segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Os equívocos de uma menina de bem.



Peço desculpa àqueles que têm por hábito vir dar uma espreitadela a este meu recanto, mas tenho de voltar, mais uma vez, ao tema da manifestação organizada pela Plataforma Cidadania e Casamento para comentar a reportagem efectuada pela TVI sobre a referida matéria. Sinto-me obrigado a esmiuçar o vídeo apresentado no Jornal da Noite da TVI, na medida em que os jornalistas desta estação parecem estar treinados para encontrar os casos sociológicos mais interessantes.

Não me vou pronunciar, novamente, acerca do transporte de terços e virgens verde fluorescente na manif ou, sequer, das palavras antidemocráticas da organizadora do protesto, mas sim sobre as declarações de uma jovem de laçarote na cabeça, cabelo "à Cascais" e com uma idade que deverá rondar os 17/18 anos. Disse a referida criatura o seguinte: "Se só há casamento entre homens e homens e mulheres e mulheres, quer dizer, daqui a 10 anos não há Portugal. Ponto final, não é?".

Não, não é. A visão desta "menina de bem" assenta em diversos equívocos que cumpre esclarecer. Assumo que o que quis dizer foi que se se permitir o casamento de homens com homens e mulheres com mulheres, homens e mulheres vão deixar de se casar entre si e, então, não haverá nascimento de crianças. Em primeiro lugar, é importante que se diga que os homossexuais podem e têm filhos. A um casa de lésbicas basta que encontrem um doador de esperma (que pode ser o melhor amigo, o vizinho, um banco de esperma ou o homem do talho) para que uma delas (ou as duas) possam dar à luz as crianças que bem entendam. Um casal gay pode, igualmente, dar origem a uma criança se contratar uma "barriga de aluguer", prática muito popularizada nos EUA e que, por razões desconhecidas, mas que assentarão certamente em preconceitos morais, não é permitida em Portugal.

Assim, gays e lésbicas podem e querem ter filhos e, assim, contribuir para o "futuro de Portugal" (isto aceitando que o futuro de um país e o seu falhanço estão minimamente relacionados com a taxa de natalidade, o que já me parece pouco provável). O Estado é que parece não estar interessado na promoção de uma política de apoio à natalidade, na medida em que impede mulheres solteiras do recurso à procriação medicamente assistida.

Por outro lado, a referida criatura, parece querer inculcar a ideia de que se permitirmos o casamento entre pessoas do mesmo sexo, de repente, todos vão querer ser gays e todas, lésbicas. Sem se aperceber, a menina, afirma que, com a aprovação do casamento gay, ela própria, daqui a dez anos, terá "juntado os trapinhos" com uma mulher (e, arrisco, se calhar estava muito mais feliz). Mas, enfim, numa altura em que amplamente se reconhece que não há qualquer evidencia científica das chamadas teorias da reconversão (ou conversão, conforme se entenda que a homossexualidade tem uma origem social ou genética), parece-me completamente absurdo defender que a repressão terá como efeito a diminuição do número de gays e lésbicas.

A repressão só pode ter como efeito a infelicidade das pessoas a ela sujeita. É uma pena que uma rapariga tão jovem já esteja com um pensamento tão pouco liberto da coerção social.

3 comentários:

  1. Eu só digo que fiquei surpresa com o facto de se juntarem cerca de 5 mil pessoas para marcharem contra algo que não as afecta na vida prática, quando existem outras coisas tão mais importantes contra as quais deveriam marchar! Enfim...

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  2. Pois...o pior é que as afecta e muito. As criaturas da manif, com os seus terços e bíblias, só me fazem lembrar um bando de homossexuais penitentes. Assim se compreende que a promoção da aceitação das orientações sexuais minoritárias os preocupe de sobremaneira. É que para quem está em luta contra a sua própria orientação sexual, todas as ajudas são poucas.

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  3. Todos sabemos que, obviamente, todos os que não seguem os mandamentos católicos e a saem fora da caixinha das acções permitidas na cabeça destes senhores são pessoas sem limites nem valores morais capazes de tudo e mais alguma coisa. Pelo mal, claro, sempre pelo mal.

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