domingo, 28 de fevereiro de 2010

Os piores inimigos dos gays.




Sempre me perguntei qual era a base do preconceito de que os homossexuais masculinos são mais promíscuos (sexualmente) do que os homens heterossexuais. Durante muito tempo, nesta busca, considerei que residia numa espécie de homofobia ténue que povoa as mentes da maior parte das pessoas que não têm grande contacto com a comunidade LGBT. Por uns tempos esta justificação foi satisfatória. Todavia, continuava a perguntar-me de que se alimentava, porque achava estranho que fosse só no desconhecimento, já que era uma crença bastante mais enraizada que a de os homossexuais serem pedófilos, doentes, maus pais, excêntricos, etc.

As minhas considerações complicaram-se quando, no último campo de trabalho da Amnistia Internacional, dinamizei o painel dedicado aos direitos das pessoas LGBT e fiz a seguinte afirmação (esperando que a plateia - predominantemente heterossexual - revelasse se concordava ou discordava): "os gays são, habitualmente, mais promíscuos que os homens heterossexuais". Não houve nenhuma pessoa, uma única em mais de 30, que considerasse que a afirmação continha o mínimo grau de veracidade.

Disseram que havia pessoas promíscuas em qualquer orientação sexual e que as discotecas gay não eram muito diferentes das "hetero". Vim para casa a pensar naquilo. Vim para casa a pensar naquelas respostas e, nas semanas seguintes, inquiri mais pessoas (heterossexuais) ligadas ou não à "comunidade LGBT" sobre o assunto e não encontrei nenhuma que considerasse existirem diferenças significativas entre homo e heterossexuais.

Onde se encontrava a chave para o dilema? Onde residia, afinal, essa ideia de que os gays teriam mais parceiros sexuais. A resposta acabou por chegar numa viagem de autocarro, onde um amigo gay se revelou "extremamente desiludido perante a putice (sic) que marcava o comportamento da maior parte dos homossexuais masculinos". Tudo começou, então, a fazer sentido. E com quantos mais gays falava, mais ia compreendendo a base deste preconceito.

Por razões que terão eventualmente que ver com uma certa inveja, desilusões amorosas acumuladas, descrença no amor, alguma homofobia internalizada, as raízes profundas que sustentam a crença de que os homossexuais são mais promíscuos que os heterossexuais residem dentro da própria "comunidade gay". São estes aqueles que se revelam os seus próprios inimigos, sustentando uma ideia que, aparentemente, não tem qualquer reflexo real. Assim, cumpre que se conclua que enquanto a "comunidade LGBT" continuar a alimentar este tipo de homofobia interior, muito dificilmente poderá combater, de forma efectiva, a homofobia com que se vê confrontada no exterior.

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