sexta-feira, 30 de abril de 2010

O país real.




Soube, hoje, de fonte que considero relativamente credível, que um número bastante elevado de sem-abrigo, bem como de prostitut@s, da cidade de Lisboa andam a ser intimidados (com ameaça do emprego da violência física ou da denúncia ao SEF) para não se mostrarem nas suas actividades “degradantes” enquanto decorrer a visita de Bento XVI à nossa solarenga (afinal, S. Pedro também foi Papa) e piedosa capital.

Logo me lembrei, logicamente, das velhas práticas salazaristas de internar tudo quanto cheirasse a indigente, e mesmo o que não cheirava, mas era igualmente incómodo (como os homossexuais pobres e os “malucos”), em várias instituições devidamente preparadas para o efeito, de que a mais conhecida era o sinistro Albergue da Mitra. Claro que a prática teve sempre um efeito que nunca passou de cosmético, na medida em que a pobreza confrangedora deste país fazia com que a mendicidade, mas também a prostituição, fossem as únicas formas de vida viáveis para um grande número de portugueses.

Hoje, continuam imperando na nossa católica cidade, e convém escondê-las para não dar má imagem. É que um Papa extremamente humano como Bento XVI pode não ficar, minimamente, chocado com os inúmeros relatos de abusos sexuais de menores cometidos pelo clero que lhe iam chegando aos santíssimos ouvidos, mas ficaria, pela certa, bastante mal impressionado se andassem por ai à solta esses indivíduos sem tecto, sujos e que dão um péssimo aspecto à nova Praça do Comércio, especialmente preparada para a recepção do Sumo Pontífice.

Enfim, que a maioria dos católicas já se esqueceu, há muito, do exemplo de Cristo não é segredo para ninguém. (Cristo teria sido o primeiro a aceitar um casal homossexual). Agora que nem sequer recordem factos históricos como o de Jesus, quando entrava numa cidade, ser imediatamente rodeado pelo “pior tipo de gente”, a mais miserável e doente, na qual se incluíam inúmeras prostitutas, certamente, já entra no campo da mais completa ignorância.

Olhem, só tenho pena é que o Albergue da Mitra já tenha deixado de exercer as suas ancestrais funções. O jeito que agora não daria para “arrumar” essa gentalha! Enfim..Viva Portugal! Viva a PSP! Viva o Papa! Viva Salazar!
(E olhem, ao menos o país fica mais "bonito" para as tolerências de ponto!)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Afinal, os gays são pais normais!




Ontem, a Sic dedicou a sua "Grande Reportagem" à temática da parentalidade homossexual. Os pais gays, mães lésbicas e filhos destes casais não podiam ser mais "normais", banais e vulgares. Divulgaram, sempre, a ideia de que eram felizes e toda a estrutura familiar que pudemos observar revelou que não existe nenhuma, por mínima que seja, diferença entre os filhos criados em "contexto homossexual" e aqueles que cresceram com pais heterossexuais. A menina tinha o quarto recheado de bonecas e tudo quanto era cor-de-rosa, o rapaz só queria saber de carros e da playstation. Serão, provavelmente, heterossexuais e não existia nenhum sinal de que poderiam não vir a desenvolver-se de uma maneira completamente saudável e na maior felicidade.


Aquelas famílias homossexuais tinham um funciomanento muitíssimo mais "tradicional" do que aquele que é observável na esmagadora maioria das famílias heterossexuais. Jantavam, por exemplo, todos à mesma hora, na mesma mesa. Quantas famílias "normais" o fazem? No que toca ao relacionamento após a separação e à convivência dos filhos com os pais/mães agora separados, nunca tinha visto situações tão saudáveis: não foi preciso qualquer recurso a um tribunal, todos se entenderam da melhor forma, para o bem das crianças. Crianças essas que preferiram, sempre, estar com o progenitor homossexual, abandonando contextos de inserção heterossexual.


Sim, preferiam alguma eventual discriminação porque o que verdadeiramente conta é o amor. Desde que este sentimento esteja presente num qualquer contexto familiar (homo ou heterossexual) as crianças têm todas as condições para virem a ser felizes.


Criaturas como Isilda Pegado, que pregam o ódio e a intolerância por onde passam, é que deviam estar impedidas de "procriar", na medida em que o preconceito é, sempre, negativo e causa, sempre, infelicidade, medo, ansiedade. Tem repercussões não só naqueles que atacamos, mas também nos que nos são mais próximos. Quem odeia, discrimina, responde com violência, impede a felicidade alheia, contamina as relações afectivas em que se encontra envolvido. E se um dos filhos de Isilda fosse gay? Um amigo? Uma irmã? Um primo? Existirá, certamente, alguma pessoa LGBT na inserção social da Pegado. Esta senhora não pensa, não reflecte, não empatiza, não têm a capacidade de sentir a dor, a humilhação e o desrespeito que provoca e com que trata os outros. Mas a ela ninguém lhe diz que não pode ter filhos.


Só espero que Cavaco Silva, nos 20 dias que agora tem para ponderar a promulgação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, tenha a capacidade, o descernimento e a coragem de decidir em prol do desenvolvimento e da aceitação, em vez de seguir o ódio, o preconceito, envergonhando este país e todos aqueles que são "normais" o suficiente para aceitar que os outros também merecem ser felizes.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Sócrates, Coelho e a depilação.








A ligação que, aparentemente, se pode fazer entre as três notícias é que são, aparentemente, estúpidas em igual proporção. Levantando-se, porém, o véu da aparência, apercebemo-nos de que a o facto de as mulheres quererem deixar de fazer a depilação é perfeitamente compreensível (é doloroso, desconfortável e, no fundo, completamente desnecessário).



Tudo o resto, desde a existência das agências de rating ao facto de Passos Coelho considerar que Sócrates tem alguma capacidade de resolver a crise económica, ou que se deixará influenciar pelo líder do PSD, passando pela resposta que Teixeira dos Santos quer preparar para "mais um ataque" das referidas agências, está sumerso num tão grave e grande grau de idiotice que eu não ficaria mais surpreendido se aparecesse, num qualquer jornal diário de granden tiragem, a seguinte parangona: "Sócrates e Passos Coelho aderiram à depilação definitiva"

Ruas no Público!






Um texto deste modesto blogue foi, no dia 24 de Abril, sábado, parcialmente transcrito pelo jornal Público. Duas razões fazem com que fique, particularmente, agradado com este acontecimento: o facto de o Público ser, claramente, o melhor diário nacional e ter sido referido um escrito meu que trata sobre a temática LGBT (que este blogue tem sempre procurado trabalhar).



Dá-lhe Ruas!!

segunda-feira, 26 de abril de 2010

PCP: dois pesos e duas medidas.






Ainda ontem o Partido Comunista Português, grande responsável pela luta contra o regime salazarista e, assim, pela implantação da democracia em Portugal, marchou comemorando o 25 de Abril. Como podem, depois vir defender um regime que aprisiona aqueles que expressam opiniões divergentes da castrista?



Certamente que todos olhamos com imensa nostalgia para a libertação de Cuba do jugo da ditadura pró-americana por Castro e Guevara e até adoramos andar com camisolas, pins e cartazes com a efígie do Che, mas somos capazes de reconhecer que aquele regime está podre e não difere muito da autocracia do Estado Novo.



Porque não consegue o PCP perceber isto?

Notícia: Damas de Branco impedidas de se manifestarem.

"A mim não me papas!"




O Papa Bento XVI considerou, enquanto Cardeal, que a violação sexual de crianças por parte de mebros do clero não era uma coisa assim tão grave e que, portanto, deveriam se escondidos a todo o custo. Já depois de entronizado Papa continuou a sua política de escamoteamento dos crimes cometidos no seio da sua Igreja.

Não deve, agora, encarar com surpresa o desprezo com que é visto por largos sectores mais esclarecidos da sociedade europeia (1/4 dos católicos alemães considera abandonar a religião católica). É, assim, que se torna possível e, até, perfeitamente aceitável que funcionários do MNE britânico se possam andar entretendo, em reuniões oficiais, a propor a criação de uma marca de preservativos por parte do Papa, a sua benção de um casamento homossexual ou a inauguração de uma clínica de abortos.

E se, hoje, ainda teve direito a um pedido oficial de desculpas, no futuro será uma figura tão insignificante (queira Deus!) que não será seque convidado para visitas oficiais.

domingo, 25 de abril de 2010

25 de Abril sempre, Cavaco nunca mais!







"25 de Abril sempre, Cavaco nunca mais!" Foi este o slogan alternativo que, um pouco por todo o lado, se ouviu na Marcha do 25 de Abril. E porquê, se ainda de manhã Cavaco Silva havia feito um discurso perante a Assembleia da República em que lembrava os valores da democracia e liberdade trazidos por Abril? Porque a democracia e o 25 de Abril (que permitiu que Portugal a abraçasse) são património e um produto da esquerda (razão pela qual os partidos de direita não consideram a manifestação do 25 de Abril suficientemente digna para estarem representados).

As conquistas de Abril são, efectivamente, antigas reinvindicações da esquerda (salário mínimo, a "terra para quem a trabalha", educação gratuita e universal, sistema nacional de saúde alargado, regulação do capitalismo selvagem). Exigências essas que a reacção tem, sempre, tentado, e conseguido, atacar e fazer diminuir. É esta a razão pela qual não há um único partido, organização, colectivo (e pessoa?) de direita que se encontre representado na manifestação em que se celebra esse dia glorioso em que Portugal se libertou do odioso jugo de Salazar (que era, em boa verdade, que continuava governando a partir da cova de Santa Comba).

É por tudo isto que se gritava "Cavaco nunca mais!". Quem preza os valore da justiça e igualdade social não pode, nunca, aceitar uma política de direita. Claro que num clima de crise, provocada, paradoxalmente, pela desregulação da economia que a direita pretende, os valores reaccionários são mais apetecíveis. Quando há pouco para todos, o individualismo impera e esquece-se esse valor da "fraternité" (fraternidade, solidariedade).


Todavia, todos aqueles que verdadeira e genuinamente defendem os valores de Abril, não esquecem que "o povo unido jamais será vencido" e que se vencemos 40 anos de opressão fascista, todos juntos, venceremos, igualmente, a opressão do desemprego, da discriminação, da injustiça e desigualdade social.


Viva o 25 de Abril! Abaixo a reacção!
Vídeo da manif, aqui.

sábado, 24 de abril de 2010

É este o PR que queremos?

Faz todo o sentido proteger o homem que ocultou crimas gravíssimos de violação de menores e que contribiu de forma completamente irresponsável para a disseminação da SIDA por todo o mundo e atacar aqueles cidadãos nacionais que já têm de sofrer, todos os dias, a humilhação de verem os seus relacionamentos ser considerados inferiores, não é?



Tudo isto em momento coincidente com o 25 de Abril. Francamente. É mesmo este o Presidente que queremos?
Notícia: i.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Que vergonha...




Ontem, na Faculdade de Direito da universidade de Lisboa, o Professor Paulo Otero, docente da cadeira de Direito Constitucional II, decidiu apresentar o teste que supra apresento. Fiquei completamente estarrecido quando li o respectivo enunciado. Como é possível que um professor catedrático de Direito, numa das melhores faculdades do país faça perguntas tão idiotas numa prova de uma das cadeiras fundamentais do curso? Tudo motivado por uma enorme estupidez e uma visão tacanha e discriminatória da realidade.

O que mais me choca não é, sinceramente, o facto de o referido professor comparar o casamento entre pessoas e animais ou somente entre animais àquele entre pessoas do mesmo sexo. Infelizmente, há muita gente que considera aceitável avançar este tipo de ideias em defesa de um pensamento que tem tudo de bafio salazarento. O mais espantoso é como é que um reputado jurista pode apresentar este tipo de questões. É que são de tal modo imbecis e irrespondíveis que só me fazem considerar que o ensino naquela casa se arrasta pelas ruas da amargura.

E o que terão pensado os alunos LGB que se encontravam naquela sala? A humilhação ao terem de responder àquela pergunta. A vergonha. Um professor de Direito Constitucional considera, 36 anos depois do 25 de Abril, que os seus alunos gays e lésbicas são merecedores, apenas, da mesma consideração que um "casal de animais vertebrados". Como é que não lhe passou pela cabeça o tamanho do insulto que divulgava? Da afronta. Tenho vergonha, e nojo, de viver num país em que isto se pode passar, livremente, numa faculdade de Direito. De Direito! Depois de a Assembleia da República, democraticamente eleita por todos os portugueses, ter decidido que gays e lésbicas são merecedores da mesma dignidade e valor que qualquer casal heterossexual.

Gostaria de terminar agradecendo, e fazendo a devida vénia a Raquel Rodrigues, a luna que teve a coragem de enviar um mail para blogs e alunos contestando esta situação abjecta. Sofrerá, certamente, as devidas consequências. Mas não teve medo, deu a cara por aquilo que é certo, sem pensar nas notas ou na forma como concluirá a sua formação superior, afrontando o ex-Director da FDL. Raquel, o meu mais profundo agradecimento por nos lembrares do que é verdadeiramente importante.

Numa sociedade decente, naquela em que o mais relevante á a aprendizagem dos alunos, este professor teria problemas: o exame seria, imediatamente, anulado e o docente seria, pelo menos, sujeito a um "progama de reeducação" em que lhe fariam compreender que a doutrinação dos discentes não faz parte das competênicas, obrigações ou direitos dos docentes.

E ainda alguém defende que isto não é grave, e que é apenas a emissão de uma opinião "perfeitamente válida"? Tenham vergonha!

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Entrevista VII : "Uma data histórica para Portugal".




1- O que representa, para ti, o 25 de Abril de 1974?

Uma data histórica para Portugal (e para o mundo).


2- Qual é, para ti, a principal herança do 25 de Abril de 1974?

A Democracia (apesar de imperfeita) e a demonstração de que é possível fazer uma revolução sem derramamento de sangue.


3- Globalmente, a teu ver, o 25 de Abril tem um significado positivo ou negativo?

Positivo.


4- Qual foi, para ti, a figura mais importante na construção da democracia portuguesa?

O mérito pertence a um conjunto de figuras e não apenas a uma, mas posso referir, por exemplo, Mário Soares.


5- Que pensas da forma como foi realizada a descolonização?

Não tenho um conhecimento aprofundado sobre o processo, mas pelo que me contam foi algo repentino, traumatizante e mal estruturado.


6- Portugal é, hoje, uma democracia?

Sim, apesar de imperfeita. Não há sistemas perfeitos.



Dina, Designer Gráfica e Ilustradora Freelancer, 25 anos

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Entrevista VI: "Era preciso parar com a insanidade de querermos ser os "donos do mundo"




1- O que representa, para ti, o 25 de Abril de 1974?

O início de uma nova era política, o fim de um regime estagnante, a (re)abertura da democracia, com a introdução de novas liberdades, como o direito das mulheres ao voto, por exemplo. Novas liberdades, acima de tudo, portanto.


2- Qual é, para ti, a principal herança do 25 de Abril de 1974?

A conquista de novas liberdades, sem dúvida, por vezes até mal aproveitadas ou subestimadas e abrir a porta a outras que estão para surgir.


3- Globalmente, a teu ver, o 25 de Abril tem um significado positivo ou negativo?

Gosto de pensar que ainda tem um significado bem positivo no geral. Certamente será mais positivo do que o período que o antecedeu, mesmo não estando vivo para assistir. (Só a ideia de não poder estar a falar livremente em qualquer sitio assusta-me...)


4- Qual foi, para ti, a figura mais importante na construção da democracia portuguesa?

Como já disse, não era nascido nessa altura, e o pouco que sei aprendi via livros de história há algum tempo atrás. Podia dizer um nome ao calhas como Álvaro Cunhal, mas diria que o povo tornou-se a figura mais importante nessa altura.


5- Que pensas da forma como foi realizada a descolonização?

Não foi a melhor pelo que ouvi. Mas, por outro lado, era preciso parar com a insanidade de querermos ser os "donos do mundo" quando já não o éramos há muito, muito tempo, se é que alguma vez fomos.


6- Portugal é, hoje, uma democracia?

É, para o melhor e para o pior. A democracia como sistema terá sempre falhas, afinal de contas.



André, estudante (mestrado) engenharia informática, 24 anos.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Entrevista V : "Uma mentalidade retrógrada e atrasada".




1- O que representa, para ti, o 25 de Abril de 1974?

Liberdade e fim da ditadura


2- Qual é, para ti, a principal herança do 25 de Abril de 1974?

Uma mentalidade retrógrada e atrasada.


3- Globalmente, a teu ver, o 25 de Abril tem um significado positivo ou negativo?

Positivo.


4- Qual foi, para ti, a figura mais importante na construção da democracia portuguesa?

Não sei.


5- Que pensas da forma como foi realizada a descolonização?

Muito mal feita, porque as ex-colónias entraram em guerras civis e muitas pessoas tiveram que fugir de lá à pressa.


6- Portugal é, hoje, uma democracia?

Parcialmente, porque há bastantes favores, cunhas, cenas obscuras, opressão da liberdade de imprensa e medo de se dizer, às vezes, o que se pensa.

Stefan, estudante história (licenciatura), 24 anos.

Que fizemos para merecer isto?




Que merda de sociedade é esta em que as pessoas se sentem no direito de chamar "paneleiro" ou "fufa" a uma outra em plena rua? O que se passa quando se admite que se atire um "que nojo" quando dois rapazes se beijam na rua? E que estamos, todos nós, a fazer na nossa apatia senão a contribuir para isto? É justo que a taxa de suicídio de adolescentes LGBT seja 3 (3!) vezes superior à daqueles heterossexuais? É aceitável? Merece conhecer violência aquele que não escolheu, não quis (e provavelmente continua a não querer) ser diferente?

Que mal tem, afinal, a diferença? Que importa, que importa se queremos estar com um homem, com uma mulher ou com os dois ou com três ou três dezenas? É assim tão errado querer ser feliz? E que igrejas são estas que deveriam pregar o amor, a paz, possibilitar a redenção e se preocupam em condenar certos tipos de amor porque é homossexual? E que Deus é, afinal, este que permite que a sua Igreja se corrompa desta maneira? Deus, para os homossexuais, morreu há muito tempo. não existe, nunca existiu, nunca protegeu. Os homossexuais estão sozinhos. Nem Deus, nem Estado, nem sociedade, nada...nada.

Como nos reduzimos a uma sub-humanidade e agredimos, violentamos, condenamos, abandonamos outro ser humano com base numa diferente forma de amar? É, afinal, a estupidez e não a inteligência que nos distingue dos outros seres? É o ódio? Como pode um pai rejeitar um filho porque é homossexual? Rejeitar o próprio filho! Como pode não proteger contra tudo, contra todos?

Por que é que não nos revotamos, destruímos, arrasamos tudo isto? E a preocupação com uma pretensa segurança pessoal, com um emprego de merda, com uma família de merda? Não percebemos que esta merda é toda encenada? Vivemos numa filha da puta de uma prisão e não queremos perceber isto. E vale para todos, homossexuais, heterossexuais, transexuais, bissexuais, todos nós contribuímos para esta merda. Todos, e ninguém diz basta.

Como é possível que nos dê prazer e não vontade de vomitar (tal o nojo que deveria representar) o acto de maltratar outro ser humano. Um igual. Como nos compadecemos quando vemos um cão abandonado e continuamos a viver alegremente quando alguém se mata, porque não aguenta mais, porque é gay. Os homossexuais são piores do que cães, valem menos.

Aung San Suu Kyi disse que "a única verdadeira prisão é o medo". Nesta merda desta sociedade, todos vivemos na puta desta prisão e somos, ao mesmo tempo, capatazes e escravos, prisioneiros e carcereiros, agressores e vítimas...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Entrevista IV : Maior figura? "Álvaro Cunhal".




1- O que representa, para ti, o 25 de Abril de 1974?

Representa a liberdade, a democracia, a liberdade de expressão e a esperança numa sociedade mais igualitária.


2- Qual é, para ti, a principal herança do 25 de Abril de 1974?

Não é justo dizer só uma, mas a principal e sem duvida a da democracia. Sem democracia não seria possível a existência de liberdade de expressão que é, na minha opinião, o bem mais precioso. E foi graças à democracia que outras mudanças tiveram lugar no pós-25 de Abril. Entre essas mudanças, a universalização do ensino, um serviço nacional de saúde, que apesar das suas debilidades é considerado dos melhores em termos mundiais, além de que a sociedade não só se tornou mais igualitária, mas também mais inclusiva, mesmo com as minorias.


3- Globalmente, a teu ver, o 25 de Abril tem um significado positivo ou negativo?

Positivo, sem sombra de dúvidas


4- Qual foi, para ti, a figura mais importante na construção da democracia portuguesa?

Álvaro Cunhal.


5- Que pensas da forma como foi realizada a descolonização?

Sinceramente, não tenho uma opinião muito bem fundamentada sobre isso. A descolonização foi uma coisa boa, mas tenho algumas dúvidas em relação a forma como foi feita.


6- Portugal é, hoje, uma democracia?

Claro, mas uma democracia embrionária. É mais uma democracia em construção.


Teresa, estudante de comunicação social (licenciatura), 22 anos.

A ditadura salazarista e o seu povo.



No dia 19 de Maio de 1954, um ceifeira alentejana, uma simples mulher pobre e, aparentemente, inofensiva, foi brutalmente assassinada pelo tenente Carrajola da GNR. Catarina Eufémia haveria de morrer pouco tempo depois dos disparos, com um filho de tenra idade nos braços.

Toda esta tragédia aconteceu porque Catarina chefiava um grupo de mulheres que, em plena época da ceifa de trigo no Alentejo, veio à casa do patrão pedir um miserável aumento de dois escudos pela jorna de trabalho. Atemorizado com o grupo de 14 mulheres debilitadas pela fome e pelo trabalho, o feitor da herdade de Francisco Nunes mandou chamar a GNR.

"Apenas queremos pão e trabalho" terá respondido Catarina quando interrogada pelo tenente da guarda que logo a agrediu com uma bofetada que atirou a fraca compleição física de Catarina ao chão. Enquanto se levantava, depois da indigna golpe, Catarina arremessou: "Já agora mate-me". E foi exactamente o que o tenente Carrajola fez, com três tiros no peito.

Pão e trabalho, pão e trabalho. Foi o que Catarina ousou pedir. E foi por isso que foi morta. No horrendo regime salazarista (que só viria a conhcer um fim em Abril de 74) ninguém tinha o direito de pedir nada, na medida em que a pobreza fazia parte dos objectivos do "Botas" para Portugal. Manter o povo miserável e esfomeado, tornava-o menos atreito atreito a procurar vias de contestação ao regime, porque tinha de se concentrar na próxima refeição.

Catarina Eufémia representa a luta do povo português, paupérrimo, andrajoso, insignificante, desprezível. o povo completamente despolçitizado, o povo que não lutava pela instauração do comunismo ou que reivindicava qualquer mudança de regime. O povo que pedia pão e trabalho. Somente. E era este o povo que Salazar (hoje em dia, admirado por um punhado de mentecaptos para quem o branqueamento histórico é perfeitamente aceitável) espezinhava e oprimia da maneira mias brutal.

"Quem viu morrer Catarina, não perdoa a quem matou". Quem se lembra e quem insiste em recordar também não. E bem podem surgir essas gentes suficientemente néscias para reabilitar o nome de Salazar, que todos nós, os que não queremos esquecer a verdade, aquilo que realmente aconteceu, cá estaremos para impedir que Catarina Eufémia e todo o povo português veja o seu sofrimento apagado por certas crenças abjectas. Tenham vergonha.

(Aqui fica a homenagem de Zeca Afonso, sobre poema de Vicente Campinas. Oiçam porque é lindíssima).

domingo, 18 de abril de 2010

Entrevista III: "A sucessão de acontecimentos é bastante negativa".




1- O que representa, para ti, o 25 de Abril de 1974?

O fim de um regime político, o terminar de uma fase na vida dos portugueses e o começar de outra.


2 - Qual é, para ti, a principal herança do 25 de Abril de 1974?

Boa: liberdade. Má: corrupção.


3 - Globalmente, a teu ver, o 25 de Abril tem um significado positivo ou negativo?

O 25 de Abril tem um significado positivo, mas a sucessão de acontecimentos é bastante negativa, nomeadamente o processo de descolonização que foi "gritantemente" feito de uma forma errada.


4- Qual foi, para ti, a figura mais importante na construção da democracia portuguesa?

Zeca Afonso, Sá Carneiro, Álvaro Cunhal e já mais recente, o Sócrates, por ter tido coragem politica de tomar decisões polémicas.


5- Que pensas da forma como foi realizada a descolonização?

Foi uma descolonização absurda, que não defendeu nem os interesses da Nação, nem dos portugueses das ex-colónias e nem das próprias ex-colónias, que ainda hoje vemos que nunca foram capazes de se estabilizar politica e economicamente, já para não falar da parte social e humana


6- Portugal é, hoje, uma democracia?

É, com todos os defeitos e virtudes que este género de regime comporta.



Fábio, executivo, 26 anos.

Entrevista II: "A descolonização foi péssima".




1- O que representa, para ti, o 25 de Abril de 1974?

Para mim representa a queda da ditadura, e a instauração da democracia, bem como a "ferramenta" para a independência das colónias.


2 - Qual é, para ti, a principal herança do 25 de Abril de 1974?

A principal herança foi haver liberdade de expressão, partidos políticos e um governo democraticamente eleito, e a Assembleia da República para se discutirem os assuntos do país.


3 - Globalmente, a teu ver, o 25 de Abril tem um significado positivo ou negativo?

Tem um significado positivo. Afinal as pessoas têm direito a ter liberdade de expressão, votar, escolher quem querem no poder e lutar pelos seus direitos.


4- Qual foi, para ti, a figura mais importante na construção da democracia portuguesa?

Salgueiro Maia, sem o mínimo de dúvida.


5- Que pensas da forma como foi realizada a descolonização?

A descolonização foi péssima, sem o mínimo de dúvida. De repente, choveu em Portugal um milhão de portugueses, sem ter para onde ir. E isso reflecte-se no estado miserável dos países descolonizados.


6- Portugal é, hoje, uma democracia?

É. Embora tenha perdido muitos dos valores que ganhou aquando do 25 de Abril.



Gonçalo, estudante de ciências e tecnologias (secundário), 17 anos.

sábado, 17 de abril de 2010

Entrevista I: "A força daqueles que lutaram por uma causa e conseguiram"




1- O que representa, para ti, o 25 de Abril de 1974?

Liberdade, porque para mim foi o fim do sofrimento de muitas pessoas neste país. Foi uma viragem muito importante na história do nosso país


2 - Qual é, para ti, a principal herança do 25 de Abril de 1974?

A força daqueles que lutaram por uma causa e conseguiram. Acabamos por bater na mesma tecla, mas será mesmo a liberdade trazida ao povo português oprimido durante tanto tempo.


3 - Globalmente, a teu ver, o 25 de Abril tem um significado positivo ou negativo?

Super positivo


4- Qual foi, para ti, a figura mais importante na construção da democracia portuguesa?

Ramalho Eanes, e o próprio Mário Soares lutou por uma política democrata.


5- Que pensas da forma como foi realizada a descolonização?

De uma forma péssima. Muitos familiares meus sofreram as consequências dessa descolonização porque a minha família foi obrigada a sair de um país que era deles.Eles são africanos de raiz, não são descendentes de portugueses. Tiveram de fugir porque se tornou completamente impossível viver num país que eles amavam, onde tinham uma vida excelente, onde eram felizes.
As condições com que vieram para Portugal foram horríveis, aviões super lotados com crianças no chão. Imagina o que é teres de deixar uma casa, todos os teus bens, até mesmo familiares, porque o teu país está em guerra. Reconstruir uma vida numa cidade que não conheces (neste caso Lisboa), que, mesmo sendo o teu país, estava a milhares de km de distância, noutro continente
Não houve escolha de direitos para as pessoas que ali viviam e tinham as suas vidas, ou saíam dali imediatamente ou morriam. Não havia mais hipóteses, é horrível imaginar esta situação, mas foi o drama de milhares de portugueses que passaram por tudo isso


6- Portugal é, hoje, uma democracia?

Não. Quando temos supostamente, e digo supostamente porque de nada se tem a certeza, um primeiro-ministro que controla toda a comunicação social, não pode ser uma democracia. E quando nem toda a gente tem direitos neste país também não pode ser democracia. Não defendo que toda a liberdade seja permitida porque senão era o descambar total deste país, mas há muitas mentalidades que têm de ser mudadas. Ainda há muita gente que sente falta do Salazar...


Vanessa, Produtora, 22 anos

Os jovens e o 25 de Abril.




A Revolução dos cravos ocorreu, vai fazer no próximo dia 25, 36 anos. Foi um acontecimento quase mágico. A noite extremamente tenebrosa em que Salazar tinha envolto o país (e que Caetano mais não fez do que prolongar) terminou, de forma abrupta, naquela prodigiosa madrugada, onde, pela primeira vez em mais de 40 anos, o sol brilhou em Portugal.

Numa acontecimento único na história da humanidade, um golpe militar democratizou um país e entregou o poder ao povo. O sol que brilhou na manhã de 25 de Abril de 1974 não mais se viria apagar (apesar de tudo).

Tenho ouvido, de forma mais recorrente do que penso ser justo, dizer àqueles que presenciaram e tomaram parte nas acções de Abril, que os jovens de hoje, aqueles que nasceram já depois de feito e consolidado o 25 de Abril, desconhecem aquilo que significou a Revolução dos Cravos e que, assim, facilmente podem malbaratar a herança de Abril.

Eu estou, intíma e sinceramente, convencido do contrário. Penso que os jovens portugueses que nasceram e sempre viveram em liberdade, que sabem o que é poder manifestar livremente uma opinião, poder sair livremente do país, não sentir na pele a míngua da miséria e da coerção do pensamento, valorizam imensamente a herança da Revolução portuguesa e estão sobre a mesma, relativamente, informados.

É isto que vou tentar provar com um pequeno projecto pessoal. Proponho-me fazer uma pequena entrevista a alguns jovens portugueses (todos nascidos pelo menos uma década após a Revolução) para averiguar, ainda que de uma forma que aceito imperfeita, o conhecimento da juventude nacional sobre este momento histórico e de que forma entendem as suas principais consequências.

As perguntas são as seguintes:
1- O que representa, para ti, o 25 de Abril de 1974?
2- Qual é, para ti, a principal herança do 25 de Abril de 1974?
3- Globalmente, a teu ver, o 25 de Abril tem um significado positivo ou negativo?
4- Qual foi, para ti, a figura mais importante na construção da democracia portuguesa?
5- Que pensas da forma como foi realizada a descolonização?
6- Portugal é, hoje, uma democracia?

Irei tentar, até ao final deste mês, publicar duas entrevistas por dia. Estejam atentos, porque penso que as respostas podem ser extremamente interessantes e surpreendentes. Desde já lanço o repto para que todos aqueles que queiram responder a este pequeno rol de perguntas que me contactem. Quanto mais diferentes forem a visões que conseguir recolher, melhor.

Se considerarem que este projecto merece ter alguma relevância, divulguem-no como puderem e conseguirem.

Obrigado a todos aqueles que prestaram a sua contribuição.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Viva Abril!




Abril é o mês em que se comemora a liberdade do povo português. Oprimido durante mais de quatro décadas por uma férrea ditadura, foi só a 25 de Abril de 1974 que conheceu, finalmente, a democracia, trazida na ponta de espingardas que nunca dispararam, por capitães e outros oficiais "menores". Uma classe inicialmente despolitizada que apenas desejava um fim para uma hedionda guerra colonial e uma política interna tenebrosa que mantinha a maior parte dos portugueses amordaçados.

O 25 de Abril de 1974 foi no mais importante acontecimento histórico do meu país no século XX e eu sou um Rottweiller na sua defesa.

Neste mês de Abril teremos muito tempo para discutir uma enorme panóplia de questões que dizem respeito a este marco importantíssimo na história nacional, na medida em que este modesto blogue (até ao final do presente mês) se tornará temático, subordinando-se aos assuntos que de alguma forma estejam relacionados com a Revolução Portuguesa. Espero que para aqueles que, como eu, se interessam por estas questões, este blogue se possa tornar um espaço de troca de ideias e pensamentos.

Agora percebo...

Encontro-me, absolutamente, arrepiado ao ler esta notícia. Algo que tenho tentado não encarar, mas que é, de há muito, uma preocupação presente nos meus pensamentos. Interrogo-me como pode Portugal construir uma democracia, estabelecer as condições para uma cidadania plena, para a defesa das liberdades se os seus jovens não conseguem perceber aquilo que se passa à sua volta?


É com frequência que encontro jovens licenciados na área das ciências sociais que afirmam não ter o hábito de ler...ou de pensar...


Muitas vezes me perguntei como poderia uma grande parte dos mais novos deste país apoiar José Sócrates. Agora compreendo que o que acontece é que não têm, sequer, a capacidade de entender aquilo que verdadeiramente se passa.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A Grande Manha.




Quando veio a público (e, para mim, através do Público) a notícia de que o PS iria formalizar o seu apoio à candidatura de Manuel Alegre, eu logo achei aquilo estranhíssimo e questionei-me porque é que Sócrates que nas presidenciais de 2005 tudo havia feito para que Alegre as perdesse e para que ganhasse o candidato da reacção, e, agora, vinha, tão cedo, dar o apoio do partido ao candidato desavindo com o mesmo.


"Deve ter alguma manha na manga", conclui, então, na minha eterna desconfiança para com aquele que nas artimanhas parece o delfim do velho "manholas" (o Prof. Salazar).


Afinal, por volta das seis da tarde, tudo se esclareceu. A notícia do apoio a Alegre era falsa. E Cavaco pode respirar de alívio. Sócrates tem tudo controlado.

A minha faculdade, parte I.




Hoje foi o "Dia Aberto" na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, o meu estabelecimento de ensino actual. Os dias abertos servem, supostamente, para ajudar os finalistas do ensino secundário a decidir a faculdade que querem vir a frequentar.


O dia escolhido para visitar a minha foi péssimo. Um dia de chuva pavorosa que deu à esplanada(o principal - único?- grande trunfo estrutural da FCSH) um ar de horrenda desolação que só pode ter causado uma péssima imagem naqueles jovens visitantes.


Por outro lado, arranjaram as portas da entrada e as casas-de-banho do rés-do-chão já deixaram de verter (até ver) os fluidos dos respectivos utilizadores para o átrio principal, o que pode ter atenuado um pouco a má impressão causada nos futuros estudantes universitários.


Quando estava na Biblioteca, a tentar, desesperadamente aceder à internet, mas o servidor, dando uma imagem bastante mais próxima da realidade académica do centro de estudos do que aquele que era trasmitido pelos cicerones universitários, se encontrava " em baixo, deparei-me com o grupo de liceais que se encontrava a seguir um estudande da área de "Estudos Políticos" que lhes explicava os meandros do respectivo Departamento.


Quanto penetraram naquela loja de alfarrabista pessimamente organizada a que costumamos chamar de Biblioteca, ouço o referido estudante fazer a seguinte afirmação: "Ah, o que vocês ouviram do professor Horta Fernandes tem que ver com o facto de ele ser um teórico realista e, assim, põe as coisas na forma pior possível e explica tudo a partir daí".


Achei fascinante esta definição do realisto político, embora tenha quase a certeza que o professor em causa discorde em absoluto da mesma, assim como qualquer outro "teórico realista". Só espero é que os visitantes de hoje tenham tido acesso aquele pensamento que me assaltou quando com eles pela primeira vez me confrontei: "fujam!".


terça-feira, 13 de abril de 2010

L'église est morte




A Igreja Católica vive a sua pior crise interna desde o tempo da Reforma Protestante. E mesmo nessa altura do séc. XVI, a Igreja Católica não se viu tão descredibilizada. Quem quis sair saiu, quem quis ficar ficou. Saíram, sobretudo, por divergências teológicas e não por causa dos comportamentos dos sacerdotes.

É assim que, hoje, a Igreja Católica Apostólica Romana se encontra perante a hercúlea tarefa de ter de efectuar uma gigantesca purga interna para poder enfrentar o clamor social de justiça que os seus seguidores, as crianças abusadas e toda a sociedade “ocidental e cristã” lançam por causa dos inúmeros casos de pedofilia entre os mais diversos membros do clero.

Uma investigação interna séria destes casos só poderia ter um resultado: o colapso da maioria das instituições eclesiásticas superiores e a queda de Ratzinger. Ora, ninguém (a começar pelos padres pederastas e a terminar no próprio Bento XVI, passando por toda aquela corja que sumptuosamente vive no Vaticano à custa dos crentes católicos) quer isto.

Assim, é melhor andar a dizer que a pedofilia se encontra relacionada com a homossexualidade e não com o celibato, continuando com o encobrimento dos hediondos crimes cometidos por aqueles que deviam pregar a paz, o amor e todas essas coisas que as Igrejas são sempre extremamente bem sucedidas a combater.

O “Rotweiller de Deus” (o cognome ternurento com que alguns, muito acertadamente, baptizaram Joseph Ratzinger) prefere avançar sobre estas acusações qual divisão Panzer em vez de procurar limpar o nome da Santa Madre Igreja. Afinal, a culpa é da homossexualidade, do uso do preservativo, do Islão e estas acusações são até piores do que a perseguição centenária aos Judeus.

Na Alemanha, esta atitude já provocou o facto de a Igreja Católica ser a instituição com a pior reputação (mesmo pior do que os partidos políticos e instituições governativas) e que ¼ dos seus seguidores esteja a pensar abandonar a crença católica. O Papa “Panzer” devia estar preocupado com esta situação e pôr em prática uma reforma da Igreja (próxima daquela que se seguiu à Reforma protestante). Não está interessado, porque se preocupa mais com o poder terreno do que com a missão divina da Igreja.


Ainda bem que o governo português (sempre o lema Socrático: “uma no cravo, outra na ferradura”: casamento gay, mas dias livres para ir tudo ver o Papa) o vai premiar, atribuindo “feriado” aos funcionários estatais dia 13 de Maio. Sem comentários...

Os seguidores do Demónio?

Mas que raio de instituição é esta Igreja Católica que considera aceitável esconder casos de pedofilia, mas, depois, ataca brutalmente e de forma ignorante a homossexualidade?

O que se passa com esta gente que
relaciona homossexualidade com pedofilia?

Utilizando a retórica da referida instituição apenas posso concluir que o Demónio tomou conta da "Casa de S. Pedro".

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Spínola: Os equívocos de uma figura pretensamente controversa.



Saiu, recentemente, uma biografia de António de Spínola, da autoria do historiador Luís Nuno Rodrigues. Aponta este escrito, como quase todos aqueles que se debruçam sobre esta figura da história recente portuguesa, para o facto de Spínola ter sido uma figura "extremamente controversa". No semestre passado, num Seminário do Mestrado em História Contemporânea, tive a oportunidade de me debruçar sobre a actuação do General no período em que assumiu a Presidência da República Portuguesa (15 de Maio de 1974 - 30 de Setembro de 1974). Nunca encontrei, sinceramente, grandes motivos para controvérsia.

Penso que a controvérsia advém de se tomar por certo um equívoco fundamental: o de que Spínola seria um homem anti-regime (Estado Novo), um apoiante da descolonização, enfim, um homem que tinha compreendido que depois do 25 de Abril o regime anterior e tudo o que ele mantinha (principiando pelas colónias) havia conhecido um fim sem retorno. Ora, Spínola nunca foi, nem nunca acreditou em nada disto. Era um homem formado no Estado Novo, um dos mais notáveis militares do regime, um germanófilo, apoiante da ditadura franquista e admirador do regime nazi. Nunca quis a descolonização e, sobretudo, nunca quis a Revolução.

Outro gigantesco equívoco é considerar que a obra de Spínola, lançada escassos dois meses antes da Revolução de 1974, curiosamente intitulada "Portugal e o Futuro", marcou uma posição extremamente avançada e nova na altura em que foi publicada. O enorme impacto de "Portugal e o Futuro" nas estruturas da ditadura portuguesa prendeu-se, somente, com o facto de ser um ataque a uma política colonial extremamente rígida, imposta a Caetano pelos "ultras" do regime, encabeçados por Américo Tomaz. O livro de Spínola não apresentou, assim, nenhum tipo de ideias novas (Caetano já havia avançado a tese federalista em 1962), nem era particularmente avançado numa altura em que já todos os restante países africanos conheciam uma década e meia de independência. Como disse Agostinho Neto logo a 25 de Abril de 1974, “O general Spínola é um fascista, autor dum livro chamado Portugal e o Futuro, divulgador das ideias de Marcelo Caetano de há dez anos atrás”.

Um terceiro equívoco (também de proporções gigantescas) é considerar que Spínola foi uma figura fundamental para a realização do 25 de Abril. Não foi, até porque os militares com quem mantinha relações mais estreitas avançaram, num golpe falhado, a 16 de Março de 1974. A atestar esta realidade está o facto de Spínola (ao contrário de Costa Gomes) só ter conhecido o Programa do MFA na noite de 25 para 26 de Abril. O crescendo de poder (que o levou a assumir a Presidência em Maio de 1974) começou, simplesmente, porque os militares que cercavam o quartel do Carmo decidiram que era melhor deixar Marcelo Caetano entregar o poder a Spínola do que rebentarem simplesmente com o último refúgio do Presidente do Conselho.

Assim, o esclarecimento destes factos, que alguma, embora minoritária, historiografia moderna tem levado a cabo, contribuirá para que se vejam esclarecidas as alegadas controvérsias em que se vê envolvida a figura de António de Spínola, possibilitando que o "General do monóculo" seja retratado de forma mais real: como um homem que, à data do 25 de Abril, o tempo havia largamente ultrapassado.

domingo, 11 de abril de 2010

O "bom" e o "mau".



Como sempre quando uma pessoa, sobretudo quando o facto se dá de forma algo trágica, toda a gente tem tendência para se centrar naquilo de "bom" que a pessoa terá posto em prática durante a sua vida, escamoteando o "mau" e o controverso.

Tem sido este processo aquele que está sendo posto em prática depois da morte trágica de Lech Kaczynski, Presidente da Polónia. Milhares de pessoas se têm manifestado nas ruas, celebrado missas, chorado a partida do seu Presidente.

Kaczynski tem sido lembrado como uma figura importantíssima na implantação da democracia na Polónia e na luta pela liberdade. Certamente que foi um grande lutador contra a ditadura comunista polaca. Não creio, todavia, que tenha sido um grande defensor das liberdades na Polónia actual, e vários factos servem para o atestar: um catolicismo feroz que roçava, muitas vezes, a intolerância religiosa, a defesa da pena de morte e a proibição de manifestações de cunho LGBT.

Esquecer factos "menos bons" acerca de uma pessoa cujo falecimento aconteceu em tempo recente não é fazer jus à personalidade e contributos da mesma. Desumanizar uma pessoa, recordando, apenas, aquilo de benéfico que terá feito é, sempre, um insulto à memória de quem partiu, até porque implica uma decisão sobre aquilo que é "mau" e "bom" que é sempre variável, sempre subjectiva.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Hoje é um pouco menos mau ser português



A partir de hoje, depois da decisão do TC de que o diploma que estende o casamento civil a casais compostos por pessoas do mesmo sexo não é contrário aos ditames da Constituição da República Portuguesa, o casamento gay é uma realidade. Mesmo que Cavaco, o que considero duvidoso vir a acontecer, vete politicamente o diploma (com que explicação?), bastará que se repita a mesma maioria que anteriormente aprovou a proposta para que a justiça pela qual clamam amplos sectores da sociedade portuguesa se veja posta em prática de maneira inequívoca.

Cavaco Silva, e podemos imaginar o quão a contragosto o fará, terá de engolir o, para si, gigantesco sapo de ser o Presidente que terá de promulgar para valer como lei um diploma contra o qual é intrínseca, moral e "religiosamente" contra. O mais reaccionário dos Presidentes eleitos na democracia portuguesa será aquele que irá promulgar a lei mais "avant-garde" que o regime do pós-25 de Abril produziu. Pode, todavia, ficar descansado porque a sociedade (e sobretudo os seus potenciais apoiantes numa provável recandidatura às presidenciais) não esquece que ele tudo fez para que este passo no sentido do futuro fosse dado no nosso país.

Agora, e para causar a menor celeuma possível, penso que Cavaco desejará promulgar o referido diploma o quanto antes para que a sua entrada em vigor não coincida com a visita da Sua Santidade o Papa Bento XVI ao nosso outrora fervorosamente católico país.

Congratulemo-nos porque, apesar desta medida ficar claramente aquém daquilo que seria desejável (na medida em que exclui a adopção), em breve, Portugal tornar-se-á uma país mais justo, mais inclusivo, mais igualitário, tendo, igualmente, em conta as também recentes decisões no que respeita à transexualidade e doação de sangue por homossexuais masculinos. Hoje é um pouco menos mau ser português.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A cegueira das vitórias.




Ninguém poderá duvidar do "perfil ganhador" de Pinto da Costa. Muitas vezes (muitas mais do que aquelas que os adeptos do FC Porto querem admitir) à custa de maquinações extra-desportivas, muitas outras, provavelmente, por mérito dos seus atletas, a equipa de futebol do FC Porto construída por Pinto da Costa ganhou títulos como nenhuma outra na história do clube portuense.

Todavia, a maior vitória de Pinto da Costa não se situa no campo futebolístico, mas sim no das suas finanças pessoais. O Presidente do FC Porto passou de uma situação em que se encontrava com a maior parte do património empenhada para uma outra em que ganhará, ao que consta, 52 mil euros por mês.

E ainda fica por explicar o enorme passivo financeiro do clube, tendo em conta as inúmeras vendas de jogadores e participações em competições europeias. Para onde foi esse dinheiro? Contudo, enquanto o manto das vitórias continuar a enevoar a situação, Pinto da Costa não terá grande coisa com que se preocupar.

terça-feira, 6 de abril de 2010

O pretenso recrudescimento do Islão na Turquia.




Muitas vezes temos ouvido, muitas vezes até de analistas relativamente bem informados, falar do crescimento da influência do Islão na sociedade turca. Este tipo de afirmações transmite, desde logo, a ideia de que é errado e prejudicial que uma sociedade se torne mais religiosa. Contudo, pelo que o fundamentalismo religioso tem provocado às mulheres, minorias religiosas, étnicas e sexuais, é perfeitamente compreensível que exista uma certa aversão ao aumento da influências das igrejas.

Não obstante, a afirmação supra referida padece de outra falha que revela um certo desconhecimento da realidade turca. Pelo que pude observar de muito perto (e eu estive numa das mais tradicionais e religiosas cidades da Turquia, Konya), não me pareceu que a Turquia fosse um país muito fiel ao Islão.

Vários factos o atestam: a maior parte dos turcos bebe, abundantemente, uma bebida extremamente alcoólica (o raki). Ignoravam, talvez com excepção do dia santo de sexta-feira, os chamamentos dos muezins para a oração. Às horas da oração a maior parte das mesquitas encontrava-se exactamente como as "nossas" igrejas católicas: quase vazias e povoadas por um punhado de elementos extremamente idosos.

O comportamento dos imigrantes turcos na Alemanha não pode servir para parametrizar o da população turca que se mantém na Anatólia e o facto de, provavelmente, a existir um referendo sobre a entrada na "Europa", a maioria dos turcos pronunciar negativamente não tem nada que ver com o desejo de um Islão mais puro ou o regresso às origens, mas somente o reflexo do descrédito na aceitação plena.

Devido à proximidade com o "Ocidente", a nação turca tem mantido, desde 1923, péssimas relações com os restantes países árabes. Hostilizá-la, acreditando que se encontra "perdida" para o Islão (mais conservador) é um passo que uma União Europeia que lida com uma população muçulmana cada vez mais numerosa não pode tomar. Temos de nos lembrar que nem o cristianismo é a religião da Europa, nem o islamismo a religião oficial turca.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Não basta Mandela.




Quando Nelson Mandela conquistou a presidência sul-africana em 1994, o mundo (pelo menos a parte deste que defende a igualdade e ajustiça social) rejubilou. O regime racista havia sido vencido, nascia a "nação arco-íris" e a reconciliação nacional estava a ser posta em marcha por um Presidente que é, de facto, um ser superior.


Todavia, o racismo não havia terminado e as décadas de repressão e humilhação da população negra não haviam sido esquecidas nem apagadas pela política de aproximação de Mandela. Imediatamente, estalou a violência entre as comunidades branca (africânder) que continuava amplamente privilegiada e negra (que se mantinha, em grande parte, miserável) e as grandes cidades sul-africanas passaram a ser as zonas mais perigosas para se viver (tirando as áreas em guerra).


O recente assassinato do líder do movimento africânder de extrema-direita vem-nos relembrar esta situação e que não basta um líder quase sobre-humano para manter a unidade num país. Infelizmente, Mandela (tal como Gandhi na Índia/Paquistão), não pode, sozinho, promover e fazer cumprir o plano de reconciliação nacional. A comunidade negra sul-africana pode ter fingido apagar da memória o apartheid, mas não esqueceu, nem perdoou.