quarta-feira, 17 de março de 2010

Natalidade. Duas notas.



A pílula dos 5 dias seguintes passa, hoje, a ser vendida em Portugal. Só posso achar positivo, na medida em que, seguramente, se irão evitar inúmeras interrupções voluntárias da gravidez (uma prática extremamente dolorosa, fisica e emocionalmente) em mulheres que não puderam/conseguiram tomar a pílula do dia seguinte.

Como sempre, os arautos da natalidade, na sua campanha patriótica pelo nascimento de mais bebés portugueses (brancos, suponho, porque pretos, "monhés" ou brasileiros já não devem servir). Crêem as criaturas que é pelo lado da proibição que se irá evitar o declínio do crescimento da população europeia branca, esquecendo toda a mudança social, económica e de mentalidades que provocou esssa alteração do comportamento dos brancos europeus.

Existem, ainda, aqueles que consideram que a concepção de uma criança é sempre resultado de um desígnio divino, cuja interrupção consubstancia um atentado à própria existência de Deus. Havia um professor na minha escola que chegava a afirmar que "nas caixas de preservativos devia constar a seguinte frase: Eu não acredito em Deus".

Este tipo de concepção sempre me fez alguma confusão, na medida em que não compreendo como se insere aqui o livre arbítrio. É que quando um homem de 40 anos viola, tortura e mata por estripamento 20 crianças de 2 anos, ninguém tem a coragem de cometer a blasfémia de imputar o acto a Deus. Todavia, o nascimento de um bebé (inerentemente bonito, fofinho, ternurento e etc.) já é o culminar de um processo posto em prática por decisão divina e, aqui, a decisão humana já é residual e carece de importância. Estranho, não é?

Voltando aos paladinos das ideias de promoção da natalidade (quer através da proibição de todos os meios de prevenção e de todas as formas seguras de interrupção da gravidez, como da atribuição de chorudos subsídios às senhoras que tiverem a bondade de contribuir com três pequenas criaturinhas brancas para assegurarem o nosso "modelo social europeu" - como se este, já agora, não tivesse sido, sempre, sustentado pela imigração), cumpre que se lembrem que não estamos aqui a falar, somente, de números.

O nascimento de uma criança não deve, em circunstância alguma, ser pensado em termos do cumprimento de alguma meta de crescimento populacional, mas sempre com a responsabilidade ética e moral que implica o aparecimento de um novo ser humano, tendo em conta todo o sofrimento e toda a felicidade com que pode vir a ser confrontado. Devem ser dadas todas as condições para que uma fmília tenha todos os filhos que deseje, enão mais do que isso.

A "promoção da natalidade" é tão arrepiante hoje, como nos tempos em que fazia parte da propaganda hitleriana para a ascensão da raça ariana ao estatuto de superioridade étnica que o Führer projectava.

2 comentários:

  1. eu diria nem mais (sem querer fazer plágio)
    só um à parte, tens filhos? se bem que quem os tem não serve de garantia de os bem tratar mas pode ter conhecimentos e experiÊncias advindas.

    p.s. sou pai
    Hugo Ene

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