domingo, 28 de março de 2010

Turquia - primeiras impressões.

Encontro-me, de momento, na Turquia, mais precisamente na região da Capadócıa, razão pela qual me tem sido extremamente difícil vir, aqui, com regularıdade, actualizar este receptáculo dos meus pensamentos. Encontro-me, por outro lado, a escrever utilizando um teclado turco, o que torna bastante maís difícıl e morosa a publicação de um qualquer texto. Gostava, todavia de deixar, nestes espaço, um pequeno testemunho de algumas primeıras impressões acerca da realidade turca.


Em primeiro lugar, se é certo que apenas 4% do território turco se encontra, geografıcamente, na europa, a verdade é que, por aquilo que tıve a possibılidade de observa (e estive, ontem, em Konya, uma das mais tradicionais cidades turcas), o povo turco é muito mais ocidental e europeu que oriental, asiático ou árabe. Chegou a ser decepcionante as parecenças do modo de vida turco em relação ao portugues (os teclados turcos não tem acento circunflexo). Ğpr exemplo,a esmagadora maioria das mulheres turcas (na zona do medıterraneo, mas mesmo no interior não usam lenço para cobrir a cabeça (embora nas zonas mais tradicionais o uso seja mais comum, não abrangendo, todavia, a população mais jovem).

Revelando uma maior capacidade de aproveitamento do clima do que aquela que exıste no nosso país, todas as casas turcas, por maıs humildesque sejam, possuem painéıs solares que utiilizam para aquecer a água.

Todas as ruas (mesmo!!!) estão guarnecidas de lojas no rés-do-chão, o que revela a apetencia deste povo para o negócio e o tipo de economia exıstente (cujo crescimento está, quase em absoluto, dependente do consumo interno).

O turco não estabelece a diferenciação entre masculino e feminino (as palavras tem todas o mesmo género), razão pela qual o portugues é uma língua extremamente difıcıl para este povo (que não fala uma palavra de ingles).

A regıão da Capadócıa, em termos de belezas naturais, é, francamente, do melhor que já vi.

quarta-feira, 24 de março de 2010

A discriminação da doença mental.




Um recente estudo revelou ser Portugal o país europeu com mais doenters mentais. Não foi com grande estranheza que recebi esta notícia. No nosso país, o doente mental para além da enfermidade tem de lidar com a discriminação derivada da sua situação. Por razões que dizem respeito ao desconhecimento ainda patente sobre o funcionamento do nosso cérebro e à crença (cristã) da superioridade da mente (o composto da alma) sobre o corpo, a doença mental é vista como uma fraqueza provocada pela própria pessoa. Como algo que o sujeito deveria ser capaz de vencer sozinho.

Ninguém se atreveria a dizer a uma pessoa com um cancro incurável: “tens de fazer um esforço! Tudo depende de ti”. Não ousaríamos, sequer, fazer tal afirmação perante uma pessoa que partiu o braço e cuja recuperação está a ser ligeiramente mais demorada. Em relação ao doente de cancro manifestaríamos a nossa pena e solidariedade pela situação, ao do braço partido perguntaríamos “precisas de ajuda para alguma coisa?”.

O doente mental não é digno de nenhuma destas atitudes. Sobretudo aquele que não sofre de uma diminuição das capacidades cerebrais, mas “somente” de depressão ou ansiedade generalizada. Quem recorre a um psicólogo ou psiquiatra (e, por incrível que possa parecer, ainda é mais aceite o recurso a este do que àquele) é, imediatamente, classificado de maluco. É, assim, que a maioria das depressões e estados de ansiedade gravosos no nosso país são tratados quase sempre com recurso a medicamentos e por médicos de clínica geral.

Se, por exemplo, nos Estados Unidos é absolutamente comum ir ao psicólogo, terapeuta ou psicanalista, em Portugal é sempre com vergonha que se recorre a este tipo de serviços.

Há uma razão de fundo para esta discriminação: o medo de que também nos possa acontecer, de não estarmos a salvo de, um dia, termos de enfrentar o sofrimento psicológico. Assim, preferimos ver o mal-estar mental como um problema dos “outros”, que “eles, porque são fracos, não conseguem resolver, mas que, nós conseguiríamos enfrentar com facilidade.

Aquilo com que odiamos ser confrontados é que a barreira que nos separa dos “malucos” é tão ténue que, de um momento para o outro, a janela do nosso sexto andar ou os calmantes da nossa avó podem parecer a melhor solução.

terça-feira, 23 de março de 2010

As contratações de Queiroz.




Como já deveria ter ficado patente ao longo destes escritos, eu não sou um grande nacionalista ou patrita, e sou-o muito menos quando se refere ao apoio à selecção portugusa de futebol.

Sou, por outro lado, completamente favorável à agilização do processo de aquisição da nacionalidade portuguesa (para os imigrantes que aqui vivam há já alguns anos e com um certo carácter de permanência).

Agora, não podemos fazer das selecções nacionais simples clubes e andar por aí a contratar jogadores estrangeiros só porque no nosso país existe escassez de atletas de certas posições.

segunda-feira, 22 de março de 2010

O arrependimento e a motivação do fanatismo.




O arrependimento é talvez o sentimento humano mais poderoso. A sua importância advém do facto de ser, em princípio e na maioria das pessoas, um sentimento permanente e poder ter manifestações de carácter particularmente negativo. A mairia de nós lida com o arrependimento com negação ("não me arrependo de nada!") ou com uma mistura de sentimento de culpa e promessas de mudança.

Há, todavia, aqueles cujo o grau de arrependimento com as más decisões é tão elevado que se sentem na obrigação de modificar não só os próprios comportamentos, como também a vida daqueles que os rodeiam. Tudo sempre com o prezável objectivo de impedir que aconteça a outrem aquilo que lhes perturba, ainda hoje, os dias. Provavelmente sem querer, estas pessoas são muitíssimo perigosas, na medida em que as suas acções tem uma motivação punitiva e expiatória: o auto-castigo (pelas más acções do passado que cumpre expiar) e a luta contra todas "devassidões" da sociedade actual.

Em muitos casos, estas acções são levadas a cabo através da criação ou alistamento em grupos religiosos (na maior parte dos casos) radicais. David Grisham, um habitante de Amarillo, Texas, pertence lidera um desses grupos que se auto-intitula "O Exército de Deus". "Os nossos alvos são todos os lugares associados ao sexo, bruxaria, paganismo, ocultismo e falsas religiões... Tudo o que é imoral e não é cristão", diz Grisham. Assim, bares gays, clubes de swing e de strip-tease, sex-shops, grupos de conservação da natureza, organizações pacifistas, clínicas de planeamento familiar, clubes de astronomia ou gabinetes de astrólogas e cartomantes são regularmente incomodados pelo grupo de Amarillo.

O líder deste conjunto para-religioso, reconhece que no passado foi um "fornicador e adúltero" e que ouvia rock. Sente-se extremamente arrependido dos erros cometidoa até há 8 anos (quando descobriu Cristo) e que o fazim estar submerso numa "existência escatológica". Agora, entretém-se a fazer a vida negra a imigrantes, homossexuais e casais interraciais, tudo em nome daquilo que é cristão e moralmente válido.


Podíamos pensar que Grisham é só completamente doido e isso era mais fácil. Convém, contudo, perceber as razões profundas do fanatismo deste texano, aquilo que lhe dá a força que tem, na medida em que o número de pessoas comprometidas com o movimento é, relativamente, reduzido. David Grisham, tal como todas as pessoas que estão interiormente comprometidas com a mudança dos estilos de vida de outros (de que os marchantes lisboetas contra o casamento gay são um exemplo claro), são perigoso porque a luta que empreendem contra "os outros" é, no fundo, o espelho de uma luta interior que se esforçam todos os dias para não perder.


A insegurança da "queda na tentação" faz com que demonizem outras formas de encarar a existência e que tenham pavor de tudo quanto se aproxime de uma ideia de liberdade. É o médio e não o ódio, a ignorânica, o desconhecimento ou a desconfiança que os movem. São assustadoramente fiéis às suas crenças e porque lutam contra eles próprios, a sua derrota implica a eliminação pessoal.

A "era Pinto da Costa" chega ao fim.


Eu confesso não ser o maior fã de futebol, mas, ontem, fiquei deveras satisfeito com a vitória do Benfica. Não pelo título conquistado em si e não pela derrota brutal do F.C.Porto, mas porque me parece que marca o fim de um ciclo nas competições nacionais deste desporto.

Um ciclo marcado pelas maquinações e conspirações de Pinto da Costa para conseguir fora de campo aqui que não conseguiria dentro das quatro linhas, um período em que o F.C. Porto era, efectivamente, superior e os títulos do campeonato nacional só mudavam de dono quando este último clube os perdia e nunca por mérito real dos adversários.

Ontem, apesar de todos os planos do seu Presidente, o FC Porto foi esmagado do Algarve. Trucidado. Cilindrado. O SLB não precisou, sequer, de uma arbitragem isenta. Era vencedor desde os primeiros 15 minutos e nunca o seu adversário foi sufiente para, ao menos, suster os ataques encarnados.

Esta vitória significa um severo revés para Pinto da Costa. Atolado em cada vez mais casos de alegada corrupção e suborno, Costa contava com as vitórias desportivas para garantir o apoio e o prestígio necessário para ir, placidamente, afastando as acusações. A decadência desportiva dos azuis e brancos (cuja possibilidade de vitória no campeonato nacional é, já, somente matemática) compromete seriamente um Presidente que sempre utilizou o FC Porto como apoio financeiro e "social".

Notícia: i, Público, TVI24

domingo, 21 de março de 2010

A purificação da raça.

É muito reconfortante saber que Mário Machado para além de ser um lutador pela libertação do território nacional de tudo o que não sejam brancos, está também preocupado com a purificação da raça portuguesa.

Há uns senhores que andam com sorte, porque a criatura nunca passou por S. Bento...

Os tempos são outros.


O ultra-conservador Benjamin Netanyahu está de visita aos EUA e irá aproveitar para pedir bombas capazes de perfurar bunkers para poder atacar as instalações nucleares iranianas. O primeiro-ministro israelita acredita que só pela força conseguirá o estado de Israel sobreviver num enquadramento territorial que lhe é tão hostil.

Já desde os finais da Guerra-Fria, a queda de uma super-poderosa (em termos militares) União Soviética, fez com que se percebesse que o poderio militar, a força bélica tinha perdido a importância de outras eras. A guerra do Iraque, talvez o último momento unipolar, reforçou esta ideia. O plano de G. W. Bush (ao estilo das cruzadas medievais) de implementar a democracia e forçar a aceitação dos "valores ocidentais" No Oriente Médio pela espada saldou-se num falhanço crasso que proporcionou uma crescente margem de manobra aos talibãs afegãos, aos fundamentalistas iranianos e aos extremistas paquistaneses.

Uma acção militar contra o Irão é, apesar das ameaças americanas, impossível. Os atoleiros iraquiano e afegão impedem Obama de ter mão livre para programar uma resposta militar contra o regime dos Ayatollahs. Prevenir que os iranianos adquiram armas nucleares apenas pode ser feito com a colaboração russa e chinesa.

Netanyahu é, assim, um homem ultrapassado pelos tempos actuais. Custa-lhe compreender aquilo que Ariel Sharon (antes do ataque cardíaco que, infelizmente, o colocou em coma) havia percebido: a menos que encontre, num espaço de tempo cada vez mais curto, uma solução diplomática para o conflito palestiniano, Israel irá sucumbir e, por mais estridente que se revele o clamor do povo judaico, os americanos não o poderão atender como noutros tempos em que a Guerra Fria ou a unipolaridade lhes permitiam carta branca no auxílio ao principal aliado na região.

Este pequeno paísl comprometeu as possibilidades de um acordo de paz com a Palestina (que, afinal, Bibi não quer) ao forçar a ascensão do Hamas em Gaza. Hoje, continua a impor um bloqueio ilegal ao único território palestiniano que tem uma administração verdadeiramente autónoma e a construir colonatos em Jerusalém Ocidental.

Israel encontra-se mais perto do abismo do que quer admitir. E Netanyahu não tem feito mais do que dar passos decisivos no sentido da queda.




sexta-feira, 19 de março de 2010

Freitas rejeita o socialismo...até ver...






O ex-centrista, depois socialista e, agora, ao que parece ligeiramente confuso, Freitas do Amaral afirma, no parecer que acompamhou o requerimento do Presidente da República para a apreciação preventiva da constitucionalidade do diploma que aprova o alargamento do casamento a casais do mesmo sexo, que "o casamento homossexual é inconstitucional".

Freitas baseia a sua argumentação no facto de a CRP referir que "os cônjuges têm iguais direitos e deveres quanto à manutenção e educação dos filhos". Combase nisto, vá-se lá saber porque mirabolante raciocínio jurídico, o jurista conclui: "Parece-me óbvio que o conceito de casamento que a Constituição tem aqui em vista não pode ser senão o heterossexual, porque se fosse também o homossexual os cônjuges não poderiam ter quaisquer deveres quanto aos filhos."

Não percebo como pode o Catedrático de Direito (o pupilo predilecto de Marcelo Caetano, mais tarde candidato democrático pela direita à Presidência da República, tendo, uns anos depois, assumido o socialismo) chegar a tal tese.

O que pensa, então, Freitas dos casais heterossexuais que não têm, nem podem ter filhos? A CRP também não deve estar a falar deles, na medida em que "não podem ter quaisquer deveres quanto aos filhos". Assim, não podem casar.

E o que dizer dos casais homossexuais com filhos? Não têm deveres para com estes?

Quanto à frase com que Freitas remata as declarações ao i :"só faz sentido considerar a família como um elemento natural e fundamental da sociedade porque se está a pensar na propagação da espécie", não merece qualquer tipo de comentário, porque a idade das cavernas já há muito que se viu ultrapassada.


quinta-feira, 18 de março de 2010

O "problema" é que há excesso de sangue.




Eu recuso-me terminantemente a doar sangue. Não pelo desconforto, falta de tempo ou o meu histórico receio de agulhas e restantes objectos cortantes. Simplesmente, porque os serviços de saúde portugueses têm excesso de sangue e, assim, é desnecessário que eu me submeta a uma prática que, podendo salvar a vida a inúmeras pessoas, é relativamente desagradável.


"Se é homem: alguma vez teve relações sexuais com outro homem?". É a existência desta pergunta nos formulários produzidos pelo Instituto Português do Sangue (IPS) que motiva a minha conclusão de que os bancos de recolha de sangue nacionais devem estar a abarrotar da referida "substância". Em meados de Fevereiro o IPS veio alertar a sociedade portuguesa para o facto de as reservas de sangue estarem em níveis perigosamente baixos. Assumo, contudo, ter-se tratado de um simples lapsus linguae.



A criatura que dirige o IPS veio já dizer que a questão tem todo o sentido e que se irá manter, na medida em que "a prevalência de agentes patogénicos que podem provocar doenças graves por transfusão de sangue é maior na população homossexual masculina". "Por razões anatómicas, os homens estão mais expostos a doenças graves que possam ser transmitidas" [os homens ou os homens homossexuais?...], afirmou há cerca de seis meses quando estalou o "êscandalo".



O que disse vai contra todas as evidências científicas e sociais, tendo, logo na altura, o Coordenador Nacional para a Infecção VIH/sida que os heterossexuais têm uma taxa de infecção pelo VIH superior à dos homossexuais.



Assim, um homem que toda a sua vida apenas tenha mantido relações sexuais com o seu companheiro de sempre, é recusado porque os "homossexuais masculinos são instáveis e promíscuos" (palavras de Gabriel Olim - a criatura a que acima aludi e que preside ao IPS - que tiveram o assentimento e concordância da actual ministra da Saúde).



Podem, então, ficar com a firme certeza de que nenhuma gota do meu sangue será "desperdiçada" num sistema nacional de saúde que ousa fazer este tipo de afirmações (que esperávamos terem conhecido o seu termo em 1970). E aqueles que estão em risco de vida por falata de uma transfusão sangínea, paciência. Pensem como seria muito pior cosnpurcarem os vossos corpos com um sangue de um homem que já teve relações sexuais com outro.


Notícia: Público.


Deus não pertence à "brigada dos costumes".



O padre espanhol que foi apanhado pelas autoridades policiais na posse de mais de 400 horas de vídeos de pedofilía, afirmou que veio construindo esta colecção porque sofria de "solidão e carências afectivas". Como todos os padres, não é senhor Arregui? Agora, a maioria dos nossos mentores religiosos não se põe a violar menores. Cumpre que se econtre, em terra próxima, uma qualquer senhora respeitável para fazer alguma companhia ao senhor padre. Sr Arrequi leia o "Crime do Padre Amaro"!

Depois, não percebo essa solidão, porque, supostamente, tomar conta do "rebanho" de fiéis devia constituir companhia suficiente para os sacerdotes que, para além disto, têm uma ligação especial com Deus (que estará, com certeza, sempre pronto para os ouvir).

A Igreja portuguesa vai, em Abril, discutir a questão da existência de abusos sexuais a menores no nosso piedoso território. Todavia, a discussão irá centrar-se no utópico e quimérico, na medida em que um representante da Conferência Episcopal Portuguesa já veio garantir que tais coisas não acontecem no nosso país.

Um desabafo sacrílego e blasfemo para finalizar: alguém acredita, verdadeiramente, que Deus se encontra preocupado com o facto de os seus "servidores" estarem na cama com um homem ou mulher adultos? Pois..também me parece que não.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Natalidade. Duas notas.



A pílula dos 5 dias seguintes passa, hoje, a ser vendida em Portugal. Só posso achar positivo, na medida em que, seguramente, se irão evitar inúmeras interrupções voluntárias da gravidez (uma prática extremamente dolorosa, fisica e emocionalmente) em mulheres que não puderam/conseguiram tomar a pílula do dia seguinte.

Como sempre, os arautos da natalidade, na sua campanha patriótica pelo nascimento de mais bebés portugueses (brancos, suponho, porque pretos, "monhés" ou brasileiros já não devem servir). Crêem as criaturas que é pelo lado da proibição que se irá evitar o declínio do crescimento da população europeia branca, esquecendo toda a mudança social, económica e de mentalidades que provocou esssa alteração do comportamento dos brancos europeus.

Existem, ainda, aqueles que consideram que a concepção de uma criança é sempre resultado de um desígnio divino, cuja interrupção consubstancia um atentado à própria existência de Deus. Havia um professor na minha escola que chegava a afirmar que "nas caixas de preservativos devia constar a seguinte frase: Eu não acredito em Deus".

Este tipo de concepção sempre me fez alguma confusão, na medida em que não compreendo como se insere aqui o livre arbítrio. É que quando um homem de 40 anos viola, tortura e mata por estripamento 20 crianças de 2 anos, ninguém tem a coragem de cometer a blasfémia de imputar o acto a Deus. Todavia, o nascimento de um bebé (inerentemente bonito, fofinho, ternurento e etc.) já é o culminar de um processo posto em prática por decisão divina e, aqui, a decisão humana já é residual e carece de importância. Estranho, não é?

Voltando aos paladinos das ideias de promoção da natalidade (quer através da proibição de todos os meios de prevenção e de todas as formas seguras de interrupção da gravidez, como da atribuição de chorudos subsídios às senhoras que tiverem a bondade de contribuir com três pequenas criaturinhas brancas para assegurarem o nosso "modelo social europeu" - como se este, já agora, não tivesse sido, sempre, sustentado pela imigração), cumpre que se lembrem que não estamos aqui a falar, somente, de números.

O nascimento de uma criança não deve, em circunstância alguma, ser pensado em termos do cumprimento de alguma meta de crescimento populacional, mas sempre com a responsabilidade ética e moral que implica o aparecimento de um novo ser humano, tendo em conta todo o sofrimento e toda a felicidade com que pode vir a ser confrontado. Devem ser dadas todas as condições para que uma fmília tenha todos os filhos que deseje, enão mais do que isso.

A "promoção da natalidade" é tão arrepiante hoje, como nos tempos em que fazia parte da propaganda hitleriana para a ascensão da raça ariana ao estatuto de superioridade étnica que o Führer projectava.

terça-feira, 16 de março de 2010

"A tradição civilizacional heterossexual".




Perante a inevitabilidade da mudança social, os "sectores da reacção" avançam os maiores disparates. Hoje, Jorge Miranda "cuspiu-nos" mais duas, falando acerca do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

I- Foi capaz de reconhecer que o casamento não tem "por fim específico a adopção". Todavia, depois, afirmou algo que é completamente absurdo: “só através do casamento ou da união de facto entre heterossexuais é que há filiação”. Hum...então, afinal, o sexo ocasional não gera novas vidas. E também não existem mães solteiras que nem sabem quem são os pais dos filhos e todas essas coisas, seguramente, "horríveis" para uma mentalidade tão superior e prossecutora de uma rectidão social absoluta.

II- Numa última "cuspidela" no jornalista mais próximo acrescentou que "todo o sentido da Constituição e da Declaração Universal, sem falar sequer na tradição civilizacional, é no sentido de o casamento ser restrito a heterossexuais". Em primeiro lugar, nem a CRP nem a DUDH definem casamento, limitando-se a garantir o direito de todas as pessoas acederem ao instituto.

O conceito de tradição civilizacional é, para mim, completamente imperscrutável. Se compreendo o sentido do conceito, pretende referir-se aos valores sobre os quais assenta a nossa organização político-social e as formas de reprodução das respectivas instituições, embora a expressão "tradição" venha aqui complicar o entendimento do conceito. Isto porque introduz um factor temporal bastante amplo, que não se coaduna com o que entendo por "civilização", que, por ser composta por um conjunto de valores, tem uma existência extremamente mutável.

Convém que nos lembremos que da nossa "tradição civilizacional" fazem parte práticas tão hediondas como a pena de morte, a escravatura, o domínio da mulher pelo homem e etc. E não me parece (quero acreditar) que exista alguém, que no seu perfeito juízo, as possa, hoje, defender.

segunda-feira, 15 de março de 2010

A "rolha" do PS.




Obviamente que enquanto democrata e acérrimo defensor da liberdade de expressão considero absolutamente inaceitável a norma aprovada no Congresso do PSD que proíbe que se expressem opiniões contrárias às directrizes do partido nos dois meses anteriores a eleições.

Agora, não me venha o Sr. Canas falar de "estalinismo" e "claustrofobia democrática", porque no PS de Sócrates a "Lei da Rolha" vigora, tacitamente, há quase 6 anos. Com uma diferença: ali, as críticas não são admitidas nos 12 meses que compõem o ano! (Alguém se lembra de alguma crítica interna ao líder?)

(Entrevista de Santana Lopes, o promotor da medida, ao i)

sábado, 13 de março de 2010

Cavaco "envia casamento gay para o TC".




Como já era esperado, Cavaco Silva "requereu ao Tribunal Constitucional a fiscalização preventiva da constitucionalidade das normas dos artigos 1.º, 2.º, 4.º e 5.º do Decreto n.º 9/XI da Assembleia da República, que permite o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo".

Por razões que têm que ver com as suas concepções pessoais, deixou de fora, no pedido que apresentou no TC, apenas a norma que proibia os casais de pessoas do mesmo sexo de acederem à adopção - o artigo 3º. do referido diploma. As restantes normas do diploma supra-citado dizem respeito, apenas, ao alargamento do instituto do casamento a todas as pessoas, independentemente da orientação sexual.

Se é certo que os Conselheiros do Palácio Ratton consideraram, no passado, que a proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo, não acredito que, agora, venham a considerar que a sua admissão é violadora dos princípios constitucionais, na medida em que, na altura em que haviam analisado a questão, consideraram que a CRP era neutra no que respeitava à consideração das pessoas que se poderiam casar e que essa escolha competia aos órgãos decisórios políticos.

Contudo, considero que este Decreto da AR está enfermo de inconstitucionalidade no seu artigo 3º. (exactamente a norma que o Presidente decidiu não enviar para a fiscalização preventiva). Ao proibir que casais de pessoas do mesmo sexo adoptem introduz duas disfuncionalidades graves no nosso sistema jurídico (disfuncionalidades, essas, que me parece consubstanciarem atentados à nossa lei fundamental). Em primeiro lugar, de forma mais óbvia, afasta, sem razão justificativa, os casais de pessoas do mesmo sexo de um direito concedido aos casais de pessoas de sexo diferente. Depois, estabelece, igualmente, uma diferenciação inaceitável entre as pessoas homossexuais, na medida em que se permite que um homossexual solteiro adopte, mas se esta pessoa estiver casada com outra do mesmo sexo, já lhe é vedado esse direito.

Como foi já referido, o Presidente decidiu excluir esta norma do seu pedido. Assim sendo, a única inconstitucionalidade que se encontra, a meu ver, patente no referido diploma não será analisada. Cavaco tinha de fazer algo, não queria era ficar com o ónus de ter permitido, para além do casamrnto, a adopção.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Na minha escola: O mundo em que vivi.






Na minha escola o bullying não era apenas uma prática ou forma de sobrevivência, era, verdadeiramente e no sentido sociológico do termo, uma instituição. Ao contrário do que é comum na maioria das escolas, na minha o bullying não se processava somente entre os alunos ou por parte dos alunos dirigido aos professores, acontecia, também, entre os professores e, muitíssimo mais grave, dos docentes em direcção aos estudantes.

A minha escola era um colégio privado, e é comum que as pessoas me digam que eu cresci protegido e afastado do mundo real. Posso afirmar, contudo, que o "universo ideal" onde fui progredindo académica e pessoalmente era muitíssimo mais brutal e difícil do que qualquer dessas vivências reais que me possam apresentar. (Porque eu já fui monitor numa colónia que recebe as crianças mais problemáticas e violentas da área de Lisboa, e os alunos na minha escola eram muitíssimo piores uns para os outros). Na minha escola ser diferente não era só difícil, era um atentado aos próprios valores que submergiam pessoal docente, não-docente e estudantes.

Ser gay, preto, chinês, ter um cabelo diferente, ser muito alto ou muito baixo, muito magro ou muito gordo, usar óculos, ser deficiente, feio, tímido, feminino (se rapaz) ou masculina (se rapariga) não eram só motivos de gozo, mas de humilhação e degradação humana. E nem sequer era necessário ter estas características, bastando ser irmão ou amigo de alguém que as tivesse para que o processo de ostracização fosse posto em marcha. Os níveis de violência psicológica não diferiam muito daqueles praticados num qualquer campo de concentração nazi ou soviético.

A certa altura, houve um estudante que se suicidou. Deu um tiro na boca na casa-de-banho de casa. Rezámos missas e clamamos pelo perdão divino do acto, sem perceber por que razão teria aquilo acontecido. "Ele parecia feliz", disse-se na época. Hoje não me é muito difícil compreender as razões daquele rapaz. Seguir a norma e uma espécie de correcto (completamente disfuncional) era o lema na minha escola, e por vezes era difícil cumprir com os parâmetros.

Na minha escola os próprios professores faziam parte deste mecanismo de esmagamento da individualidade, da indiferença. Não era incomum ver docentes reunidos com alunos a espalhar boatos e falsidades sobre outros alunos, ou professores a enxovalhar outros perante os alunos. Havia até uma espécie de professora de Sociologia que se divertia a causar as maiores dificuldades a uma aluna, apenas porque esta demonstrou ter muitíssimo mais conhecimento na matéria do que a docente (e na minha escola a incompetência docente era, e é, também um valor assente e que convinha não contestar).

A direcção na minha escola era um entidade inexistente e quem comandava era mesmo uma corporação pouco clara que juntava alguns docentes. Daí que queixas de maus-tratos a alunos por outros estudantes ou docentes caíssem, sempre, em saco roto. Na minha escola, o Colégio Marista de Carcavelos, aprendi que o cristianismo também era a religião do horror e que aqueles que deviam ser os guias, os modelos a seguir: os professores, eram os promotores da injustiça, da mesquinhez, da brutalidade psicológica.

No dia 9 de Fevereiro, Luís, um professor da Escola Básica 2+3 de Fitares (Sintra) atirou-se ao Tejo. Apareceu logo a justificação de que tinham sido as pressões e mau comportamento dos alunos de uma das suas turmas que levaram ao sofrimento atroz deste ser humano. Creio ser este entendimento extremamente redutor. Turmas complicadas e pessoas supostamente frágeis existem em todas as escolas.

Acontece que, nalgumas instituições, a comunidade educativa funciona, e os professores encontram na direcção das escolas e nos outros professores pontos de apoio. Nesta escola de Sintra, tal como na minha escola, os outros docentes e a direcção observaram, de longe, impávidos, enquanto um professor era brutalizado pelos estudantes (quem sabe se, até, não terão contribuído para isso). Assim, somos, todos os que lidámos com Luís ou com pessoas na mesma condição, culpados pela forma como permitimos que o prazer de humilhar os outros, a humilhação de outro ser humano, o esmagamento da diferença marquem o dia-a-dia nalgumas das nossas escolas. E não é, com certeza, apenas, com "serenidade e equilíbrio", que vamos resolver estes problemas gravíssimos.

quinta-feira, 11 de março de 2010

A olhar os outros.



No outro dia, quando me queixava das minhas indecisões académicas/profissionais e do percurso extremamente orientado que os meus amigos e conhecidos já iam prosseguindo, perguntaram-me: se te estivesses a ver de fora, o que dirias da tua formação académica e das perspectivas profissionais que ela poderá proporcionar?

Diria que estava tudo a correr muito bem, e que as perspectivas são bastante optimistas.

Vista de fora, a realidade alheia parece sempre melhor, não é?

quarta-feira, 10 de março de 2010

You can rest, Silva's got your back.




O sempre cauteloso e circunspecto Cavaco Silva, que ainda é, para aqueles que devido à sua inacção histórica já se esqueceram, o Presidente da República portuguesa, garantiu, em entrevista, hoje, à RTP que não irá demitir José Sócrates porque não tem competência para tal. Uma verdade de La Palisse, mas tratando-se do "Sr. Silva", cumpre que se dê o desconto.

Afirmou, depois, que o Presidente não pode demitir o Governo por falta de confiança política (que entende nem sequer existir, apesar de reconhecer que o primeiro-ministro mentiu aos portugueses), mas apenas "quando tal se torne necessário para assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas". Acrescenta, até, que tal nunca aconteceu e nós sabemos o pavor que Cavaco tem da originalidade (basta ter em conta o que respondeu quando questionado sobre se estaria a pensar na recandidatura a um segundo mandato: "Vou mandar verificar quando é que os meus antecessores fizeram essa ponderação").

Quanto à dissolução da AR, lembrou ter esta sido eleita somente há 5 meses e que só em situações extremamente graves devia o PR lançar essa "bomba atómica". “Não podemos dizer que há instabilidade política, (...) não podemos dizer que o Governo não tem condições para governar”. “Tem toda a legitimidade para governar”, adicionou ainda Cavaco.

Estas (certamente sábias) palavras não suscitam qualquer surpresa. Todavia, gostaria só de expressar duas ou três notas para ajudar o Sr. Presidente da República em momento tão difícil:

1- Não se preocupe que não é deveras original dissolver a AR, porque até Sampaio, que todos acusavam de ser um "mosca-morta" o fez.

2- Ainda vivemos (que eu saiba) numa democracia liberal. Assim, o valor da liberdade (no qual se inclui a liberdade de expressão) é um sustentáculo fundamental das instituições democráticas. Sócrates pôs em causa esse valor, logo corrompeu de maneira flagrante essas mesmas instituições.

3- Por muitíssimo menos, foi a AR (nos tempos de Santana Lopes) dissolvida por Sampaio. Já não se lembra, Sr. Silva?

4- A estabilidade política só é um valor quando se garante a democracia. A China vive numa relativa estabilidade e ninguém (assumo eu) em Portugal deseja esse tipo de regime.

Excertos da entrevista: i, Público, TVI24.

terça-feira, 9 de março de 2010

Raça, etnia, cultura, identidade nacional e Estado-nação.



Na altura do colonialismo, quando os europeus foram confrontados com as diferenças físicas e culturais dos povos de outras partes do mundo, teve-se a necessidade de criar o conceito de raça. O ser humano "tem necessidade de categorizar" e, assim, para evitar maiores esforços de racionalização e para conseguir administrar territórios ultramarinos com poucos recursos humanos, criaram-se as classificações baseadas na raça.

De forma mais acentuada a partir da segunda metade do século XX, e sobretudo por causa das independências africanas e do afastamento das crenças de inferioridade da negritude, o termo raça passou a ser considerado ofensivo e foi sendo abandonado pela comunidade científica. Cunhou-se, então, no seio da Antropologia, o conceito de etnia (ainda hoje relativamente valorizado), como se este fosse, de alguma forma, diferente da ideia de raça e não criasse racismo e discriminação.

Etnia não se afastou das características físicas para suportar a classificação, apenas introduzindo certas "orientações culturais" que ajudariam a suportar ma diferenciação entre os diversos grupos étnicos. Através da constatação de que esta terminologia era, no fundo, igualmente preconceituosa, avançaram-se novos conceitos que se moviam em volta do termo cultura. Multiculturalidade e interculturalidade passaram a ser a palavras que marcariam o discurso de qualquer ministro da Igualdade Social ou voluntário na área da diversidade. Novamente, olvidando-se que também a cultura, enquanto característica diferenciadora, serve de base à xenofobia e racismo.

A par disto, o conceito de identidade nacional, foi-se consolidando (ao mesmo tempo que o Estado-nação passava a ser a única forma aceite mundialmente para a organização de povos e territórios), obviamente, tendo na sua estrutura bases culturais e parecenças físicas (por vezes extremamente frágeis). Ontem, num colóquio sobre racismo no ICS, quando questionado sobre se era possível construir uma identidade racional que não fosse racista, o antropólogo Miguel Vale d'Almeida respondeu, simplesmente, que não.

Prometo voltar a este assunto, mas agora que este texto já está a ficar demasiado longo, cumpre terminar com uma pergunta: então, qual é a alternativa? Existem alternativas viáveis de organização política alternativas ao Estado-nação? E se abandonássemos as classificações? Poderia trazer algum efeito pernicioso, quando sabemos que a discriminação está aí, ainda, para durar? Como poderíamos, então, actuar para a sua eliminação, se havíamos abandonado as bases que nos permitem classificar um comportamento como discriminatório?

segunda-feira, 8 de março de 2010

Afinal, a culpa foi do Leandro.




Como sempre acontece nos casos que envolvem a responsabilidade de muitas pessoas, convém varreira a porcaria toda para debaixo de um qualquer tapete (já levantado dois centímetros em relação ao chão, tal o nível de sujeira cumulada). Assim, opta-se, quase sempre, por denegrir a vítima, porque assim a responsabilidade principal passa a ser desta última e aqueles que tinham a função de a proteger nãon actuaram com o zelo devido, mas também, não fizeram nada de mal, já que a culpa do lesado se sobrepõe.

No caso de Leandro, já vêm as autoridades que investigam o caso dizer que era uma criança "reguila e, por vezes, mal educada para com os professores", que provocava "zaragatas" e que "nas situações de agressões, resistia e não demonstrava medo". Ou seja, Leandro, apesar do sofrimento de que padeceu naquela escola, comportava-se, nom fim de contas, como um jovem absolutamente normal. Se conseguirem encontrar uma criança que nunca tenha entrado numa disputa, sido mal educada para com os professores ou reguila, por vezes, então eu aconselho-vos, sinceramente, a procurarem um internamento psiquiátrico para a mesma, porque os problemas psicológicos devem ser avultadíssimos.

Mas, para escamotear uma realidade ultra-desconfortável para a comunidade educativa e familiar que rodeava Leandro tudo parece valer. Até dizer que porque o jovem tirou as roupas antes de se atirar ao rio, afinal não se tratou de suicídio, mas sim de "acidente". Como se não acontecesse em milhões dde mortes auto-inflingidas por todo o mundo, as pessoas taparem a cama com plásticos, para não a sujarem com o tiro com que pretendem consumar o acto. Mas deve tratar-se, igualmente, de acidentes. A pessoa estaria, certamente, a exprimentar a arma.

Isto que agora vem a público, para tentar, com certeza, atenuar a culpa daqueles que falharam na defesa de Leandro (a começar pelos seus professores) lembra-me aquela célebre sentença portuguesa em que um violador viu a sua pena atenuada porque a rapariga apareceu de mini-saia em plena "coutada do macho latino", provocando os instintos animalescos do mesmo.

Enfim, quando algo incomoda o melhor é esconder. É que não é propriamente muito positivo, nem isento de riscos, começar por aí a diagnosticar incompetências nas famílias, nas escolas e nas autoridades públicas. Enfim, a culpa foi mesmo de Leandro e, então, olhem...arquive-se.

Óscares 2010: uma análise política.




Foi com alguma surpresa, entre os cinéfilos comuns, mas não entre os melhores críticos cinematográficos americanos (Roger Ebert, no programa de Oprah Winfrey havia previsto com exactidão os vencedores das principais categorias), que "Estado de Guerra" (The Hurt Locker), sobre uma unidade de elite do exército americano dedicada a desmantelar explosivos nas ruas da, agora caótica, cidade de Bagdad, venceu o Óscar de Melhor Filme, consagrando Kathryn Bigelow como a Melhor Realizadora (a primeira vez que o prémio é entregue a uma mulher.

Avatar, a metáfora sobre a destruição da natureza pela perniciosa actuação da mão humana sedenta de recursos, foi o grande derrotado da noite, conseguindo arrecadar apenas 3 Óscares nas categorias técnicas.

Confesso não ter visto, ainda, "Estado de Guerra". Todavia, a partir do que li e fazendo uma análise política, a vitória deste filme é, efectivamente, surpreendente pelas conotações políticas que carrega. Abordando os temas da guerra do Iraque e das pressões psicológicas traumáticas da guerra sobre os soldados, "Estado de Guerra" só pode ser um filme incómodo numa Academia que se tem revelado, sempre, politicamente bastante conservadora.

Avatar era, então, deste ponto de vista, o filme mais indicado para a vitória, na medida em que a sua mensagem sobre os perigos da ganância humana calha muito bem num mundo em que as alterações climáticas já são consensualmente um problema mundial, de direitos humanos, até (o que o nobel da paz entregue a Al Gore bem confirma). Hollywood decidiu ser problemática a nível político, e a mim parece-me que bem, na medida em que o stress traumático causado pela guerra é sempre um tema que causa algum embaraço político e, portanto, convém esconder.

Contudo, para mim, o filme que deste ponto de vista, é social e politicamente mais interessante e transmite algumas ideias importantes é a película de animação "Up!", já que aborda, de uma maneira simples, mas ao mesmo tempo bastante rica simbolicamente, as relações entre gerações muitos distintas: idosos e crianças/jovens. Trata as temáticas da solidão na velhice, do afastamento inter-geracional, das diferentos formas de ver o mundo consoante a idade do observador. Expressa a ideia de que basta dar um motivo, arranjar objectivos, para que as pessoas mais velhas (laboralmente inactivas) possam encontrar razões para viver com mais felicidade e qualidade de vida. Tem na base uma mensagem política de que cumpre encontrar um propósito para os nossos idosos e combater a alienação social em que vivem.

Para finalizar, "Precious", outro dos sérios candidatos ao Óscar mais cobiçado, veicula, também, uma mensagem importante que mistura o racismo, os maus-tratos domésticos e a gravidez precoce, para nos dizer que todo o ser humano tem o seu valor intrínseco enquanto pessoa e que é sempre possível vencer as adversidades de um quotidiano traumático. Como bem se percebe, faz-nos pensar em questões interessantes, caindo, não obstante, no "já vi isto em qualquer lugar" ou em alguns lugares-comuns que teria sido importante subverter (a professora bonita e com boa condição económica que ajuda os pobres, o filho como momento catártico de mudança,o arrependimento maternal...).


(Veja, aqui e aqui, os vencedores deste ano).

domingo, 7 de março de 2010

Ilê Aiyê (as singularidades da reivindicação negra no Brasil)




Em 1974 foi criado na cidade de S. Salvador da Baía o bloco de Carnaval Ilê Aiyê. O primeiro bloco de orgiem africana nas festividades carnavalescas daquela cidade. Tinha como objectivo primacial a difusão da música e cultura, mas foi, desde o começo, muito mais do que um movimento apenas musical ou cultura. Na sua essência estava a luta social dos negros brasileiros o que é atestado pela letra da primeira música que apresentaram em 1975 no desfile do Entrudo da capital do Estado da Bahia:

"Que Bloco é esse" (bis)
Eu quero saber
É o mundo negro
Que viemos cantar para você
Branco se você soubesse
O valor que o negro tem
Tu tomava banho de piche
Pra ficar negro também
Somos crioulos doidos (refrão)
Somos bem legal
Temos cabelo duro
Somos Black Power"
(excertos)

Este movimento reivindicativo (como a letra da música igualmente reflecte) surge na sequência dos movimentos emancipatórios negros dos Estados Unidos ("Black Power") e de África (as independências das colónias europeias) e durante a repressiva ditadura militar brasileira (que sóviria a terminar em 1984-85). A originalidade do Ilê Aiyê vem do facto de ter começado, e ter sido sempre essa a principal forma de expressar o protesto, como um projecto musical.


A utilização da música para fins políticos tem uma grande tradição em grande parte dos movimentos reivindicativos negros mundias, todavia, nenhum destes movimentos nasceu como um impulso musical. Foi sempre esta a forma brasileira de fintar a repressão política, marcando a singularidade da reinvindicação de direitos dos negros no Brasil.



(Aqui fica a homenagem de Daniela Mercury ao Ilê Aiyê

sábado, 6 de março de 2010

O país das maravilhas.



Hoje podemos respirar um pouco porque o Plano de Estabilidade e Crescimento já foi aprovado. Para quem, como eu, nas últimas semanas quase não conseguiu dormir por causa da espera, pode, finalmente, descansar porque, afinal, o Governo anda já a tratar das contas públicas e, em menos de nada, vai debelar a crise económica.

O facto de, contra todas as anteriores promessas do Governo, o PEC conter, com toda a probabilidade, um aumento da carga fiscal (porque só assim se pode atingir a "estabilidade fiscal", num país que tem menos rendimentos para tributar). Mas o que é que isso interessa se já nos prometeram que vão conseguir baixar 7 pontos percentuais no défice até 2013? José Sócrates vai pôr em prática um milagre neste nosso belo país das maravilhas.


Vê o começo deste milagre
aqui e aqui.

A culpa dos familiares de Leandro.


Esta terça-feira, uma criança de apenas 12 anos suicidou-se por afogamento depois de ter sido, repetidamente, vítima de agressões físicas e psicológicas numa escola de Mirandela. A família de Leandro já veio sacudir a água do capote, dizendo que tinha já avisado várias vezes os órgãos próprios da escola e que estes não haviam actuado da maneira correcta, protegendo o jovem. Para mim, e sendo esta questão importante, obviamente, não retira nenhuma responsabilidade aos familiares de Leandro. São tão culpados pela sua morte como os agressores e seus pais, os professores, todos os funcionários da escola e os órgãos dirigentes.

É uso, em casos deste tipo, e perante a devastação em que se encontra uma família, dizer-se que não há culpas. Todavia, morreu uma pessoa e é absolutamente imperativo que se encontrem responsabilidades. Cumpre que se investiga, de forma próxima, que tratamento e que soluções procuraram os pais de Leandro para a resolução da situação gravíssima em que se encontrava o seu filho.

E os professores? O que andavam a fazer aquelas criaturas? Nunca viram nada? Provavelmente a preocupação com as manifestações e greves escamoteou a dura realidade daquele aluno. E a direcção da escola? Que medidas tomou perante as queixas apresentadas pelos familiares da criança? E os contínuos/auxiliares de acção educativa? Servem para alguma coisa ou o melhor é despedi-los a todos imediatamente? Também nunca viram nada?

Muito dificilmente se conseguirá sentar qualquer uma destas pessoas no banco dos réus sob a acusão de negligência na morte e no sofrimento de Leandro. Não obstante, moralmente, os pais de Leandro, os agressores e seus pais e todos os membros da comunidade educativa são todos igualmente culpados.

v. notícia Público.

Os padres também fazem sexo.




Os rabos-de-palha sexuais da Igreja Católica foram sempre gigantescos. Agora, ardeu mais um, homossexual, ainda por cima!

Só uma ideia: se "liberalizassem" o sexo para os "padrecas" já não havia tantos escândalos. É que entre abusos de menores e recurso à prostituição, a Igreja Católica Americana já não é dona de quase nenhuma igreja naquele país.

(A nível de custo-benefício acho que compensava).

Um país tem os políticos que merece.




Não há um dia neste pequeno erro histórico a que chamamos Portugal que nos transportes púbicos, nas Universidades, na fila do talho ou num qualquer café de bairro não haja uma (ou várias) pessoa(s) a "malhar" nos políticos e a reinvindicar uma administração mais "limpa". Todavia, hoje, foi apresentado no Parlamento, pelo Professor Luís de Sousa (de quem fui aluno este semestre que passou) um estudo em que se refere que 63% (quase dois terços!!!!) dos portugueses toleram a corrupção desde que esta traga benefícios para a população em geral.

Em primeiro lugar, nem consigo, sequer, compreender muito bem este conceito de corrupção benéfica para a população em geral. As regras, num regime democrático, são aceites por todos por uma única razão: o bem-estar das pessoas. Assim, no imcumprimento das mesmas, não percebo como se pode encontrar algo de positivo para uma generalidade de indivíduos. Mas, enfim, ainda que isso seja possível, este povo tem de compreender que a corrupção, ainda que num determinado caso motivida por alegados objectivos benéficos, é sempre negativa, na medida em que proporciona um cultura de irresponsabilidade e impunidade que depois se reflecte em questões mais complicadas e que prejudicam, em grau muitíssimo elevado, a maioria dos cidadãos.

“Boas leis e boas instituições reduzem as estruturas de oportunidade e incentivos para a corrupção”, disse Luís de Sousa na Assembleia da República. Os supeitos do costume: más leis e mau sector administrativo. Concordo que são, em Portugal, um enorme problema. Não nos devem, todavia, fazer esquecer o fundamental impedimentoao combate à corrupção, e que este estudo bem reflecte: a aceitação popular desta prática.

Diz-se que os povos têm os políticos que merecem. Infelizmente, os portugueses não merecem mais do que isto. Só temos de nos queixar de nós próprios.

quinta-feira, 4 de março de 2010

8.




Para aqueles pais que consideram que a atitude correcta perante a homo/bissexualidade de um filho é a rejeição (porque "pode ser que lhe passe"). Aqui fica um número:

Jovens adultos gays, lésbicas e bissexuais que tenham sofrido rejeição por parte das respectivas famílias têm uma tendência 8 vezes maior a cometer suicídio do que outros jovens LGB.

Espero que faça pensar aqueles pais que, de alguma forma, tomaram uma atitude mais negativa em relação à diferença dos filhos. É que a menos que, efectivamente, queiram a morte destes, cumpre que modifiquem alguns comportamentos.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Não me admirava se Sócrates ficasse por Moçambique.




Manuela Moura Guedes foi hoje ouvida na comissão de Ética, Cultura e Sociedade da Assembleia da República. Como já era esperado, "malhou forte e feio" em José Sócrates, acusando-o de pressionar os invesigadores do caso Freeport e de ter telefonado, até, ao Rei de Espanha para pressionar a Prisa para terminar com o Jornal de 6ª.

Efectivamente, a resoluçao do caso Freeport, mais pareceu um varrer para debaixo do tapete do que um isentar de culpas do actual primeiro-ministro do alegado caso de corrupção de quando tinha a tutela do Ambiente.

É certo que as acusações de Moura Guedes não têm a validade de uma condenação judicial, mas a sensação com que o povo fica é que há muita porcarria prestes a explodir de debaixo de um tapete que têm, a cada dia, mais buracos.

Por outro lado, o caso dos computadores Magalhães, continua a dar problemas, com a existência de 66 milhões de desfasamento nas contas de Mário Lino (ex-ministro das Obras Públicas e Comunicações) e da Fundação para as Comunicações Móveis. Para "juntar à festa", a sala de espera das consultas externas do novo Hospital de Cascais, inaugurado com toda a pompa por Sócrates há uma semana, já teve de ser evacuada por causa do entupimento de um tubo que causou uma inundação.


Perante tal pântano, bem se percebe que José Sócrates prefira andar a banhar-se nas cálidas águas do Oceano Índico. Se alguma empresa estatal moçambicana lhe oferecesse um tachinho como administrador, não me admirava nada que o nosso primeiro-ministro por lá ficasse. É que isto aqui está tão mau para o chefe do executivo, que o Aventar já teve de colocar um anúncio por forma a encontrar um blogger capaz de o defender.

Crianças-soldado à portuguesa.




No Museu Militar do Porto existe um programa no qual, por duas horas, crianças são transformadas em recrutas do exército. "Não quero ver dentes brancos a brilhar, não quero ouvir sorrisos. A partir deste momento, vocês são um pelotão de soldados recrutas", grita a "instrutora", no pátio da antiga sede da PIDE na Invicta. Este programa resultou do convite da Capital Europeia da Cultura 2001 para que os museus da cidade criassem um programa para as famílias. O Museu Militar decidiu que era uma boa ideia tornar jovens em militares, qual crianças-soldado por breves momentos. Graças a Deus que a adesão tem sido muito pouca. Só demonstra que os pais portugueses não são completamente doidos.

Toda a instituição militar me deixa extremamente desconfortável. É daqueles males necessários porque o homem é uma espécie suficiente estúpida para criar formas de destruição particularmente perfeitas da sua própria espécie. Promove, ainda e talvez por necessidade das funções que desempenha, aquele estúpido culto da masculinidade e da virilidade. "Não há bailarinas no exército, só militares", dizia a Sargento encarregue de comandar o pelotão de adolescentes imberbes, esquecendo-se, certamente, de que ser uma bailarina profissional é fisicamente muitíssimo mais exigente que ser militar.

Enfim, é tudo mau e errado nas Forças Armadas, mas tudo necessário, bem sei. Os militares, se não estiverem bem enquadrados pelo poder civil, se não tiverem uma ética política forte, se não compreenderem bem os limites das suas funções, podem utilizar a força para chegar ao controlo dos respectivos países, como acontece um pouco por toda a África, mas também se deu na América Latina, Ásia e, mesmo, na Europa (lembremo-nos do golpe de 28 de Maio de 1926).

Assim, o que cumpre que seja feito não é entusiasmar os nossos jovens para a carreira militar, andar a vestir-lhes fardas e a fazer da integração num qualquer batalhão fingido divertimento de fim-de-semana, mas sim incutir nos futuros militares uma ética política e moral forte e consistente, que lhes permita perceber que não são detentores de qualquer tipo de poder, mas somente meros servidores do poder popular.

(Até porque, não consideram particularmente chocante ver crianças em uniforme militar?)

terça-feira, 2 de março de 2010

Um país abismado.



Mesmo aqueles que, não obstante a sucessão de "complicações" em que se vê envolvido o nosso primeiro-ministro, continuavam a defender que este se mantivesse, por agora, no cargo porque cumpria ter um "governo forte", capaz de "vencer a crise", podem, perante uma nova subida na taxa de desemprego, defender a manutenção de Sócrates no poder?

Enquanto o desemprego estagna na Europa, em Portugal continua a aumentar em galope perigoso. Ultrapassámos já largamente a taxa de 10%. Custa-me bater sempre no mesmo "ceguinho". Contudo, o facto é que o país está abismado. Não por se encontrar estupefacto ou espantado com a crise e os resultados da mesma, mas porque estamos em processo de queda no abismo.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Sobre o Islão: duas perguntas.




"Quem pratica a violência é uma minoria, mas há uma maioria que acha isso desculpável." (aqui). Qual o grau de veracidade da afirmação?

Será correcto reduzir a discriminação dos muçulmanos a uma questão de exclusão económica (desemprego e piores condições de vida)?