segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

2010: Revolução Sexual



Recordei-me, hoje, ao pensar no Relatório kinsey de um episódio em que falava com vários amigos (nem sei já bem em que contexto, nem com que pessoas exactamente), quando, às tantas, levanto a seguinte questão: "Fazes sexo oral porque @ teu/tua namorad@ (já não me lembro do sexo da pessoa inquirida) gosta, ou sentes prazer com isso.

A vergonha rapidamente se instalou no seio da discussão e imediatamente me explicaram que a pergunta era "demasiado íntima". Não demorou um instante para que me quedasse em silêncio, sentido o embaraço da minha condição de intrometido, imaginando que teria roçado a falta de educação. Continuámos, portanto, a falar de sexo, utilizando metáforas ligeiramente ordinárias e meias palavras, criando pela subtilidade e multiplicação de significados uma converseta menos comprometedora.

Hoje, todavia, penso que deveria ter insistido no meu ponto. Aqui há não muito tempo um eminente sexólogo estrangeiro disse à revista Visão que Portugal era um dos países onde se faz pior sexo e onde os homens mais mentem acerca do número de ralações sexuais que estabelecem. Bem se compreende, assim, que uma conversa franca (e sendo aberta e honesta não tem, em primeiro lugar, de ser tida com qualquer pessoa, nem, obviamente, devem ser revelados os detalhes mais gráficos [ou pornográficos] da relação) assuste a maioria das pessoas habituadas ao facto de que "o sexo é para se fazer e não para se debater".

Por este pequeno exemplo se conclui que se o 25 de Abril foi relativamente eficaz na conquista das liberdades de expressão, opinião, participação, etc, não cumpriu os mesmos objectivos no que diz respeito à liberdade sexual. Note-se que logo nos primeiros instantes da Revolução apareceram reinvindicações de cariz sexual (quer tendo por base algum tipo de feminismo, defesa dos direitos da população LGBT ou, simplesmente, a necessidade de uma libertação como a que se deu na Améria e, com menos impacto, na Europa). Esss solicitações foram de imediato abafadas pela moral revolucionária. Afinal, a Revoluição não havia sido feita para os "paneleiros e para as putas".

Portugal é o país do escondido e do oculto. Pode-se fazer mais ou menos aquilo que se quiser, desde que depois não se fale disso. As novas gerações assimilam e reforçam estes normativos sociais. Já era tempo de Portugal viver, finalmente, uma Revolução Sexual.

4 comentários:

  1. Depois de ter adorado o post anterior sobre o Kinsey, agora tinha de comentar.

    Pergunto-me se este será apenas um problema de Portugal. Pelas minhas pesquisas chego sempre à conclusão que o sexo continua a ser algo que se faz mas de que não se fala. Mas mais grave ainda me parece o facto de muitas pessoas nem se permitirem pensar em sexo! Para muitas qualquer desejo que fuja ao dito normal deve ser sempre reprimido. Nada de permitir descobrir o que certos estímulos despertam em nós. Nada de nos permitirmos sentir para além do estabelecido socialmente como aceitável. Nada de nos permitirmos expressar esses desejos. Muito menos de falar sobre eles...enfim, uma tristeza!

    Isto faz-me lembrar uma discussão que tive em Braga, quando trouxe à baila a forma como a obrigatoriedade da educação sexual nas escolas se pode tornar perversa dado que nem existe formação adequada para os formadores...mas a resposta do especialista foi simples e acabou por fazer eco: em Portugal estamos num ponto tão básico da sexualidade que o simples facto de se falar sobre o tema (mesmo que seja para só dizer asneiras!) só poderá ser positivo. Quando um dia este se tornar um tema discutível logo pensaremos em educar os formadores...


    ...eu continuo a acreditar que é possível :P

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  2. C., também espero, sinceramente, que seja possível educar os formadores para que a sexualidade possa ser falada abertamente nas nossas escolas. Todavia, em Portugal (pelo menos) acontece uma situação que me parece extremamente gravosa: é que nem num grupo de amigos como o meu, composto por gente supostamente "educada" se consegue falar de uma forma honesta de sexo e de ISTs sem se cair na conversa banal e, muitas vezes, ordinária.

    PS: obrigado pelo teu comentário que tem, efectivamente, mais qualidade que o próprio post. = )

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  3. Sim, compreendo bem de que te queixas. Aqui também se passa o mesmo. Cabe-nos ir levantando o assunto. Mantendo a porta aberta. até porque a maior parte dos amigos reage assim porque...não sabe agir de outra forma! Sente-se desconfortável, até porque provavelmente nunca falaram abertamente de sexualidade com ninguém. Muitas vezes nem se deram a hipótese de pensar sobre o tema. Há uns tempos li um texto do José Pacheco e Luís Gamito que dizia:

    "Em Portugal as dimensões da vergonha ligada à temática sexual suscitam, grosso modo, três tipos de comportamento: o de evitação, o solene e o anedótico."

    Portanto oscilamos entre o "Eu cá para mim essas coisas não me fazem falta nenhuma. se não fosse o meu marido precisar eu nem fazia", o "Amanhã temos de ter uma conversa de homem para homem" e a tal conversa banal de café em que se contam umas piadas e se vão perpetuando mitos e preconceitos...


    ...há tanto trabalho para fazer!

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  4. É o que vou tentando. Que se fale de sexo de uma forma que seja, ao mesmo tempo, honesta e produtiva. Mas é chato ser sempre aquele que causa o desconforto ou que vem falar do HIV...

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