segunda-feira, 8 de março de 2010

Óscares 2010: uma análise política.




Foi com alguma surpresa, entre os cinéfilos comuns, mas não entre os melhores críticos cinematográficos americanos (Roger Ebert, no programa de Oprah Winfrey havia previsto com exactidão os vencedores das principais categorias), que "Estado de Guerra" (The Hurt Locker), sobre uma unidade de elite do exército americano dedicada a desmantelar explosivos nas ruas da, agora caótica, cidade de Bagdad, venceu o Óscar de Melhor Filme, consagrando Kathryn Bigelow como a Melhor Realizadora (a primeira vez que o prémio é entregue a uma mulher.

Avatar, a metáfora sobre a destruição da natureza pela perniciosa actuação da mão humana sedenta de recursos, foi o grande derrotado da noite, conseguindo arrecadar apenas 3 Óscares nas categorias técnicas.

Confesso não ter visto, ainda, "Estado de Guerra". Todavia, a partir do que li e fazendo uma análise política, a vitória deste filme é, efectivamente, surpreendente pelas conotações políticas que carrega. Abordando os temas da guerra do Iraque e das pressões psicológicas traumáticas da guerra sobre os soldados, "Estado de Guerra" só pode ser um filme incómodo numa Academia que se tem revelado, sempre, politicamente bastante conservadora.

Avatar era, então, deste ponto de vista, o filme mais indicado para a vitória, na medida em que a sua mensagem sobre os perigos da ganância humana calha muito bem num mundo em que as alterações climáticas já são consensualmente um problema mundial, de direitos humanos, até (o que o nobel da paz entregue a Al Gore bem confirma). Hollywood decidiu ser problemática a nível político, e a mim parece-me que bem, na medida em que o stress traumático causado pela guerra é sempre um tema que causa algum embaraço político e, portanto, convém esconder.

Contudo, para mim, o filme que deste ponto de vista, é social e politicamente mais interessante e transmite algumas ideias importantes é a película de animação "Up!", já que aborda, de uma maneira simples, mas ao mesmo tempo bastante rica simbolicamente, as relações entre gerações muitos distintas: idosos e crianças/jovens. Trata as temáticas da solidão na velhice, do afastamento inter-geracional, das diferentos formas de ver o mundo consoante a idade do observador. Expressa a ideia de que basta dar um motivo, arranjar objectivos, para que as pessoas mais velhas (laboralmente inactivas) possam encontrar razões para viver com mais felicidade e qualidade de vida. Tem na base uma mensagem política de que cumpre encontrar um propósito para os nossos idosos e combater a alienação social em que vivem.

Para finalizar, "Precious", outro dos sérios candidatos ao Óscar mais cobiçado, veicula, também, uma mensagem importante que mistura o racismo, os maus-tratos domésticos e a gravidez precoce, para nos dizer que todo o ser humano tem o seu valor intrínseco enquanto pessoa e que é sempre possível vencer as adversidades de um quotidiano traumático. Como bem se percebe, faz-nos pensar em questões interessantes, caindo, não obstante, no "já vi isto em qualquer lugar" ou em alguns lugares-comuns que teria sido importante subverter (a professora bonita e com boa condição económica que ajuda os pobres, o filho como momento catártico de mudança,o arrependimento maternal...).


(Veja, aqui e aqui, os vencedores deste ano).

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