cavaco Silva me faz, porém, ter uma certa necessidade de concordar com o meu amigo, pelo menos no sentido de que os os mais reaccionários têm uma certa tendência para uma utilização menor do cérebro que as pessoas comuns.

Alguém, no pleno uso das suas capacidades intelectuais, pode, sem ser de forma imensamente desonesta e demagógica, afirmar que Cavaco Silva não é total e intrinsecamente contra o alargamento do casamento a casais de pessoas do mesmo sexo (e mesmo contra a extensão de quaisquer direitos a esta minoria). E têm, ainda, a insensatez de criticar Cavaco por ter promulgado o diploma que legalizou a IVG (sabendo que o actual PR não poderia ter uma posição mais contrária à medida). Atacaram a decisão de Cavaco, baseada, como sabemos, num referendo em que o todo o povo português participou, mas defendiam a realização de um referendo para impedir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Este já acatariam, se o resultado lhes fosse favorável, certamente...

Estas isildas pegado e césares das neves não percebem que lançarem figuras como Bagão Félix (!!!) ou o tenente-coronel João José Brandão Ferreira (quem é este, já agora?) só possibilita que Cavaco (o mais reaccionário grande político português) ganhe uma aura mais moderada, podendo avançar confortavelmente sobre o eleitorado do centro.


Não acredito que possa aparecer um candidato à direita de Cavaco que possa ter uma votação superior a 3%. Acredito, contudo, que a promulgação do casamento gay e, sobretudo, esta campanha da reacção podem fazer Cavaco Silva conquistar um número de votos muitíssimo superior àquele que, eventualmente, perderá. Assim sendo, das duas uma: ou estas patetices da ultra-reacção são apenas uma táctica para que o actual PR conquiste um maior número de votos, ou aquilo que o meu conhecido me dizia se aplica, pelo menos, aos sectores mais extremados da direita: a inteligência que terá, ali, sido, eventualmente, plantada não colheu nenhum tipo de frutos.

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