sábado, 20 de fevereiro de 2010

Da inferioridade da mulher.




Hoje, mais de 5.000 pessoas (números da organização do "evento", portanto o número real deve rondar aí as 2.000) desceram a Av. da Liberdade numa marcha que na fachada pretendia reinvindicar um referendo para a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas que na realidade (o que é atestado pelo slogans da manif: "Casamento só entre um homem e uma mulher!" e "Sou pai dos meus filhos! Sou marido da minha mulher") pretendia afirmar-se como um protesto de negação do direito de acesso ao casamento a gays e lésbicas.

Enfim, a questão da idiotice do requerimento de um referendo para esta questão e da necessidade de se alargar o direito ao casamento a todas as pessoas independentemente da orientação sexual é tão óbvia e simples que nem nos daremos ao trabalho de, novamente, a analisar e discutir.

Embora deteste cair nos lugares-comuns, o que é facto é que aqueles que já apelidaram esta contestação como uma manifestação de ódio parecem ter toda a razão. Qual é, pergunto, a diferença entre este protesto e um outro em que se gritasse "casamento só para brancos" ou "pretos não devem poder casar". É que, esquecem-se os organizadores da manif e da Plataforma que lhe deu origem, os argumentos que agora avançam para obstar ao casamento entre pessoas do mesmo sexo são exactamente os mesmos que, há três séculos atrás, eram avançados para impedir o casamento entre os escravos.

Este movimento de protesto olvida, igualmente, um outro efeito que os slogans que defende provocam. Longe de ostracizarem somente os "membros" da "comunidade LGBT", marginalizam todas as famílias monoparentais, "bimonoparentais", todas as crianças que foram criadas pela avó, todas as mães solteiras, e pais solteiros, todos aqueles que são felizes e não querem (ou podem) constituir uma família monoparental. Esquecem, da mesma forma, que a mensagem que transmitem se pode reverter numa ideia perniciosa para o processo de emancipação da mulher. Ao afirmarem que uma familia apenas se pode constituir na complementaridade entre homem e mulher, concluem, necessariamente, que homem e mulher são diametralmente diferentes e ocupam espaços socias diversos. É assim que a mulher necessita do homem (e o homem da mulher, mas esta necessidade, dado papel superior que o masculino tem ocupado na nossa sociedade não tem um efeito pernicioso para o homem) para se constituir enquanto um ser humano pleno capaz de atingir a felicidade.

Ora, é esta mesmo a ideia que tentamos, em Portugal desde há cerca de 30 anos, combater. Era este tipo de pensamento que afastava as mulheres do trabalho, porque esse era o lugar do homem, que mantinha as mulheres num segundo plano, porque dessa forma deveria complementar o superior masculino (que possuía a carreira, chefia da família e capacidade económica). O superior complementa-se com o inferior e era este último o papel da mulher. É no fundo, e acredito que sem querer e, sobretudo, sem pensar muito nisto, esta a mensagem que Isilda Pegado passa quando de megafone em punho lidera as "famílias verdadeiras".

Esta plataforma tem falado imensamente da crise de valores que atinge a sociedade actual, em que tudo é permitido e se chega, até, ao ponto de permitir que a escumalha social, o grau mais alto da escala do preconceito (gays e lésbicas) ascendam ao estatuto de casados. Todavia, como refere a socióloga do ICS, Ana Nunes de Almeida, um valor permanece (e tem vindo a ser reforçado, creio) no que diz respeito à conjugalidade: a tentativa de se atingir a felicidade. E a quase totalidade dos gays e das lésbicas portugueses vive na infelicidade de ver a sua relação classificada de inferior, pouco digna ou meremente sexual. Claro que para aqueles que vivem infeliz, é muito difícil aceitar o contentamento alheio, sobretudo quando o outro tem um problema, um handicap: a homossexualidade. Parece ser esta, no fundo, a mensagem que Pegado e companhia pretendem passar.

A batalha será, todavia, absolutamente inglória. A luta pelo ancance da felicidade está-nos nos genes e enquanto existirem gays e lésbicas (ou seja, para sempre), a luta desta franja populacional e daqueles que, na sua felicidade, pretendem a satisfação para o próximo não vai cessar. E isto tem uma força imparável.

10 comentários:

  1. homosexualidade é doença

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  2. Anonimo: para fazer essa afirmação teria de se basear nos manuais da OMS ou então de alguma DGS de uma país com um serviço de saúde credível e avançado. Em alternativa teria de apontar um estudo credível (da sua autoria ou de outrem). Não o fazendo, aquilo que disse é tão tonto como eu afirmar que a minha casa é o ambiente adequado para a reprodução dos elefantes indianos. Enfim, mas devia ser mesmo o seu objectivo.

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  3. Que tristeza sinto perante a sua idiotice e falta de experiência de vida!
    Claro que não vou caír em lugares-comuns e rebater argumentações idiotas.
    Seja feliz, tente adquirir alguma cultura e deixe de ser parvo!

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  4. Não vai cair em nenhum lugar-comum, na medida em que não existe nenhum consenso (what so ever) acerca do facto de se poder, sequer, aventar a possibilidade de a homossexualidade ser uma doença. E não rebate a minha argumentação, não porque ela seja idiota, mas porque não consegue esgrimir qualquer tipo de argumento. É que não há ninguém que com mínima seriedade possa afirmar que a homossexualidade seja uma doença.

    Ps: eu sou feliz, o senhor é que parece não ser e, assim, tem necessidade de provocar o descontentamento nos outros. Pense bem no mal que pode fazer com as suas afirmações e penitencie-se.

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  5. Fico satisfeito que seja feliz!
    Eu, felizmente não posso dizer o mesmo!
    Vivo num país triste e tenho outro tipo de problemas que me afectam o dia-a-dia de forma bem mais real.
    Nunca tive necessidade de provocar "descontentamento" ou mal a quem quer que fosse.
    Lamento, somente, que neste País existam imbecis, que têm computadores, Internet e outras tecnologias sem terem a base cultural necessária para emitirem opiniões fundamentadas, conscientes e coerentes sobre a realidade social onde vivem!
    Pode pedir argumentação sobre este assunto e concerteza tela-á...mas em primeiro lugar terá que ganhar outro estatuto e olhar para o Ser humano doutra forma e noutra dimensão.
    Não basta falar de felicidade e de direitos e igualdade!
    A questão é outra e o seu discurso é somente um ligeiro ruído...

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  6. Ó Manel, enganou-se!

    O 1º e o 2º anónimo são pessoas diferentes, e com toda a certeza com ideias diferentes sobre a questão.
    Não seja preconceituoso e entenda que há anónimos e anónimos...

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  7. Concordo com este post! já agora, gostava de perguntar a essa tal Isilda Pegado se o marido alguma vez lhe fez um minete...

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  8. Se os anónimos não assinam, nem invocam a quem respondem, fica ligeiramente complicado para mim saber a quem estou a responder e acabo por tomar todos como sendo a mesma pessoa. Peço desculpa pela confusão.

    Respondendo a um dos anónimos, quando afirma que eu não tenho argumentação e sou imbecil tem de o justificar. E sobre essa outra dimensão do Ser Humano, sinceramente, e já que não adianta grande coisa sobre a mesma, não sei de que fala. A questão é outra...Esclareça-nos então sobre a mesma.

    Quanto ao último anónimo: Se Isilda Pegado for coerente, provavelmente, não deve fazer sexo oral, na medida em que este não tem como finalidade a prociação. Mas isto também não é minimamente relevante, porque eu considero que quem quer estar numa família tradicional e fazer sexo com a finalidade única da procriação tem todo o direito, desde que não exerça nenhum tipo de coerção nas práticas sexuais e amorosas alheias.

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  9. "Este movimento de protesto olvida, igualmente, um outro efeito que os slogans que defende provocam. Longe de ostracizarem somente os "membros" da "comunidade LGBT", marginalizam todas as famílias monoparentais, "bimonoparentais", todas as crianças que foram criadas pela avó, todas as mães solteiras, e pais solteiros, todos aqueles que são felizes e não querem (ou podem) constituir uma família monoparental."

    Isto é falso. Eles não olvidam, eles marginalizam propositadamente estas famílias. Estas também não fazem parte das famílias verdadeiras... Tanto atacam os gays e lésbicas como as famílias monoparentais (aqueles divorciados do demónio!! sim, porque os restantes são os coitadinhos...).

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