quarta-feira, 3 de março de 2010

Crianças-soldado à portuguesa.




No Museu Militar do Porto existe um programa no qual, por duas horas, crianças são transformadas em recrutas do exército. "Não quero ver dentes brancos a brilhar, não quero ouvir sorrisos. A partir deste momento, vocês são um pelotão de soldados recrutas", grita a "instrutora", no pátio da antiga sede da PIDE na Invicta. Este programa resultou do convite da Capital Europeia da Cultura 2001 para que os museus da cidade criassem um programa para as famílias. O Museu Militar decidiu que era uma boa ideia tornar jovens em militares, qual crianças-soldado por breves momentos. Graças a Deus que a adesão tem sido muito pouca. Só demonstra que os pais portugueses não são completamente doidos.

Toda a instituição militar me deixa extremamente desconfortável. É daqueles males necessários porque o homem é uma espécie suficiente estúpida para criar formas de destruição particularmente perfeitas da sua própria espécie. Promove, ainda e talvez por necessidade das funções que desempenha, aquele estúpido culto da masculinidade e da virilidade. "Não há bailarinas no exército, só militares", dizia a Sargento encarregue de comandar o pelotão de adolescentes imberbes, esquecendo-se, certamente, de que ser uma bailarina profissional é fisicamente muitíssimo mais exigente que ser militar.

Enfim, é tudo mau e errado nas Forças Armadas, mas tudo necessário, bem sei. Os militares, se não estiverem bem enquadrados pelo poder civil, se não tiverem uma ética política forte, se não compreenderem bem os limites das suas funções, podem utilizar a força para chegar ao controlo dos respectivos países, como acontece um pouco por toda a África, mas também se deu na América Latina, Ásia e, mesmo, na Europa (lembremo-nos do golpe de 28 de Maio de 1926).

Assim, o que cumpre que seja feito não é entusiasmar os nossos jovens para a carreira militar, andar a vestir-lhes fardas e a fazer da integração num qualquer batalhão fingido divertimento de fim-de-semana, mas sim incutir nos futuros militares uma ética política e moral forte e consistente, que lhes permita perceber que não são detentores de qualquer tipo de poder, mas somente meros servidores do poder popular.

(Até porque, não consideram particularmente chocante ver crianças em uniforme militar?)

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