quinta-feira, 18 de março de 2010

O "problema" é que há excesso de sangue.




Eu recuso-me terminantemente a doar sangue. Não pelo desconforto, falta de tempo ou o meu histórico receio de agulhas e restantes objectos cortantes. Simplesmente, porque os serviços de saúde portugueses têm excesso de sangue e, assim, é desnecessário que eu me submeta a uma prática que, podendo salvar a vida a inúmeras pessoas, é relativamente desagradável.


"Se é homem: alguma vez teve relações sexuais com outro homem?". É a existência desta pergunta nos formulários produzidos pelo Instituto Português do Sangue (IPS) que motiva a minha conclusão de que os bancos de recolha de sangue nacionais devem estar a abarrotar da referida "substância". Em meados de Fevereiro o IPS veio alertar a sociedade portuguesa para o facto de as reservas de sangue estarem em níveis perigosamente baixos. Assumo, contudo, ter-se tratado de um simples lapsus linguae.



A criatura que dirige o IPS veio já dizer que a questão tem todo o sentido e que se irá manter, na medida em que "a prevalência de agentes patogénicos que podem provocar doenças graves por transfusão de sangue é maior na população homossexual masculina". "Por razões anatómicas, os homens estão mais expostos a doenças graves que possam ser transmitidas" [os homens ou os homens homossexuais?...], afirmou há cerca de seis meses quando estalou o "êscandalo".



O que disse vai contra todas as evidências científicas e sociais, tendo, logo na altura, o Coordenador Nacional para a Infecção VIH/sida que os heterossexuais têm uma taxa de infecção pelo VIH superior à dos homossexuais.



Assim, um homem que toda a sua vida apenas tenha mantido relações sexuais com o seu companheiro de sempre, é recusado porque os "homossexuais masculinos são instáveis e promíscuos" (palavras de Gabriel Olim - a criatura a que acima aludi e que preside ao IPS - que tiveram o assentimento e concordância da actual ministra da Saúde).



Podem, então, ficar com a firme certeza de que nenhuma gota do meu sangue será "desperdiçada" num sistema nacional de saúde que ousa fazer este tipo de afirmações (que esperávamos terem conhecido o seu termo em 1970). E aqueles que estão em risco de vida por falata de uma transfusão sangínea, paciência. Pensem como seria muito pior cosnpurcarem os vossos corpos com um sangue de um homem que já teve relações sexuais com outro.


Notícia: Público.


4 comentários:

  1. E o que respondes quando te dizem que podes e deves doar à mesma, pelo bem de quem precisa desse sangue?

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  2. Digo a essas pessoas que se manifestem junto ao IPS e ao Ministério da Saúde, que enviem cartas, que escrevam comunicados para a imprensa dizendo "eu não discrimino. Preciso do vosso sangue". Nunca existiu tal iniciativa.

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  3. Boa ideia! =)

    É que eu também acho que não devo doar sangue, mas atiram-me sempre com esse argumento e fico sem saber como responder... =p

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  4. Sou dador de sangue no instituto do sangue perto da quinta do covelo no Porto.
    Nunca lá me foi feito nenhum questionário escrito nem verbal sobre a minha orientação sexual e já abordei os técnicos sobre esta questão ao que me responderam, como é óbvio, que tanto um homosexual como um heterosexual pode ter comportamentos de risco, que são aliás questionados sem descriminação de sexualidade.
    Obviamente que depois de um questionário aprovado todo o sangue recolhido é analisado e segue todos os parâmetros de segurança até chegar ao receptor.
    Aconselho qualquer homosexual que queira fazer uma doação a dirigir-se ao instituto do sangue e a preencher o questionário conscientemente, de certeza que será bem tratado.
    E não é preciso mentir, sou dador de sangue apesar de já ter visto negada a possibilidade de doar sangue por várias razões: por ter tido uma parceira nova (é necessário o periodo de janela para uma possível infecção do hiv se revelar nas análises) ou até por fumar uns charritos de quando em vez, ou por ter feito uma operação (mais um periodo de janela).
    o que se pretente com estes “periodos de janela” é evitar uma doação e posteriores análises que são feitas a DST e outras doenças. Todo o processo de recolha e análises é muito caro e parece-me bem se se conseguir isolar as alturas na vida de uma pessoa em que uma doação possa vir a resultar numa doação para o lixo. Com os períodos de janela consegue-se reduzir o custo das unidades de sangue que são fornecidas para os hospitais o que pode um dia ser bom para qualquer um de nós.
    Espero ter sido útil :)

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