domingo, 21 de fevereiro de 2010

O apoio popular às ditaduras.




No seu brilhante livro sobre os alvores da democracia portuguesa ("A Construção da Democracia em Portugal"), Keneth Maxwell refere que "os documentos descobertos na prisão de Caxias revelaram que talvez cerca de 1 em cada 4 portugueses tinham em dado momento sido pagos por informações prestadas à PIDE". É uma percentagem elevadíssima e assustadora, já que aqui não se está a falar de pessoas constrangidas a prestar informações, mas de gente que, voluntariamente, as prestou a troco de uns tostões.

Sabemos, igualmente, que um grande números de judeus na Alemanha nazi foram enviados para os campos de concentração, não porque tenham sido descobertos pelas autoridades ditatoriais, mas porque foram denunciados pelos vizinhos, por conhecidos, por gente simples que não tinha, pessoalmente, grande coisa a ganhar com a clausura da comunidade judaica alemã.

Em Portugal temos tendência para ver a Revolução do 25 de Abril como aquela em que todo o povo mais simples se rebelou contra o poder fascista. Esta visão está, contudo, enviesada pela vergonha em admitir que existia um grande apoio popular à ditadura. É certo que na Revolução um enorme número de pessoas, membros das classes mais humildes, saiu à rua em apoio à transição portuguesa. Não obstante, é também verdade que o suporte da população, sobretudo fora das grandes cidades, zonas industriais e do latifúndio, foi bastante elevado mesmo até à queda do Estado Novo.

Todavia, o desconforto dos novos líderes democráticos, a começar por Mário Soares, impediu uma divulgação do número real e dos nomes de todos aqueles que em alguma altura foram informadores da PIDE. Assim, ficamos sem uma noção exacta de uma realidade que sabemos, contudo, ser mais tenebrosa do que pensávamos. As ditaduras, longe de serem mantidas apenas pelo esforço de uma elite isolada do querer popular, eram sustentadas, numa parte importante, por um apoio alargados dos cidadãos mais simples. Na ditadura portuguesa foi o povo, num primeiro momento, que a aceitou e que depois continuou a reforçá-la (mas cada vez menos, até à queda final). Olvidar esta realidade terá o efeito pernicioso de não estarmos atentos à possibilidade de maquinações populares para abdicarem da sua liberdade (e da dos outros) a favor de um qualquer novo "Messias".

1 comentário:

  1. "Olvidar esta realidade terá o efeito pernicioso..."

    Possa! Isso é que é falar! O Manuel Machado que se cuide!

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