segunda-feira, 12 de abril de 2010

Spínola: Os equívocos de uma figura pretensamente controversa.



Saiu, recentemente, uma biografia de António de Spínola, da autoria do historiador Luís Nuno Rodrigues. Aponta este escrito, como quase todos aqueles que se debruçam sobre esta figura da história recente portuguesa, para o facto de Spínola ter sido uma figura "extremamente controversa". No semestre passado, num Seminário do Mestrado em História Contemporânea, tive a oportunidade de me debruçar sobre a actuação do General no período em que assumiu a Presidência da República Portuguesa (15 de Maio de 1974 - 30 de Setembro de 1974). Nunca encontrei, sinceramente, grandes motivos para controvérsia.

Penso que a controvérsia advém de se tomar por certo um equívoco fundamental: o de que Spínola seria um homem anti-regime (Estado Novo), um apoiante da descolonização, enfim, um homem que tinha compreendido que depois do 25 de Abril o regime anterior e tudo o que ele mantinha (principiando pelas colónias) havia conhecido um fim sem retorno. Ora, Spínola nunca foi, nem nunca acreditou em nada disto. Era um homem formado no Estado Novo, um dos mais notáveis militares do regime, um germanófilo, apoiante da ditadura franquista e admirador do regime nazi. Nunca quis a descolonização e, sobretudo, nunca quis a Revolução.

Outro gigantesco equívoco é considerar que a obra de Spínola, lançada escassos dois meses antes da Revolução de 1974, curiosamente intitulada "Portugal e o Futuro", marcou uma posição extremamente avançada e nova na altura em que foi publicada. O enorme impacto de "Portugal e o Futuro" nas estruturas da ditadura portuguesa prendeu-se, somente, com o facto de ser um ataque a uma política colonial extremamente rígida, imposta a Caetano pelos "ultras" do regime, encabeçados por Américo Tomaz. O livro de Spínola não apresentou, assim, nenhum tipo de ideias novas (Caetano já havia avançado a tese federalista em 1962), nem era particularmente avançado numa altura em que já todos os restante países africanos conheciam uma década e meia de independência. Como disse Agostinho Neto logo a 25 de Abril de 1974, “O general Spínola é um fascista, autor dum livro chamado Portugal e o Futuro, divulgador das ideias de Marcelo Caetano de há dez anos atrás”.

Um terceiro equívoco (também de proporções gigantescas) é considerar que Spínola foi uma figura fundamental para a realização do 25 de Abril. Não foi, até porque os militares com quem mantinha relações mais estreitas avançaram, num golpe falhado, a 16 de Março de 1974. A atestar esta realidade está o facto de Spínola (ao contrário de Costa Gomes) só ter conhecido o Programa do MFA na noite de 25 para 26 de Abril. O crescendo de poder (que o levou a assumir a Presidência em Maio de 1974) começou, simplesmente, porque os militares que cercavam o quartel do Carmo decidiram que era melhor deixar Marcelo Caetano entregar o poder a Spínola do que rebentarem simplesmente com o último refúgio do Presidente do Conselho.

Assim, o esclarecimento destes factos, que alguma, embora minoritária, historiografia moderna tem levado a cabo, contribuirá para que se vejam esclarecidas as alegadas controvérsias em que se vê envolvida a figura de António de Spínola, possibilitando que o "General do monóculo" seja retratado de forma mais real: como um homem que, à data do 25 de Abril, o tempo havia largamente ultrapassado.

2 comentários:

  1. Enquanto que em Espanha Baltasar Garzón investiga minuciosamente os crimes efectuados durante o franquismo pondo em polvorosa grupos de extrema-direita e saudosistas do caudilho, em Portugal homenageia-se antigos Presidentes da República atribuindo-lhes nomes de ruas. Como isso desse o direito de apagar o passado pouco ortodoxo de António Spínola: a simpatia pelo Estado Novo, da ditadura militar, da reverência a Franco ao piscar de olho ao regime nazi, do comprometimento com Salazar, dos grilhões colonialistas e, o mais grave de tudo, a sua associação na tentativa do golpe contra-revolucionário de Março de 1975. Não deveríamos antes dar valor a quem não teve nada a haver com esse passado tenebroso e a quem possibilitou estarmos a ler este texto de uma forma livre?
    http://dylans.blogs.sapo.pt/

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  2. Pois Dylan. É o problema do branqueamento histórico. mas cá estaremos sempre para lembrar aquilo que verdadeiramente aconteceu. = )

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