sexta-feira, 12 de março de 2010

Na minha escola: O mundo em que vivi.






Na minha escola o bullying não era apenas uma prática ou forma de sobrevivência, era, verdadeiramente e no sentido sociológico do termo, uma instituição. Ao contrário do que é comum na maioria das escolas, na minha o bullying não se processava somente entre os alunos ou por parte dos alunos dirigido aos professores, acontecia, também, entre os professores e, muitíssimo mais grave, dos docentes em direcção aos estudantes.

A minha escola era um colégio privado, e é comum que as pessoas me digam que eu cresci protegido e afastado do mundo real. Posso afirmar, contudo, que o "universo ideal" onde fui progredindo académica e pessoalmente era muitíssimo mais brutal e difícil do que qualquer dessas vivências reais que me possam apresentar. (Porque eu já fui monitor numa colónia que recebe as crianças mais problemáticas e violentas da área de Lisboa, e os alunos na minha escola eram muitíssimo piores uns para os outros). Na minha escola ser diferente não era só difícil, era um atentado aos próprios valores que submergiam pessoal docente, não-docente e estudantes.

Ser gay, preto, chinês, ter um cabelo diferente, ser muito alto ou muito baixo, muito magro ou muito gordo, usar óculos, ser deficiente, feio, tímido, feminino (se rapaz) ou masculina (se rapariga) não eram só motivos de gozo, mas de humilhação e degradação humana. E nem sequer era necessário ter estas características, bastando ser irmão ou amigo de alguém que as tivesse para que o processo de ostracização fosse posto em marcha. Os níveis de violência psicológica não diferiam muito daqueles praticados num qualquer campo de concentração nazi ou soviético.

A certa altura, houve um estudante que se suicidou. Deu um tiro na boca na casa-de-banho de casa. Rezámos missas e clamamos pelo perdão divino do acto, sem perceber por que razão teria aquilo acontecido. "Ele parecia feliz", disse-se na época. Hoje não me é muito difícil compreender as razões daquele rapaz. Seguir a norma e uma espécie de correcto (completamente disfuncional) era o lema na minha escola, e por vezes era difícil cumprir com os parâmetros.

Na minha escola os próprios professores faziam parte deste mecanismo de esmagamento da individualidade, da indiferença. Não era incomum ver docentes reunidos com alunos a espalhar boatos e falsidades sobre outros alunos, ou professores a enxovalhar outros perante os alunos. Havia até uma espécie de professora de Sociologia que se divertia a causar as maiores dificuldades a uma aluna, apenas porque esta demonstrou ter muitíssimo mais conhecimento na matéria do que a docente (e na minha escola a incompetência docente era, e é, também um valor assente e que convinha não contestar).

A direcção na minha escola era um entidade inexistente e quem comandava era mesmo uma corporação pouco clara que juntava alguns docentes. Daí que queixas de maus-tratos a alunos por outros estudantes ou docentes caíssem, sempre, em saco roto. Na minha escola, o Colégio Marista de Carcavelos, aprendi que o cristianismo também era a religião do horror e que aqueles que deviam ser os guias, os modelos a seguir: os professores, eram os promotores da injustiça, da mesquinhez, da brutalidade psicológica.

No dia 9 de Fevereiro, Luís, um professor da Escola Básica 2+3 de Fitares (Sintra) atirou-se ao Tejo. Apareceu logo a justificação de que tinham sido as pressões e mau comportamento dos alunos de uma das suas turmas que levaram ao sofrimento atroz deste ser humano. Creio ser este entendimento extremamente redutor. Turmas complicadas e pessoas supostamente frágeis existem em todas as escolas.

Acontece que, nalgumas instituições, a comunidade educativa funciona, e os professores encontram na direcção das escolas e nos outros professores pontos de apoio. Nesta escola de Sintra, tal como na minha escola, os outros docentes e a direcção observaram, de longe, impávidos, enquanto um professor era brutalizado pelos estudantes (quem sabe se, até, não terão contribuído para isso). Assim, somos, todos os que lidámos com Luís ou com pessoas na mesma condição, culpados pela forma como permitimos que o prazer de humilhar os outros, a humilhação de outro ser humano, o esmagamento da diferença marquem o dia-a-dia nalgumas das nossas escolas. E não é, com certeza, apenas, com "serenidade e equilíbrio", que vamos resolver estes problemas gravíssimos.

2 comentários:

  1. ...não sabia que também tinhas sido aluno dos Maristas. Infelizmente também lá passei uns anitos e não guardo nenhuma boa memória...antes pelo contrário! As piores estão relacionadas com um caso que ainda se levantou na altura do processo Casa Pia mas que foi totalmente abafado...o dinheiro da igreja compra muita coisa!

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  2. c.,

    Também me lembro dessa história, e de como tudo foi estranho...

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