terça-feira, 16 de março de 2010

"A tradição civilizacional heterossexual".




Perante a inevitabilidade da mudança social, os "sectores da reacção" avançam os maiores disparates. Hoje, Jorge Miranda "cuspiu-nos" mais duas, falando acerca do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

I- Foi capaz de reconhecer que o casamento não tem "por fim específico a adopção". Todavia, depois, afirmou algo que é completamente absurdo: “só através do casamento ou da união de facto entre heterossexuais é que há filiação”. Hum...então, afinal, o sexo ocasional não gera novas vidas. E também não existem mães solteiras que nem sabem quem são os pais dos filhos e todas essas coisas, seguramente, "horríveis" para uma mentalidade tão superior e prossecutora de uma rectidão social absoluta.

II- Numa última "cuspidela" no jornalista mais próximo acrescentou que "todo o sentido da Constituição e da Declaração Universal, sem falar sequer na tradição civilizacional, é no sentido de o casamento ser restrito a heterossexuais". Em primeiro lugar, nem a CRP nem a DUDH definem casamento, limitando-se a garantir o direito de todas as pessoas acederem ao instituto.

O conceito de tradição civilizacional é, para mim, completamente imperscrutável. Se compreendo o sentido do conceito, pretende referir-se aos valores sobre os quais assenta a nossa organização político-social e as formas de reprodução das respectivas instituições, embora a expressão "tradição" venha aqui complicar o entendimento do conceito. Isto porque introduz um factor temporal bastante amplo, que não se coaduna com o que entendo por "civilização", que, por ser composta por um conjunto de valores, tem uma existência extremamente mutável.

Convém que nos lembremos que da nossa "tradição civilizacional" fazem parte práticas tão hediondas como a pena de morte, a escravatura, o domínio da mulher pelo homem e etc. E não me parece (quero acreditar) que exista alguém, que no seu perfeito juízo, as possa, hoje, defender.

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