quarta-feira, 24 de março de 2010

A discriminação da doença mental.




Um recente estudo revelou ser Portugal o país europeu com mais doenters mentais. Não foi com grande estranheza que recebi esta notícia. No nosso país, o doente mental para além da enfermidade tem de lidar com a discriminação derivada da sua situação. Por razões que dizem respeito ao desconhecimento ainda patente sobre o funcionamento do nosso cérebro e à crença (cristã) da superioridade da mente (o composto da alma) sobre o corpo, a doença mental é vista como uma fraqueza provocada pela própria pessoa. Como algo que o sujeito deveria ser capaz de vencer sozinho.

Ninguém se atreveria a dizer a uma pessoa com um cancro incurável: “tens de fazer um esforço! Tudo depende de ti”. Não ousaríamos, sequer, fazer tal afirmação perante uma pessoa que partiu o braço e cuja recuperação está a ser ligeiramente mais demorada. Em relação ao doente de cancro manifestaríamos a nossa pena e solidariedade pela situação, ao do braço partido perguntaríamos “precisas de ajuda para alguma coisa?”.

O doente mental não é digno de nenhuma destas atitudes. Sobretudo aquele que não sofre de uma diminuição das capacidades cerebrais, mas “somente” de depressão ou ansiedade generalizada. Quem recorre a um psicólogo ou psiquiatra (e, por incrível que possa parecer, ainda é mais aceite o recurso a este do que àquele) é, imediatamente, classificado de maluco. É, assim, que a maioria das depressões e estados de ansiedade gravosos no nosso país são tratados quase sempre com recurso a medicamentos e por médicos de clínica geral.

Se, por exemplo, nos Estados Unidos é absolutamente comum ir ao psicólogo, terapeuta ou psicanalista, em Portugal é sempre com vergonha que se recorre a este tipo de serviços.

Há uma razão de fundo para esta discriminação: o medo de que também nos possa acontecer, de não estarmos a salvo de, um dia, termos de enfrentar o sofrimento psicológico. Assim, preferimos ver o mal-estar mental como um problema dos “outros”, que “eles, porque são fracos, não conseguem resolver, mas que, nós conseguiríamos enfrentar com facilidade.

Aquilo com que odiamos ser confrontados é que a barreira que nos separa dos “malucos” é tão ténue que, de um momento para o outro, a janela do nosso sexto andar ou os calmantes da nossa avó podem parecer a melhor solução.

3 comentários:

  1. Acho que isso são as pessoas que não têm o que fazer. Tipo ao em vez de lidar com sua propria vida, ocupam-se em criticar o modo que de vestir, seu comportamento e tais enfermidades, no caso Doenças Mentais, acho uma falta de respeito, de moral, por mais que sejam assim, todos merecem um pouco de respeito, tanto em casa, na ruas e de todos. Pois não devemos atacar com pedras o telhado dos outros, de modo que o nosso também pode ser de vidro...

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  2. Boa noite,eu concordo em grande parte com o que diz contudo acho que a incompreensão(infelizmente) abrange mesmo os próprios psicológos ...pior que não nos perguntarem se precisamos de ajuda é ainda a crítica destrutiva ,a quem sofre de um transtorno psíquico com comentários do tipo" tu és maluco ou ele é maluco" ou "tenho pena de ti" com o fim de diminuir ao invés de ajudar!
    Ass Angela

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  3. Angela,

    Eu concordo, de facto, com o que diz. Mas esses psicólogos estão muito longe se ser gente com capacidade para o exercício da própria profissão, já que chegam a negá-la com esse tipo de discurso.

    A maior parte, quero acreditar, preocupa-se, genuinamente, em assumir uma postura terapêutica construtiva.

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