quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

E a Grécia é que estava mal...




Na reunião de "concertação social" entre o governo, sindicatos e representantes das entidades patronais "decidiu-se" que o salário mínimo irá sofrer um aumento progressivo de tal forma que, no final de 2011, perfaça 500 euros. Os "patrões" (e, provavelmente, aquelas confederações sindicais mais ligadas ao partido do governo) conseguiram bloquear os objectivos da CGTP de que o salário mínimo atingisse, já a partir de Janeiro, os 500 euros mensais. Assim, no princípio do ano, o vencimento mínimo mensal (bruto) será de, apenas, 485 euros.


Eu não consigo compreender como é que uma pessoa consegue sobreviver com, somente, 500 euros por mês, tendo de pagar renda de casa, transportes, alimentação, vestuário, etc. E não posso, sequer, imaginar, o sufoco daqueles que auferem o salário mínimo actual (475 euros). Considero, portanto, absolutamente execrável que se ande a adiar um aumento que, mais do um imperativo de justiça social, cumpre a função de suprir as necessidades básicas da população mais empobrecida, apenas para fazer o "jeitinho" à panóplia dos "capitalistas" nacionais. E não me venham com a história das PMEs!


Enfim, o sinal que o nosso governo, o nosso país dão à força laboral portuguesa é que a partir de Janeiro não há mais 15 miseráveis euros para os trabalhadores, mas milhares (milhões) de euros em prémios para gestores (privados e públicos) continuarão, com certeza, a fazer parte dos usos do nosso "sistema económico". Tudo isto perante a apatia do povo. Parece que, afinal, as coisas cá estão muito pior do que na Grécia. Ora façam o favor de ir espreitar o salário mínimo deles.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O "bibelô cor-de-rosa".






Miguel Vale de Almeida, o deputado-gay, decidiu renunciar ao mandato como deputado à Assembleia da República a partir do início de 2011. Tomou esta decisão por, afirma no seu blogue pessoal, "sentir que cumpri[u] uma missão cívica e por vontade de regressar à [sua] actividade profissional".



A "missão cívica" de que fala refere-se, sobretudo, à aprovação do alargamento do casamento a casais compostos por pessoas do mesmo sexo. Uma medida que, segundo Vale de Almeida, possibilitou que se atingisse "a igualdade no acesso ao casamento civil". Não podia estar mais em desacordo. Não conseguindo incluir o direito à adopção por casais gay, a lei actual veio, ao mesmo tempo que acabava com uma discriminação relativa (porque a lei das uniões de facto já previa a esmagadora maioria dos direitos, com excepção da adopção), criar uma discriminação absoluta (enquanto os casais heterossexuais são considerados merecedores do direito a adoptar uma criança, os homossexuais são marcados com o ferro da indignidade do acesso a uma parentalidade igualitária). Enfim, tudo isto com o aval e excitação queer do deputado-gay.



Esta "missão cívica" traduz-se, assim, numa lei torta, com efeitos perniciosos e que seria aprovada de qualquer forma - correspondia a uma óbvia necessidade social e, mais do que isso, a uma jogada política com muito poucos custos e enormes benefícios para um governo que precisava de lavar uma cara já bem suja com umas águas (chocas, neste caso) de esquerda. Nada fez, portanto, pela causa LGBT neste campo.



Contudo, Miguel Vale de Almeida leva uma certa presunção que o vem acompanhando mais longe e chega a dizer que aquilo de que mais se orgulha enquanto respresentante legislativo da nação é o facto de ter sido o "primeiro deputado assumidamente LGBT". Considera, assim, que a sua principal contribuição foi ter sido o "bibelô cor-de-rosa" de uma Assembleia e de um Partido que pouco ou nada fizeram pela liberdade e igualdade sexual. Enfim, é curto, muito curto...E não pense, sequer, o sr. Miguel que foi eleito por ser gay, que entrou para São Bento como representante da comunidade LGBT ou que, tão-pouco, foi eleito com os votos desta. Foi cumprir uma quota miserável. A sua função só me faz lembrar a daquele pano de cozinha que está sempre sujíssimo e que utilizamos para limpar atodo o tipo de porcaria que cai no fogão ou na bancada.



Só posso, assim, concluir que a sua entrada para o Parlamento teve mais efeitos negativos que benéficos para o combate LGBT. Esperemos, todos aqueles que acreditamos nos direitos humanos e na igual dignidade da pessoa humana, independentemente da orientação sexual, identidade de género e etc., poder recuperar dos estragos causados pelo Professor Vale de Almeida. Será difícil, tendo em conta, pelo menos, os comentários populares que li na notícia do Público (não havia um único positivo).


Ps: o que nos vale é que temos a APF, UMAR, Panteras Rosa, Não te Prives e etc. (e não a ILGA, já agora), para defender de uma forma acertada a luta LGBT.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A Ponte Salazar e a falsa controvérsia sobre a memória histórica.


Começa este pequeno apontamento pela constatação de que, de facto, há, ainda, muito tonto, para dizer o mínimo, habitando este país. Outro dia, numa pesquisa relativa ao meu mestrado que efectuava no google, deparei-me com a existência de um relativamente extenso grupo no facebook que advoga que a Ponte 25 de Abril volte a ter o nome originário: Ponte Salazar. Fiquei interessado em perceber os argumentos desta gente e prossegui um pouco na minha inquirição, acabando por encontrar a petição posta a circular por este grupelho e que, online, conseguiu 149 assinaturas...Enfim, já diz tudo, não?

Justificam, os peticionários, a sua iniciativa com o argumento de que "a verdade Histórica deve ser em qualquer situação, grande preocupação de qualquer povo" e acrescentam que "a omissão de factos, incoerências, desvios à verdade, esquecimentos a prazo, receios ou vergonha da sua História, no caso concreto, do nosso povo, que somos nós e os que antes de nós fizeram História, torna-nos superficiais, descaracteriza-nos como entidade cultural e acima de tudo faz-nos cúmplices da mentira".

Perante tudo isto, sinto-me compelido a avançar algumas "verdades históricas". Em primeiro lugar, não há coisa mais natural, mais humano, mais profundo do que sentirmos vergonha de certos acontecimentos da nossa história. Eu sinto uma vergonha que roça a humilhação quando penso que o meu país foi o maior traficante de escravos que já operou nesta terra. Sinto vergonha de termos sentido que pela força das armas podíamos destruir culturas milenares e forçar a aceitação dos nossos preceitos morais, jurídicos, religiosos e culturais. Sinto vergonha quando penso em todas as pessoas que foram assassinadas nas fogueiras do Santo Ofício por todo o nosso país. E sim, sinto imensa vergonha de toda a história portuguesa que diz respeito ao período do Estado Novo.

Toda esta vergonha que sinto não se traduz no desconhecimento destes factos. Muito pelo contrário. Penso que é sobre estes erros que mais se deve trabalhar, mais se deves estudar, ler, reflectir. Fazer de tudo para que não se repitam. Considero, por outro lado, completamente idiota dignificá-los e celebrá-los permitindo que continuem a constar como denominação de um qualquer monumento.


Por outro lado, o 25 de Abril é o momento histórico fundador do nosso actual regime político. Por que razão é que já era lícito apagar este acontecimento?


Para além disso, eu ainda poderia admitir, por uma razão de justiça histórica, digamos, que a ponte sobre o Tejo mantivesse o nome de Ponte Salazar (que creio, todavia, nunca ter sido, sequer, o nome oficial da dita) se Oliveira Salazar tivesse contribuído, efectivamente, de forma crucial, com forte empenho, para a construção da referida via de comunicação. Não foi, todavia, de todo, aquilo que se passou. Salazar, como sabe qualquer pessoa que tenha um mínimo conhecimento de história contemporânea portuguesa, foi sempre um inimigo visceral de tudo o que cheirasse remotamente a progresso e desenvolvimento como seria construção de uma via de ligação entre as duas margens do Tejo em Lisboa. Já desde 1933 que Duarte Pacheco moía o juízo do Presidente do Conselho com a ideia da construção da ponte, contando sempre com a sua mais veemente oposição. O começo das obras acaba por acontecer, somente, em 1962 e a inauguração da ponte em 1966 (já quase no fim do consulado de Oliveira Salazar).



Considero que seria uma estupidez gigantesca manter na ponte o nome de uma criatura que se revelou o maior obstáculo a qualquer tipo de avanço cultural, científico e tecnológico do nosso país, o que nos legou um atraso de mais de 50 anos em relação à restante Europa ocidental. Atraso do qual, note-se bem, nunca chegámos a recuperar e se conseguimos que não se continuasse a alargar foi unicamente por causa da Revolução do 25 de Abril. Mas isto sou só eu...

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Crónica de uma péssima moeda - parte I.




O primeiro mandato do actual Presidente da República está a chegar ao fim, razão pela qual sinto poder, já, classificar Cavaco Silva como tendo sido o pior Presidente da República eleito depois do 25 de Abril. (Não considero que tenha sido o pior PR desde o 25 de Abril, na medida em que, entre os não eleitos, consta António de Spínola). Por uma questão de honestidade intelectual (para melhor explicitação dos critérios que me levaram a esta conclusão), indico aquele que acredtito ter cumprido de forma mais competente o cargo de Presidente da República. Trata-se de Jorge Sampaio. Os porquês, em relação a Sampaio, ficarão para um post posterior.

Seguem, agora, as bordoadas (contra Cavaco, como é lógico).
O dr. Cavaco (gosto sempre de repetir a maneira "carinhosa" como VPV se refere ao actual PR) nunca foi e não passará a ser nos tempos que lhe restam (enquanto político e enquanto ser vivo) um democrata. Desde os tempos da praia de Olhos d'Água que não compreende a agitação política, as manifestações, as greves, a necessidade do debate parlamentar. Na sua autobiografia política refere-se ao brutal sistema salazarista como um regime que "não apreciava", como quem fala de uma comida de que não é, especialmente, adepto. Na sua passagem por Inglaterra viveu isolado do meio académico e político britânico (já tinha família e filhos) e a democracia inglesa não exerceu sobre a criatura qualquer tipo de influência.

Da leitura da sua autobiografia política pp 36 e ss) percebe-se, claramente, que não compreendeu, nunca, aquilo que se passou no 25 de Abril de 1974 e o período revolucionário que a esta data se seguiu. As palavras que mais utiliza para se referir a este momento histórico são "confusão" (nas três páginas em que trata do assunto aparece aí umas cinco ou seis vezes), "degradação", "ambiente caótico". A participação dos alunos na direcção das faculdades perturbava-o imensamente e só conseguiu atingir alguma paz quando ingressou nos quadros docentes da Universidade Católica Portuguesa (cuja organização era mais próxima daquela do "Antigo Regime" e com a qual se sentia mais à-vontade).

Para Cavaco Silva a democracia não passa de um expediente técnico de escolha dos governantes. Acredito que aceite as eleições democráticas como a melhor forma de legitimar a cehagada ao poder. Atingido esse patamar, todavia, não compreende a contestação, os checks and balances (a que sempre chamou "forças de bloqueio"), o sistema de separação de poderes, enfim, toda a práxis democrática do período entre eleições. "Deixem-me trabalhar" (no fundo uma versão actualizada do "no mais, que o País estude, represente, reclame, discuta, mas que obedeça quando se chegar à altura de mandar" de Salazar) era o lema que atirava ao povo, à comunicação social, ao PR e aos outros órgãos de soberania enquanto foi primeiro-ministro.


Chega, então, em 2006, ao cargo de Presidente da República sem fazer a mínima ideia da função que deveria desempenhar. Ao Presidente da República não cabe dirigir a política administrativa, económica, financeira, cultural, etc., do país, mas garantir o regular funcionamento das instituições democráticas. Cavaco fez-se eleger como o tecnocrata que iria resolver, a partir da presidência, o problema das finanças portuguesas. Nada fez para isso, sobretudo porque cedo se deve ter apercebido que não possuía qualquer tipo de atribuições na matéria.


Deixou, contudo, que a democracia portuguesa se degrada-se imensamente. O lugar de Portugal no Índice de Percepção da Corrupção da Transparency Internacional e no Ranking de Liberdade de Expressão dos Repórteres Sem Fronteiras tem vindo a cair sucessiva e perigosamente durante o consulado Sócrates, sem que Cavaco se tenha pronunciado, uma única vez, de forma assertiva, sobre a questão. Andava entretido na "cooperação estratégica" (que no recente anúncio de candidatura às presidenciais foi substituído pela expressão "magistratura activa", repararam?).


Foi, assim, completamente incompetente na função que principalmente lhe cumpria levar a cabo: a garantia da democracia portuguesa, como referimos. É por esta razão que considero ter sido o pior PR eleito desde o 25 de Abril de 1974. É também por esta razão que começa, hoje, neste blog, a campanha contra a reeleição de Cavaco e em prol de Manuel Alegre (um verdadeiro democrata, um lutador pela liberdade e democracia portuguesa, um conhecedor e interventor no 25 de Abril de 1974, um produtor de cultura de excelência, um tudo menos um tecnocrata, e, portanto, a pessoa certa para o cargo).


Força Manuel Alegre! 25 de Abril sempre, Cavaco nunca mais!
Saudações democráticas.







quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Radicalismos.

Eu só pergunto se é justo que o Banco Central Europeu empreste dinheiro aos bancos a uma taxa de juros de menos de 2% para depois estas instituições concederem empréstimos aos Estados a taxas de 5%, 6% e 7%?

Tudo em nome da "estabilidade do sistema financeiro". Qual estabilidade? Afinal a quem serve esta situação?

E, depois, radical é a esquerda quando critica estas situações...


Apetece-me gritar: NACIONALIZAÇÕES, JÁ!!!

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

E o fascismo, subrepticiamente, começa a passar...

Trabalhar, estudar, tentar manter um grau (ainda que escasso) de (uma ainda que desastrosa) vida pessoal e vir aqui lançar uma ou duas ideias são coisas que se começam a tornar cada vez mais incompatíveis. Não podia, contudo, deixar de aqui vir expressar a minha (ainda modesta, mas a um passo de se tornar significativa) preocupação com o que considero ser um certo avanço das ideologias fascistas nos países europeus (e numa outra democracia da área do mediterrâneo).


Em primeiro lugar, e como já aqui expressei, achei francamente perturbador a inacção das instituições responsáveis da UE perante a política ultra-discriminatória de Sarkozy em relação aos ciganos romenos que se encontravam legalmente em frança. Como se trata de ciganos, foram poucos aqueles que manifestaram uma discordância mais audível.

Il fascismo

Ontem, na Sérvia, os manifestantes da Marcha do Orgulho Gay (LGBT) de Belgrado foram barbaramente atacados por mais de 6.000 contra-manifestantes homofóbicos. Por entre os gritos de "morte aos homossexuais" e "começou a caça", vários membros de claques e militantes de extrema-direita brutalizaram centenas de manifestantes pacíficos. O ódio e o medo foram os propulsores de instintos animalescos que a polícia não teve força para contrariar na totalidade. Valeu, ao menos, as reacções do Presidente e restantes membros do governo sérvio que condenaram veementemente os actos de violência. Quando estive na Lituânia, foram os próprios deputados do Parlamento Lituano que tentaram furar a barreira policial que protegia a curta manifestação do Baltic Pride. No país balcânico a reacção institucional foi, ao menos, correcta.




Também no dia de ontem, nas eleições para a Câmara de Viena, o partido de extrema-direita (aquele que teve como líder um gay militante homófobo, falecido ha dois anos) alcançou o segundo lugar com bem mais de um quarto dos votos, tendo veiculando durante a campanha frases ultra-xenófobas, em que atacava, sobretudo, a população islâmica do país.


Em Israel, o arqui-fascista Benjamin Netanyahu fez passar em Conselho de Ministros uma proposta de lei que obriga os candidatos à cidadania israelita a jurarem fidelidade ao "Estado judaico e democrático de Israel". Enfim, só me faz pensar nas conversões forçadas de judeus na Idade Média.
Já neste pedaço de terra a que usámos (infelizmente) chamar de país, a machadada fascista vem da proveniência menos provável. Sobre o recente Prémio Nobel da Paz a um dissidente chinês, o PCP veio dizer que se trata de uma forma de pressão dos EUA (!!!!) sobre a China e que degrada a importância do prémio. Enfim, há muito que a esquerda já deixou de contar com os facho-comunistas para uma verdadeira "política patriótica de esquerda".

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Eu "voto" Dilma.




Dilma Rousseff, a candidata "apontada por Lula" ás eleições presidenciais brasileiras de domingo passado, não confirmou o favoritismo com que havia partido para a campanha eleitoral, tendo de disputar uma segunda volta com José Serra, o candidato conservador. Uma segunda volta que, não tenho a menor dúvida, irá vencer (não, não acredito numa repetição à brasileira do confronto Freitas do Amaral/Mário Soares). Muita gente neste pobre país (Portugal) produtor dos mais argutos profetas da desgraça ficou radiante com a derrota da candidata do Partido dos Trabalhadores. Porque as forças que a apoiavam estavam envolvidas em casos de corrupção. Porque era apenas uma sombra de Lula. Porque, simplesmente, não gostam de vencedores à partida.


Enfim, escuso-me a rebater as acusações de corrupção. É óbvio para toda a gente que as mesmas terão existido e que, muito provavelmente, Lula e Dilma terão delas tido conhecimento. Todavia, no Brasil, o governante que se preocupar unicamente com a corrupção acabará, certamente, assassinado sem ter conseguido obter resultados mínimos. O combate à corrupção terá de ser feito pela via da educação e da diminuição da pobreza, áreas em que a governação de Lula foi exemplar.


Hoje, quando pensamos em Brasil, podemos pensar em assaltos, em crimes violentos, em favelas, não pensamos, certamente, em primeiro lugar, em pobreza e em fome. Lula e a sua equipa retiraram milhões de pessoas na pobreza. Para além disso, o executivo que brevemente cessará funções, colocou o Brasil no seio das potências mundiais graças a uma política externa agressiva, mas baseada unicamente no soft power possibilitado pela liderança em certas áreas fundamentais (indústria aeronáutica, agricultura, reservas energáticas e biológicas).


Para além do reconhecimento deste excelente trabalho da equipa a que Dilma Rousseff pertenceu, Marina Silva não viu, segundo os analistas políticos brasileiros, subir a sua votação por ser um exemplo de seriedade (o que até será), mas somente porque, à última hora, foi divulgado o rumor de que Dilma seria favorável à legalização da intervenção voluntária da gravidez (o que, infelizmente, parece não ser verdade). Marina, evangélica praticante, subiu, assim, apoiada no povo mais pobre, que se revê em Lula e nas suas políticas, mas que é demasiado conservador para aceitar uma maior liberalização dos costumes sociais.


Eu sou um confesso admirador de Lula da Silva e espero, sinceramente, que possa ascender, agora, a um grande posto internacional (Secretário-geral da ONU, Presidente do Banco Mundial, etc.). Torço, assim, para que na segunda volta Dilma Rousseff bata Serra, para se tornar na primeira mulher a presidir ao maior país da América Latina. Será bom para todos.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Fascismo, não passará!




Hoje, a Comissão Europeia recuou na iniciativa de avançar com um processo por discriminação (dos ciganos búlgaros e romenos) sobre a França. Como sempre, nos assuntos em que a Alemanha não tem grande interesse numa actuação forte da UE, as instituições comunitárias falham em impor o cumprimento das directivas europeias aos estados-membros. (Coisa muito diferente se passa nos mecanismos reguladores da moeda única ou do endividamento orlamental).

A comissária europeia da Justiça e dos Direitos Humanos, Viviane Reding, também havia recuado na comparação que estabeleceu entre as políticas de Sarkozy e os acontecimentos de perseguição de judeus (e outras minoriais étnicas, culturais, sexuais e religiosas) no período da II Guerra Mundial.

Considero inaceitável o primeiro recuo da Comissão Europeia, mas bem o percebo. Os restantes "grandes" europeus (Alemanha, Itália, Espanha, e, menos, a Inglaterra) têm, também, inúmeros problemas com o "excesso" de imigração (legal e ilegal). Não querem, assim, ser demasiado duros nas sanções a aplicar a um país incumpridor, na medida em que não sabem que medidas restritivas da livre circulação de pessoas terão de aplicar no futuro.

Quanto à acusação da Sra. Reding, não podia estar mais de acordo. Este tipo de injustiças lembra-me sempre do poema de Brecht que mantenho na margem direita destas páginas. A atitude despreocupada que encarnamos em relação às discriminações que atingem os nossos semelhantes retira-nos a protecção contra possíveis arbitrariedades. "Como eu não me importei com ninguém/ Ninguém se importa comigo".

A perseguição à comunidade judaica no seio do III Reich também não começou, como sabemos, pela deportação e assassínio em massa. Depois dos acontecimentos da "Noite de Cristal", certamente que Hitler também se indignaria se o comparassem aos sultões otomanos que ordenaram o extermínio de milhares de arménios durante a I Guerra Mundial (e a maioria da Europa concordaria com Hitler, afinal não "tinha sido assim tao grave", ainda). E, depois, vimos quais foram as consequencias advindas de tais práticas.

Hoje são so ciganos, amanhã os mendigos e os toxicodependentes, depois as prostitutas, em seguida os imigrantes africanos e, por fim, sou eu. Podemos aceitar isto?

sábado, 18 de setembro de 2010

O Imperialismo Democrático, Parte I - O Afeganistão.




Decorreram, hoje, eleições legislativas no Afeganistão. O resultado não desiludiu o fiasco já previsto: a abstenção situou-se num valor muito próximo dos 70%. O medo da violência, sobretudo dos ataques dos fundamentalistas religiosos taliban, afastaram a esmagadora maioria das pessoas das urnas. A gigantesca fraude em que se saldaram as presidenciais do ano passado também não terá ajudado a motivar a participação popular.


Barack Obama, como é lógico, estava extremamente esperançoso de que as legislativas afegãs se saldassem num enorme sucesso, na medida em que pretende "descolonizar" o país o mais rapidamente possível (e Obama, a quem já chamam de novo Jimmy Carter, bem sabe que só terá um mandato para isso).



Infelizmente correu tudo mal. Desde o fim da II Guerra Mundial que os americanos estão convencidos de que é possível impor (pelo soft e hard power) a democracia nas outras nações do mundo (um certo tipo de democracia, obviamente. Liberal e de pendor capitalista). As experiências bem sucedidas na RF Alemanha, na Itália, na Áustria e no Japão (embora neste último caso o sucesso seja, no mínimo, relativo) mais os fizeram acreditar de que estavam certos.



O expoente máximo desta crença apareceu na pessoa de George W. Bush, promotor de uma retórica imperialista como já não se via deste Nikita Krutchev. Um imperialismo "democrático", contudo, através do qual se pretendia, utilizando Israel, o Iraque, o Afeganistão, e (eventualmente pressionado) o Paquistão como pivôs, democratizar todo o Médio Oriente, num movimento de pinça quie excluiria, logicamente e porque é um regime demasiado amigo, a Arábia Saudita.



Obviamente que estes planos megalómanos e proféticos de Bush se saldaram num esmagador insucesso. Estranho foi que Obama não tenha abandonado esta ideologia messiânica, nem sequer a retórica belicista e ofensiva em relação ao Irão.


Todos sabemos, contudo, que os esforços de democratização do Afeganistão estão votados a ter um mau resultado. No momento em que os soldados americanos começarem a abandonar o país, os talibans já se terão instalado, regiamente e com muito mais garantias, em Kabul.


Penso que cumpre compreender que o sucesso da instalação de regimes democráticos em Itália, Alemanha Ocidental, ou Áustria no rescaldo da II Guerra Mundial tem muito que ver com o facto de estes países já terem vivido experiências democráticas (ou proto-democráticas) prévias. Os três países sofreram as influências da Revolução Francesa, viveram, de formas diferentes, claro, o liberalismo constitucional monárquico e tentativas de implementação de um sufrágio mais ou menos alargado.


Ora, nada disto aconteceu em países como o Afeganistão ou Iraque, na medida em que os regimes destes estados passaram directamente da monarquia absoluta para a ditadura militar ou religiosa. Como podemos, então, achar que é possível impor o Estado de Direito, o sufrágio universal masculino, o voto feminino, e, até, imagine-se, as quotas de representação feminina (!!!), num país onde os conceitos de igualdade, cidadania, primado da lei, separação de poderes e liberdade religiosa não são conhecidos ou aceites?


O "paternalismo democrático", como bem demonstra a trágica experiência africana, só poderá originar maus resultados. Terão de ser as forças internas, a sociedade civil, e não o exército "invasor" a promover a construção da democracia e a sua sedimentação sobre bases sólidas. O único apoio estrangeiro que é, neste ponto, desejável é o da implementação de programas de educação para a cidadania e direitos humanos, sempre através de organizações locais.


Esperemos, contudo, que, como aconteceu em inícios do século XIX com a difusão dos ideais liberais através da baioneta das tropas napoliónicas, também a ideologia republicana e democrática tenha chegado a algumas partes do afeganistão na ponta das espingardas.

sábado, 11 de setembro de 2010

Outra vez a "guerra ao terrorismo" ou Nós não esquecemos Allende!




Faz hoje 9 anos que o centro financeiro de Nova Iorque sofreu o mais brutal atentado terrorista numa país desenvolvido. A partir das 9h30 da manhã, dois aviões, previamente desviados por terroristas pertencentes à Al-Qaeda, dois aviões embateram nas duas torres do Wordl Trade Center, provocando um número de mortes superior aos dois milhares. Para assinalar o aniversário da tragédia, Barack Obama proferiu um discurso em que apelou à tolerância religiosa, frisando não ter sido o atentado perpetrado por uma religião (a islâmica), mas sim a supra-citada "agência" terrorista internacional.

Não obstante, Obama não conseguiu afastar-se da retórica belicista que vinha marcando de forma acentuada as administrações de George W. Bush. Apesar de afastada a terminologia da "Guerra ao Terror" e do "Eixo do Mal", é um facto que expressões muitp semelhantes foram empregeues pelo actual PR americano ("Hoje declaramos uma vez mais que nunca lhes concederemos vitória"). As garantias de que, nesta batalha contra o terrorismo, a América "não sacrificará as liberdades que tanto preza, não se esconderá atrás de muros de suspeição e desconfiança e não cederá ao ódio e à intolerância” caem num saco ligeiramente roto, tendo em conta as dificuldades que a adminsitração Obama tem tido em encerrar a prisão de Guantánamo.


No dia de hoje, há 37 anos atrás, deu-se uma das mais vergonhosas intervenções externas americanas. A 11 de Setembro de 1973, a CIA preparou um golpe de estado no Chile que levaria ao derrube (e morte) de Salvador Allende, o Presidente socialista, e NÃO comunista, democraticamente eleito do Chile. Mas esta traição à democracia já toda a gente esqueceu. Mas nós não!!

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A discriminação da saúde mental.




aqui falei da discriminação a que está sujeita a doença mental em Portugal. Penso, todavia, não ser só na doença que existe estigmatização e preconceito, mas, igualmente (e, quem sabe, com mais força) na saúde mental. Passo a explicar. Não é possível que uma pessoa passe, nos dias de hoje e nos "países desenvolvidos" como o nosso, sem consultar (regularmente, até) um oftalmologista, um ginecologista, um urologista, um dentista, um cardiologista, enfim, um qualquer médico das áreas que dizem respeito ao "corpo" (aqui utilizado por oposição a cabeça, mente).


Todavia, a maior parte das pessoas nasce, cresce e morre sem, sequer por uma vez, ter sido examinada por um especialista da área da saúde mental (psiquiatras, psicólogos, psicanalistas, etc; também designados popularmente pela carinhosa expressão de "médicos de malucos"). Pela mazela mínima numa perna ou num braço acorremos como doidos às caóticas urgências deste país. Achamos, contudo, perfeitamente natural não conseguir manter um relacionamento que dure mais de uma noite, termos uma necessidade louca de gritar com o nosso companheiro(a), não usufruirmos de qualquer tipo de prazer sexual ou sofrer de ansiedade generalizada.


Mas, afinal, o psi- é o "médico dos loucos" e recorrer a esse tipo de profissionais é para os fracos. Não é?

domingo, 5 de setembro de 2010

Fica a suspeita...




Admito ter ficado surpreendido com o desfecho do "Processo Casa Pia". Com o pessimismo que me é habitual, acreditei que tirando Carlos Silvino (dos anteriormente alegados, agora condenados abusadores, o único que pertencia ao "grupo dos pobres"). Foi, assim, com feliz admiração que recebi, sexta-feira passada, a notícia de que todos os arguidos (tirando a dona da "casa de Elvas", Gertrudes Nunes - por questões meramente processuais, e não substanciais, todavia) foram condenados. Claro que a "Bibi" coube a fatia mais pesada (cerca de trêz vezes a pena atribuída aos restantes pedófilos) - pauvreté oblige.

Ainda assim, só o facto de criminosos poderosos como Carluz Cruz ou o Embaixador Jorge Ritto terem visto ser-lhes aplicada uma pena de prisão efectiva é, penso, motivo suficiente de contentamento e satisfação para um país onde se pensava que o cometimento impune de crimes tinha como única condição a existência de recursos económicos suficientes para a contratação de "bons" defensores legais. Isto porque acredito, sinceramente, que aqueles crimes foram cometidos por aquelas pessoas e que a história da "cabala" não cola de maneira nenhuma Uma conspiração feita por ex-alunos da Casa Pia -que foram, efectivamente, abusados, como foi confirmado por exames no Instituto de Medicina Legal - contra pessoas sem qualquer ligação aparente...Enfim, alguém acredita nisto?

Ao contrário do que referiu ao "Público" o advogado Guilherme da Palma Carlos ("a justiça não ficou melhor nem pior" com esta tomada de decisão) acredito que o sistema judicial português deu um sinal evidente de que é possível decidir um caso de forma justa, apesar de toda a pressão a que foram sujeitos os magistrados. Claro que a varejeira que lidera a Ordem dos Advogados já veio tecer as suas sempre muito pertinentes críticas ao desenrolar do processo. "Quem anda pelos tribunais, quantas condenações sem provas vê? E quantos criminosos andam por aí à solta sem serem condenados?", perguntou. "É o que mais acontece no mundo da Justiça, que é feita por homens que podem errar." A tristeza das declarações e o brutal ataque aos sistema de justiça de todo o mundo não merecem qualquer tipo de comentário...Felizmente, nos países democráticos, os erros judiciários não são prática assim tão corrente.


Obviamente que, como muito bem referiu Catalina Pestana, nenhum dos arguidos, talvez nem mesmo Carlos Silvino, virá a cumprir qualquer tipo de pena. O efeito suspensivo dos recursos até ao STJ garante que os casos comprovados de abuso sexual de menores prescreverão. (Os primeiros casos prescrevem já daqui a 6 anos e ninguém acredita que, tendo a decisão da primeira instãncia demorado 8 anos a ser produzida, a segunda e terceira apreciações sejam muitíssimo mais céleres). E ainda temos de contar com os recursos posteriores para o Tribunal Constitucional e para o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.


Todavia, da culpa social já não mais se livram. Carlos Cruz bem pode vir alardear inocência em todos os prime times de todas as televisões nacionais que todos nós continuaremos a saber que, num caso de tal mediatismo, se aqueles juízes tivessem a menor dúvida acerca da culpabilidade dos arguidos teriam estes sido integralmente absolvidos. Fica, agora, uma dúvida. E Paulo Pedroso? Acusado pelas mesmas vítimas, acabou por ver o processo que o envolvia ser arquivado pelo Ministério Público. Dos suspeitos iniciais era aquele que, na altura, gozava de melhores lugações políticas. Fica a suspeita...

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Leonor Beleza e a incúria na destruição de uma carreira.




Leonor Beleza poderia ter sido a mulher mais poderosa deste país. Secretária de estado da Presidência do Conselho de Ministros entre 1982 e 1983, secretária de estado da Segurança Social (1983-1985) e ministra da Saúde (1985-1990), a ascensão política de Leonor Beleza parecia imparável. A inteligente jurista tinha tudo para se manter no segundo governo maioritário de Cavaco Silva (eventualmente noutro posto que não na Saúde, onde era já vista de forma extremamente negativa por grande parte da classe médica) e para, no futuro, atacar os mais altos cargos governativos.


Poderia, perfeitamente, no terceiro governo liderado por Cavaco Silva ter assumido um Ministério como o da Justiça. Seria com relativa facilidade que, passados os anos de Durão Barroso (ou mesmo antes), ascenderia à Presidência do PSD para, chegada aí, se catapultar para o cargo de primeira-ministra (onde teria muitíssimo mais possibilidades de chegar do que teve Manuela Ferreira Leite).


Nada disto aconteceu. Em 1990 abandonou as funções governativas, para nunca mais as vir a desempenhar. Continuou como deputada à Assembleia da República e foi assumindo posições com algum relevo dentro do seu partido. nunca, todavia, aquelas para as quais vinha a ser talhada (e que, certamente, gostaria de ter assumido). E tudo isto porquê?


A explicação encontra-se no facto de, durante o seu consulado como ministra da Saúde, ter mais de uma centena de hemofílicos sido contaminada com o virus da sida através de sangue importado, no seio de um processo onde a verdadeira responsabilidade de Leonor Beleza nunca foi apurada. Num primeiro julgamento, o Tribunal considerou ter a governante violado "deveres de cuidado", não conseguindo, todavia, encontrar provas suficientes para sustentar a condenação. O Ministério Público recorreu da decisão, tendo os arguidos recorrido ao Tribunal Constitucional, o que levou à prescrição do processo.


Assim, Leonor Beleza acabou por nunca sair completamente incólume de toda esta história, subsistindo, até hoje, dúvidas acerca da sua inocência. Não é de estranhar, portanto, que as duas palavras que apareçam, em primeiro lugar, no Google associadas a estapersonalidade sejam "sida" e "sangue contaminado". E assim se destruiu, por incúria e completo desleixo, uma carreira política de grande sucesso.

sábado, 28 de agosto de 2010

Anatomia da traição.






As relações (afectivas - namoros, casamentos, etc.) duram muitíssimo menos tempo do que em tempos passados. É um facto que a emancipação da mulher permitiu que, na maior parte dos casos, a dependência económica feminina deixasse de ser um entrave à separação, permitindo que o vínculo entre o casal se fragilizasse pela perda da componente financeira. Ficavam, assim, homem e mulher (porque, nestes tempos de que agora se fala, as relações homossexuais eram, absolutamente, residuais) numa paridade relativa que permitia ao elemento do sexo feminino decidir, igualmente, do fim da relação.





Considero, todavia, que, nos dias de hoje, a inexistência de relações duradouras como as de outrora tem que ver, igualmente, com alguns factores adicionais. Um deles relaciona-se, creio, com a crescente valorização de um certo tipo de monogamia, exclusividade e posse. Em tempos que já lá vão, a fidelidade, apesar de apanágio de uma sociedade católica que se prezasse, não tinha de passar do mundo da aparência. Desde que tudo parecesse conforme aos padrões de comportamento social da altura (o homem casava com uma rapariga virgem de condição social semelhante, os pais escolhiam ou tinham muito a dizer na escolha do par dos filhos, o casamento era indissolúvel, etc.), aquilo que depois era feito era, cumpridas, obviamente, algumas condições, perfeitamente aceite.



Assim, sobretudo nas classes mais favorecidas, era perfeitamente normal os homens terem amantes. Até porque a "sereníssima esposa" não servia para aplacar os desejos sexuais do marido, mas somente para ser mãe dos filhos. Uma esposa não se rebaixava ao cumprimento dessa função. Ainda na alta sociedade (e já não no seio das classes mais baixas), era, igualmente, comum as senhoras terem amantes (normalmente mais jovens) com quem se entretinham. E marido e mulher (mas sobretudo esta) aceitavam (ou eram obrigados a aceitar) as "escapadelas" dos companheiros.



Hoje, a ideia de um certo tipo de verdade, da monogamia, da exclusividade, foi passando da teoria para uma prática obrigatória. Os affaires são cada vez mais mal vistos e quem é traído tem de arcar com sentimentos de vergonha e humilhação. É o "corno", o fraco, etc. A confiança é criada, não pela honestidade, mas pela posse. E quantas relações não ficam destruídas pela prossecução deste tipo de sentimentos, por um ciúme, as mais das vezes, irracional.

E quantas relações belíssimas não foram, ja, salvas por uma "traição"?


sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Medo.



Medo - Amália Rodrigues

Quem dorme à noite comigo
É meu segredo,
Mas se insistirem, lhes digo,
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo.

E cedo porque me embala
Num vai-vem de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.

Gritar quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim
Gostava até de matar-me,
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.


Depois disto, ainda não gostam de fado?!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Avé de Fátima, um hino gay?!







E aqui vai a história da, provavelmente, mais conhecida música religiosa (popular) portuguesa: o Avé de Fátima ("A 13 de Maio na Cova da Iria apareceu brilhando a Virgem Maria..."). A letra da referida música roça muitas vezes (ou afunda-se mesmo) o piroso. Ainda assim, admitamos, fica no ouvido e duvido que exista algum português que não saiba, pelo menos, entoar a primeira estrofe.




O que, muito provavelmente, muito poucos saberão é que tão singela poema é da autoria de um dos primeiros homossexuais assumidos portugueses. Pois é, a letra do hino do 13 de Maio foi composta por António Botto (1897 - 1959) que, após a perseguição a que foi sujeito pelo regime do Estado Novo que culminou na sua exoneração das funções públicas que exercia, terá exclamado: "Sou o único homossexual reconhecido no país".




Esta informação será, com certeza, do desconhecimento do país beato que com tanta fé entoa o cântico oferecido por Botto (um católico fervoroso) ao Cardeal Cerejeira (então patriarca de Lisboa) por ocasião das comemorações marianas. Ficam, agora, aqui, a saber que quando o fazem homenageiam um homossexual assumidíssimo, que não tinha vergonha daquilo que era, que se orgulhava da sua sexualidade.




Afinal, o autor do mais conhecido hino nacional de culto a Maria (mãe de Deus) é exactamente aquele que a Igreja (e seus consortes no seio da população) estigmatiza e ostraciza, o homossexual, o pecador que não deseja expiar as suas supostas faltas. Sem saber e sem querer, a tradicionalíssima hierarquia católica portuguesa deu, ainda nos anos 50, um importante passo na aceitação da homossexualidade no seu seio, ao aceitar a criação de um homossexual católico assumido.




Lembrem-se todas as beatas e os ratos de todas as sacristias d'este mui pio país que enquanto o Avé de Fátima se ouvir no respectivo Santuário, a homenagem à homossexualidade e às suas criações não poderá ser calada e ecoará a partir do núcleo religioso fundamental deste país.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Solidão.




Diz o povo que "mais vale só que mal acompanhado". Assumo-me um incondicional seguidor da sabedoria popular, mas, pelo menos nos dias de hoje, sou obrigado a discordar do ditado. Quantas vezes uma companhia menos boa se torna uma boa alternativa à solidão? Só sendo muito desonesto, ou sofrendo de algum tipo de fobia social, alguém poderia afirmar estar feliz num período relativamente prolongado de solidão.

Para o bem e, infelizmente, também para o mal, o homem é um "animal social". Grande parte do nosso contentamento advém, assim, da interacção com outras pessoas. Somos, por condição inerente à nossa natureza, miseráveis se sujeitos a períodos prolongados de isolamento. É por esta razão que o aprisionamento na "solitária" foi, desde sempre, um dos castigos mais temidos aplicado aos incumpridores em locais de detenção por todo o mundo.

Mais vale, então, relativamente mal acompanhado que só. Claro que o objectivo (inantingível, tanto quanto sei) seria a pessoa sentir-se tão bem consigo própria, ter a auto-estima num nível tão elevado, que a companhia de outros seres humanos não mais seria do que um bom complemento, algo que se procurava porque era bom, porque preenchia, e não por necessidade, por medo de envelhecer abandonado, de experimentar tudo sozinho, de desbravar o caminho sem ter com quem parar para recuperar as forças. Ninguém se sente, contudo, assim.

Claro que a "solidão interior" é muito pior do que a circunstância de, de um ponto de vista externo, físico, uma pessoa se encontrar, momentânea ou permanentemente, sozinha. E é por isso que Nietzsche dizia: "Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeira companhia" (obrigado, T., pela frase). Aquela solidão partilhada de que todos temos pavor, mas que, igualmente, todos preferimos a ter de enfrentar um abandono solitário. Ao menos distrai-nos, enquanto dura o fingimento, enquanto ninguém nos preenche, nos ocupa por completo. Daí se dever, mais correctamente dizer, "melhor bem enganado que só".


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A receita do desastre.






Ou seja, a partir de hoje, os EUA já não se encontram, oficialmente, em guerra contra nenhum grupo dentro do Iraque. Até ao final de 2011, todas as tropas americanas deverão abandonar o país. Será, certamente, a receita para a catástrofe. Alguém, honestamente, ainda acredita na viabilidade do Estado iraquiano?

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A bissexualidade e a patriarcalidade.




Há um amigo meu que acredita, piamente, que todas as mulheres são bissexuais. Será, penso, uma crença (talvez não nestes moldes tão definitivos), relativamente, difundida na nossa sociedade, pelo menos dentro hemisfério masculino (heterossexual). É comum (quase obrigatório...?) os homens heterossexuais terem a fantasia de estar sexualmente com duas mulheres que se satisfazem, também, mutuamente. Depois, o contacto físico feminino mais próximo (beijos, andar de mão dada, etc.) é também entendido com normalidade, enquanto que a dois homens é, rigorosamente, proibido que se cumprimentem com um beijo na face (a menos que sejam familiares).


A bissexualidade feminina é, assim, parece-me, bastante mais aceitável que a masculina. Todavia, tenho as maiores dúvidas em afirmar que a homossexualidade feminina seja entendida da mesma forma (comparativamente com a masculina). Isto porque a nossa sociedade (em que o domínio masculino é, ainda, evidente) não compreende, nem tão-pouco acredita, que duas mulheres possam quedar-se, sexualmente, satisfeitas apenas com a intimidade feminina. A presença de um homem (e de um pénis) é sempre necessária e é com ela que o desejo feminino verdadeiramente se apaga. As relações sexuais entre duas mulheres servem, assim, somente, para colmatar a falta do elemento masculino ou, então, para deleite deste.


Às relações (exclusivamente) lésbicas fica, desta forma, reservado um estatuto de inexistência. (São, quanto muito, mulheres que não conheceram um "homem verdadeiro"). E a "nova moda" da bissexualidade das cantoras e actrizes pop torna-se, sem querer provavelmente, um reforço da patriarcalidade em que se encontra submsersa, ainda, a nossa sociedade actual.

domingo, 15 de agosto de 2010

O "mundo gay".





Por vezes, sobretudo em sites/chats de encontro pouco recomendáveis (é bem provável que num post próximo explique por que razão os considero de evitar) , é comum encontrar-se descrições pessoais que incluem a seguinte expressão: "gajo, tal e tal, fora do mundo gay". Sempre me intrigou a expressão e várias são as causas da intriga. Em primeiro lugar, tenho alguma dificuldade em definir aquilo que se entenderá por "mundo gay". É-me, sobretudo, difícil entender de que forma é que pessoas que dizem não pertencer a um determinando ambiente/conjunto de pessoas/cultura o conseguem delimitar tão bem, ao ponto de poderem afirmar com segurança dele não fazerem parte.


Por outro lado, qualquer que seja o entendimento que se tem das coisas que estão incluídas no "mundo gay", sites como manhunt, gaydar e etc estão lá seguramente. Poria as partes mais sensíveis do meu corpo, os meus olhos, no fogo, apostando não existir nenhum gay português que nunca tenha dado, pelo menos por curiosidade, uma espreitadela nos referidos portais. Assim sendo, a frequência das respectivas páginas tem de ser vista, obviamente, como uma das práticas do chamado "mundo gay", estando, desta forma, os seus praticantes incluídos no universo a que rejeitam pertencer. Uma contradição muito mais aparente do que efectiva.



Claro que todos sabemos a que se referem estas pessoas quando falam do "mundo gay". Referem-se, provavelmente, a uma certa maneira de vestir (mais feminina? mais avant-guarde?), à frequência de certos espaços de diversão nocturna, ao estabelecimento de um certo tipo de relacionamentos, etc. Por várias razões, para alguns, isto ainda é visto de uma forma negativa. Não percebem estas gentes que o pior do "mundo gay" são exactamente aquelas práticas que prosseguem: a sordidez dos encontros combinados pela net, o pseudo straight acting, os relacionamentos escondidos...Não percebem que estão muito mais dentro desse universo do que aquilo que pensam, e que estão, precisamente, na pior parte do mesmo.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Ser alternativo.




O "Andanças" será, provavelmente, o mais alternativo dos festivais de verão portugueses. Alternativo, em primeiro lugar, porque prima pela aceitação e promoção da diferença. Procura-se, tendo o festival o centro gravitacional na dança (o que, desde logo, promove um cderto grau de libertação, pelo menos, corporal), que todos se sintam bem e atenta-se na necessidade de protecção do ambiente, dos recursos naturais, das tradições culturais e das liberdades de expressão.

O aspecto alternativo do "Andanças" traduz-se na miríade de formas de vestir, nos ornamentos utilizados e nas diferentes formas de estar dos participantes. Lá, muito dificilmente uma pessoa seria julgada pelo modo como se veste ou apresenta. E, contudo, como bem lembrou um rapaz espanhol com quem por lá me cruzei, ser alternativo não é, primacialmente, usar rastas ou um sari indiano. Ser alternativo é, mais do que valorizar a diferença própria, procurar aceitar/ respeitar a diferença alheia. É procurar adaptar uma certa realidade social preexistente (ainda que rompendo com algumas tradições culturais bem enraizadas) à quebra de todos os preconceitos. É levar a tolerância ao grau máximo, promovendo a diversão de todos, independentemente das características segundo as quais se apresentam.

Porque, afinal, o mote do "Andanças" era "o melhor bailarino é aquele que mais se diverte", as regras e as convenções da dança devem ceder perante a promoção do bem-estar e divertimento de cada um, e não o contrário. Ora, neste particular, o festival, no meu entender, assumiu um completo falhanço, provocando, de forma inadvertida, certamente, situações de discriminação. É certo que a maioria das danças de pares foram construídas para serem executadas por um homem e uma mulher, embora, ao que sei, o tango, por exemplo, tenha sido criado, inicialmente, como uma dança exclusiva de homens. Há um que conduz (o homem), sendo a mulher conduzida.


Na medida em que é uma prática recorrentíssima (quem não se lembra dos bailes de aldeia?), duas mulheres dançarem juntas (sendo as mesmas lésbicas ou heterossexuais), no festival, os pares compostos por dois elementos do sexo feminino eram aceites com a maior normalidade. Já os pares integrados por dois homens eram vistos com a maior estranheza. Era comum ouvir-se afirmações do género: "Isto é uma dança para dançar homem com mulher. Duas mulheres também pode ser. Homem com homem é que não, porque dá faísca", por parte dos instrutores de dança. Acontecia, também, casais gays que optavam por fazer os workshops juntos serem separados pelos instrutores, porque havia "mulheres disponíveis".


Sinceramente, adorei participar no "Andanças". Esperava, todavia, sinceramente, que existisse uma política maior de integração das orientações sexuais minoritárias (nomeadamente no tocante a casais homossexuais masculinos). Todas as danças podem, perfeitamente, ser adaptadas (com um prejuízo mínimo) para serem executadas por dois homens. Basta que os professores sejam avisados e estejam atentos para esse tipo de situações. Um pequeno briefing inicial, com todos os professores e staff, alertando para a participação no festival de casais homossexuais e para o imperativo de estes se sentirem tão bem e se divertirem tanto como os restantes, seria, penso, um bom primeiro passo a tomar numa próxima edição. Quem sabe, uma tarefa de que se poderia encarregar o Núcleo LGBT da Amnistia Internacional....


quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O regresso.





Depois de uma relativamente prolongada ausência, os meus pensamentos retornam a estas ruas. Peço desculpa àquele punhado de leitores que me acompanha com alguma regularidade pela aus~encia de actualizações, mas a minha mente já precisava a de umas merecidas férias da escrita e da leitura. Volto, agora, ligeiramente mais recuperado e, espero, com algo de interesse para partilhar convosco.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Da jaula para a prisão?




Tenho para mim (como quase certo) que a maioria das pessoas não aprecia por aí além a liberdade. A liberdade que advém da quebra de todos os constrangimentos sociais, culturais, económicos, políticos, etc (ou pelo menos de uma maioria substancial), na mdeida em que os impedimentos naturais não são passíveis de ser ultrapassados. A população LGBT não difere, neste ponto, dos restantes membros da sociedade, apesar de serem recorrentemente apelidada de libertária e libertina (empregando sempre as expressões fora do seu significado correcto). A questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo (CPMS) (uma conquista que me divide todos os dias) retrata bem aquilo que se disse.


Longe de lutarem por uma mais ampla liberdade sexual (ou afectiva, ou amorosa, ou de qualquer outra natureza sentimental, digamos), o que os movimentos LGBT portugueses mainstream têm procurado fazer é combater pela inserção de gays, lésbicas e etcs, nas categorias heterossexuais preexistentes (o namoro monogâmico, a união de facto monogâmica, o casamento monogâmico, etc). Não digo que estas reivindicações não sejam justas, dignas e necessárias. Agora, tem-se alienado uma componente de combate que me parece extremamente importante: a luta por uma liberdade sexual mais ampla.


Tem sido com base neste tipo de luta "heterossexualizada" e, mais, normativizada (socialmente) que se tem baseado grande parte do activismo LGBT (a maior parte das vezes com a maior justiça e razão, entenda-se, e com o meu total apoio). Tem, contudo, existido um certo desconforto em relação a certos movimentos que reivindicam uma liberdade sexual mais plena (nomeadamente os poliamorosos), o que me parece negativo, na medida em que sabemos que a quebra de todos os constrangimentos sociais no que concerne ao sexo, levaria a que fossem atingidas todas as metas desejadas por qualquer movimento LGBT.


Assim, nesta questão do casamento, cumpre apenas perguntar se não estamos a passar de uma violação menor da nossa liberdade para uma mais geral/global...Se não estamos, somente, a passar da jaula para a prisão?

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Por que é que eu fui à XI Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa.




Eu já tive uma má opinião acerca das marchas do orgulho gay. Em primeiro lugar porque não compreendia o conceito de orgulho aplicado a esta situação. Orgulho em se ser homossexual. Há dois anos nada me parecia mais idiota. Que sentido fazia? E se havia o orgulho gay, porque não a manifestação de um orgulho heterossexual? Afinal, não somos "todos iguais"? Não merecemos todos o mesmo tipo de tratamento, de respeito, de consideração? Então porquê individualizar? Por que não fazer apenas uma marcha anti-discriminação?


Depois, em 2008 (creio eu) "aproximei-me" da Rede Ex Aequo (uma associação de jovens - alguns já não tão jovens quanto isso - LGBT's) e, mais importante, juntei-me à Amnistia Internacional em Fevereiro de 2009, inicialmente porque necessitava de uma experiência de voluntariado para concluir uma cadeira da faculdade, e depois, porque me identifiquei muitíssimo com a maneira e com a perspectiva que seguiam na defesa dos direitos humanos. Principiei por contribuir para a reactivação da ReAJ (Rede de Acção Jovem da AI - Portugal) da qual fui o primeiro Secretário. Todavia, logo que soube que já havia existido um grupo de trabalho sobre questões LGBT na secção portuguesa da AI, procurei imeditamente saber de que forma seria possível reactivá-lo.



Era necessário angariar pessoas interessadas na causa da defesa dos direitos LGBT's enquanto direitos humanos. Fiz essa recolha e apresentei-a à direcção da Amnistia Internacional nas vésperas da X Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa. Punha-se então a questão: a AI deveria participar (como aliás já tinha feito em anos anteriores) ou não? Eu, que era coordenador do "ressuscitado" grupo, deixar-me-ia levar pelo preconceito, ou compreenderia que o melhor era experimentar, levar o núcleo a uma manifestação que todos aqueles activistas dos direitos humanos que me rodeavam consideravam digna e meritória e ver pelos meus próprios olhos.



O Núcleo LGBT da Amnistia Internacional decidiu participar e, durante a Marcha eu compreendi o que era o Orgulho LGBT e o que significava estar ali a lutar pela liberdade de expressão de manifestações minoritárias, mas não emnos dignas, de amor. Este sentimento saiu fortemente reforçado quando participei, já este ano, no início de Maio, na dificílima Marcha do Orgulho Gay dos países bálticos - Estónia, Letónia e Lituânia (o Baltic Pride). Ver a força daquelas pessoas, profundamente magoadas, humilhadas, desrespeitadas pelo seu Estado como eu nunca tinha visto acontecer em Portugal fez-me compreender que o nosso esforço em Portugal não chega a 1/10 do daqueles activistas.



E então empenhei-me mais na marcha lisboeta do Orgulho Gay. A Amnistia Internacional participou na Comissão Executiva e decidiu usar da palavra no momento final dos discrusos. (E calhou-me a fava). Optei por alertar para a violação mais bárbara dos direitos mais básicos a que o ser humano deveria ter direito com que inúmeros estados por esse mundo fora (mas sobretudo no mundo islâmico) respondem à homossexualidade: 80 países ainda a proíbem e 7 (todos de inspiraçao islâmica) condenam os homossexuais à pena de morte. Espero tê-lo conseguido...

sábado, 19 de junho de 2010

Amnistia Internacional na Marcha!




Se a Marcha do Orgulho LGBT fosse uma coisa pouco digna, uma ONG com a credibilidade da Amnistia Internacional participaria? Não me parece!


"Hoje celebramos o Orgulho LGBT. E em Portugal até temos alguns bons motivos para o fazer. O panorama internacional é, contudo, negro no que toca à protecção das minorias sexuais: na maior parte dos países do mundo não existe legislação anti-discriminação, num grupo alargado de nações, o Estado proíbe a homossexualidade e 7 países respondem com a pena de morte às manifestações de amor minoritárias.


Mesmo na EU, um bastião da democracia e liberdade, há países em que não existe liberdade e segurança para organizar este tipo de manifestações.

Há quase 20 anos que a AI trabalha sobre a violação dos direitos humanos de pessoas com orientações sexuais ou identidades de género minoritárias. A nossa posição é muito clara neste ponto: qualquer pessoa, seja qual for a sua orientação sexual ou identidade de género, deve usufruir de todos os direitos humanos.

O nosso orgulho fica manchado quando não utilizamos a voz que nos é dada, a possibilidade e a liberdade de nos manifestarmos para lutar contra a crueldade de que são vítimas gays e lésbicas por todo o mundo.

Não sejamos cúmplices, através da nossa inacção, da morte, tortura e aprisionamento de pessoas cujo único crime foi manifestarem uma diferente forma de amar.

Porque podíamos ser nós, não abandonemos as populações LGBT de países como o Irão, a Arábia Saudita, a Mauritânia ou o Sudão à crueldade dos respectivos estados.

Não os deixemos sozinhos! "


Não acham tudo isto justo e digno?

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Um grande português.




Morreu José Saramago. Estava no ginásio quando uma das televisões me deu a notícia. Fiquei aturdido. Não era propriamente um fâ incondicional do escritor, mas senti, como sentiu todo o povo português, a perda de um grande romancista, de um homem de fortes convicções políticas e morais, de um grande português.


Será sempre grande, sempre lembrado.


Notícias: i I, II, III, IV. Público I, II

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O orgulho gay.




Começam no próximo dia 19 (Sábado, com a Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa) as comemorações nacionais do Orgulho LGBT (que se prolongarão até 10 de Julho com a Marcha do Orgulho LGBT do Porto). É, assim, uma altura propícia para tratar este tema do Orgulho LGBT

(Eu prefiriria chamar à coisa Orgulho Gay e usar, como, de uma forma relativamente corrente, fazem nos países anglo-saxónicos (ou mesmo no Brasil, por exemplo), a expressão Gay como um chapéu para abranger toda a diversidade sexual/ de identidade de género minoritárias, em vez de andarmos para aqui a criar uma série de siglas que já ninguém entende: GLS, LGBT, LGBTQ, LGBTQA, LGBTQI. Há alguém que decifre todos estes conjuntos de letras sem recorrer ao google? E este tipo de complexificação das identidades sexuais/ de género só funcionam como forma de afastar uma enorme parte das minorias sexuais. Perdemos, então, aqueles que não compreendem esta terminologia e os embróglios de uma luta que também lhes deveria pertencer. O resultado de tudo isto é que a maioria dos activistas LGBTs portugueses têm uma formação académica mínima ao nível da licenciatura, tirando o caso, talvez, daqueles que compõem o colectivo Panteras Rosa. Os resultados são negativos, mas não é este o momento para sobre os mesmos divagar mais longamente, na medida em que o aparte já vai longo).



O orgulho gay (ou LGBT) é um sentimento com uma carga positiva, digamos, diminuta. É um sentimento que aparece com uma vertente de oposição mais marcada. Oposição à vergonha anteriormente sentida, à humilhação, ao desrespeito, ao nojo, à indiferença, ao desprezo sofridos, à vontade de mudar, à imposição da sociedade para que o comportamento seja outro. Não é um sentimento que se afirme pela positiva, na medida em que, por si só, não faz grande sentido que uma pessoa afirme ter orgulho em ser homossexual, tal como, por exemplo, não fará muito sentido que uma pessoa com uma deficiência física fale de orgulho por essa condição.


Aqui o sentimento de orgulho é criado pela discriminação e pretende ser um estádio avançado, mas não o final (em que a pessoa se sente tão bem com ela própria, tão merecedora de igual respeito, tão equivalente às outras, que o orgulho deixa de fazer sentido), no qual qual uma pessoa se sente suficientemente bem com o facto de ser gay (ou lésbica, ou transexual, ou o que quer que seja) que deixa de permitir que lhe faltem ao respeito (a si ou a outros da mesma "condição), aceita a sua diferença, luta pela sua aceitação, expressa a sua verdadeira maneira de ser, etc. Assim, embora com ligeiras diferenças, porque nos casos das minorias étnicas podem existir certos saberes e artes que possibilitem a vertente positiva de um sentimento de orgulho, o orgulho gay (gay pride) se filia numa série de outras "manifestações" anti-discriminatórias de que o Orgulho Negro (Black Pride) foi (e ainda é), talvez, aquela mais forte.


É por todas estas razões que não faz sentido falar de um orgulho hetero (ou de um orgulho branco, sendo que aqui o white pride tem mesmo uma conutação extremamente negativa de xenofobia e racismo). Ser heterossexual é o "normal", o habitual e o esperado de um determinado ser humano (genericamente na sociedade actual). Uma pessoa heterossexual não é, habitualmente, vítima de discriminação e, assim, não existindo nada de intrinsecamente positivo no facto de se ser heterossexual, a heterossexualidade não pode sustentar nenhum sentimento de orgulho que não seja homófobo e discriminatório (como o era aí uma certa campanha de uma cerveja de terceira categoria).


Não sei, exactamente, o que pensam sobre o assunto, mas agora era interessante que o punhado daqueles que me lêem se pronunciasse Concordam, discordam? Apoiam as manifestações deste orgulho? (= )). E a Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa é já este Sábado. Estão a pensar aparecer?

Que vergonha...

Critiquei, neste blog, amplamente, a forma como as autoridades israelitas "receberam" a flotilha humanitária que se dirigia a Gaza. Considero, contudo, ser imensamente incorrecto tomar a parte pelo todo e considerar que todos os israelitas (ou pior, todos os judeus) apoiam as acções belicistas e concordam com as políticas dos actuais dirigentes do estado de Israel. Claro que neste caso concreto a profissão de uma determinada religião (neste caso a judaica) cria a aproximação em relação a um Estado (neste caso Israel), o que complica um pouco as coisas.


Uma coisa que, porém, não pode ocorrer é proibir-se um qualquer grupo de cidadãos israelitas de se manifestarem por uma qualquer causa justa, apenas porque as autoridades do seu país tomaram decisões pouco acertadas. É, assim, uma vergonha que um grupo de habitantes de Tel Aviv tenham sido proibidos de participar na Marcha do Orgulho LGBT de Madrid. Uma vergonha....

domingo, 13 de junho de 2010

Cunhal e a democracia portuguesa.




Hoje, para além do dia de S. António (com tantas datas importantes para a cidade, tinham de escolher para feriado municipal a de um Santo que, afinal, nem dirá, actualmente, grande coisa à maioria dos lisboetas...mas adiante) "comemoram-se" os 5 anos da morte de Álvaro Cunhal. Nos últimos tempos, sobretudo por parte duma direita fascista, mas que logo de democrata se travestiu no Portugal pós-Revolução dos Cravos, tem estado na moda celebrar o 25 de Novembro de 1975, quando a direita, com o Partido Socialista encabeçando o movimento, amordaçou uma revolução que supostamente se transviava do objectivo inicial e se tornava anto-democrática.


Tenta-se, desta forma, diminuir a importância crucial do Partido Comunista para a instauração (e mesmo consolidação) da democracia portuguesa. E a importância de Álvaro Cunhl nesse processo. É certo que a forma como foi feita a revolução portuguesa (um golpe militar pacífico) não era do gosto dos comunistas que preferiam um levantamento popular, na medida em que, logicamente, desconfiavam dos militares - afinal, tinham sido estes que haviam instaurado a ditadura. Não é, todavia, menos verdade que o PCP era, nas vésperas do 25 de Abril, o único partido organizado e com implantação nacional (tirando, obviamente, a União Nacional, depois ANP). Contribuiu, assim, de forma muito importante para a politização (obviamente necessária) de um "Movimento dos Capitães" que via em Melo Antunes um dos poucos membros com uma consciência política mais elaborada.


Não se pode, obviamente, afirmar que Álvaro Cunhal queria a implantação de uma democracia em moldes liberais (aquilo de que o regime português actual é uma sombra difusa, mas que vê como modelo). As ideias do então líder comunista para o nosso pequeno país envolviam a constituição de um sistema muito próximo daquele dominante na "Europa de leste". Obviamente que a ideia era irrealizável, mas foi muitíssimo utilizada pelos partidos de direita (novamente com os socialistas à cabeça) para criar o medo da tomada do poder pelos "vermelhos".


Ainda assim, o período revolucionário português implementou (a mando do PCP e do seu líder, Cunhal), pelo menos, duas medidas importantíssimas, muitíssimo necessárias e da mais básica justiça social: a Reforma Agrária e a nacionalização dos monopólios económicos mantidos pelo sistema fascista e aque coagiam o desenvolvimento do país. Eu sou um crítico acérrimo do PCP, mas também sei reconhecer que não é por acaso que é um dos partidos comunistas mais poderosos do mundo e tem uma influência enorme na política nacional (que ultrapassa em muito a percentagem de votos nas eleições nacionais).

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Enfim...




Portugal é, efectivamente, o país dos brandos costumes, e é por isso que a nossa revolução de Abril de 74 foi tão inusitada, apanhando todos de surpresa (para além de que não foi despoletada pelo povo). Hoje, o nosso país, afinal, não está muito melhor do que a Grécia. E ninguém faz nada, a população não sai à rua, não derruba governos, não destrói, não contesta a sua situação, não declara não a aceitar, nada faz por mudar....


Tudo apático, tudo estupidificado...O primeiro-ministro continua, alegremente, tratando da sua vida pós-política (com negociatas ultra-obscuras para a produção de computadores de terceira categoria), malbaratando os magros recursos estatais que, do nosso bolso, saem extremamente caros.


Na Grécia, em França, os estudantes, os desempregados, os trabalhadores precários estão todos na rua. Aqui, a única coisa que nos faz sair de casa é um piquenique manhoso, com um cantor foleiro, num jardim antes conhecido por ser o maior "mercado da carne" de Lisboa.


Enfim....

quarta-feira, 9 de junho de 2010

'Cause I had a bad day...

Duas semanas intensas de trabalho resultaram num 15 em Política Internacional. Agora estou sem tempo para me "atirar" ao "Eurocomunismo e a Revolução Portuguesa"...E a maneira como me olhaste, depois de tanto tempo, depois de tudo...quase com desprezo...E o futuro: que fazer no ano que se segue? E o tempo a passar...E estou tão cansado...tão cansado...

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O "totalitarismo do orgasmo".




Hoje, Teresa e Helena casaram, naquele que foi o primeiro casamento entre pessoas do mesmo sexo a ser celebrado em Portugal. Continuo sem perceber por que razão, nos dias de hoje, duas pessoas insistem em casar (ainda por cima sendo homossexuais, o que retira grande parte da pressão social...), mas enfim, elas pareciam estar felizes e, assim, não posso deixar de as acompanhar nesse sentimento. Afinal, foram as duas principais responsáveis (com grande custo pessoal) por este passo (tímido) em direcção à igualdade.


Entretanto, numa crónica de 31 de Maio a que só agora tive acesso, João César das Neves ( o arauto nacional da discriminação) faz um certo tipo de afirmações que não poderia deixar de comentar. Não me refiro àquelas em que fala, no registo de língua extremamente baixo que lhe é característico, da homossexualidade como sendo um "comportamento sexual desviante", da "maioria porcalhona" (que termo para utilizar numa crónica num jornal nacional reputado....) ou da falta de discussão nacional sobre a qual assentou a aprovação do casamento gay (outra vez a mesma história?!).


Aquilo que me preocupa no discurso (que a certa altura se torna extremamente desconexo, na medida em que se refere a este alargamento do casamento como um marco fundamental na mudança de uma instituição milenar, mas que terá poucas consequências....Hã?) da criatura é a comparação que estabelece entre o prazer sexual e o "deboche" (obviamente utilizando a palavra no seu pior sentido: de depravação). Ataca, assim, o orgasmo, o sexo não-procriativo, a educação sexual.


César das Neves nunca praticou sexo oral (muito menos anal), nunca atingiu o orgasmo...Fala do sexo como algo virado para a fecundidade. E isto é digno de uma incomensurável pena...As afirmações com que tem sempre vindo a atacar a felicidade alheia ficam, assim, explicadas e são, quase, perdoáveis. O hedonismo é exactamente o conceito filosófico subjacente ao sexo. Quem, aos 60 e tal anos (Ou mais?), ainda não foi capaz de perceber isto, está, efectivamente, destinado a ser um frustrado. E a frustração sexual é um catalisador perigosíssimo para todas as formas de discriminação contra a liberdade sexual.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

"Eu não vendo o corpo, alugo!"




Depois do casamento gay, a nossa pequena oomunidade nacional, a que alguns ainda insistem chamar de Estado, está pronta para discutir outra "questão fracturante". Eu achava mais premente que se discutisse a legalização da eutanásia. Seria muito complicado. A morte (afinal a coisa mais natural e a única certeza que temos na vida) é o derradeiro tabu, maior do que o sexo, e toda a gente tem medo que aquelas famílias que, hoje, despacham os seus idosos para uma qualquer casa da morte (vulgo lares de idosos) e passem a despachá-los directamente para a cova. A mim, nada disto me assusta. Se eu não me encontrar em condições de resistir à decisão da minha família, se a tiver, de me eutanasiar, então é porque, efectivamente, já tinmha "chegado a minha hora".

Todavia, a dita "questão fracturante" que está a ter mais saída no momento, parece-me, é a legalização da prostituição. É de elementar justiça. A que propósito é que "a mais antiga profissão do mundo" (que nem sequer é, mas isso não interessa, tem uma antiguidade suficiente para todos percebermos que não é possível acabar com a mesma e que nem sequer é justo) continua a ser praticada nas mais indignas condições? O que difere, afinal, a prostituição de uma qualquer outra profissão? Quando faço esta pergunta, questionam-me sobre se eu gostava de ser prostituto (ou puto, no Brasil). Respondo que não, e acrescento, mas também não gostava de ser trolha, homem do lixo, empregado de limpeza, médico, técnico de informática, empregado numa funerária, pescador ou vendedor de automóveis.

Claro que a classe conservadora portuguesa vai, novamente, lutar com todas as forças contra mais este avanço civilizacional no nosso país. Afinal, depois, onde vai, às escondidas, o "pai de família" que afinal, de quando em vez até gosta de "dar umas voltinhas" com um rapazinho, ou a mãe que tem vergonha de praticar sexo anal com o marido (porque é pecado)? Tudo às claras, em casas com condições, com recibo passado depois do acto...Não pode ser.

A relação das autoridades nacionais com a prostituição sempre foi da maior hipocrisia. Nunca (nem nos tempos da "outra senhora") se perseguiu de forma contundente esta prática. Sempre tolerada, mas sempre discriminada. Agora, prostitutas e prostitutos começam a sair do armário. E quem pensa que poderá voltar a metê-los no "devido lugar", numa qualquer rua suja perto do Conde Redondo ou da Almirante Reis, já devia, depois de observar a luta LGBT neste país, perceber que já não consegue.

Apesar de fraquinho, aqui fica a ligação para um artigo do Público.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Israel está sozinha.




Uma vergonha, é como classifico o bárbaro ataque israelita à frota de activistas que levavam ajuda humanitária a Gaza. Ajuda humanitária, não armamento, não rockets... A faixa de Gaza é um território independente que Israel insiste em manter sob o mais vil controlo, causando uma situação humanitária catastrófica naquele pequeno espaço. Pretende esmagar pela fome, pela falta de acesso a água potável, a medicamentos os sofredores habitantes do território (na maioria tão inocentes como qualquer habitual cidadão israelita). Teve, desta vez, um comportamento tão ou mais indamissível do que aquele que é habitual o Irão pôr em prática.

Com este acontecimento, todos aqueles que desejam a destruição total de Israel conseguiram uma importante vitória diplomática. O regime do ultra-conservador Netanyahu perdeu, aqui, qualquer tipo de legitimidade internacional. A razão, neste momento, pende completamente para o lado palestiniano. Precisando de todos os aliados que conseguir na região (e sobretudo da Turquia, que já condenou expressivamente o referido ataque) para resolver os imbróglios afegão, iraquiano e iraniano, aos EUA só resta uma coisa: deixar cair o aliado judaico. Israel está sozinha.


Notícias: Público I e II, i.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

A homofobia é, já, uma vergonha.




Dentro de, precisamente, 5 dias, entra em vigor a lei que permite o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo (CPMS). No próximo dia 4 de Junho fica completo um ciclo que compreende uma vitória (ainda que muito pequena e muito parcial, na medida em que não inclui a adopção que é, para mim, muitíssimo mais relevante na regulação da interacção familiar homossexual que o casamento) sobre a homofobia. Apesar da luta acérrima movida pelos sectores arqui-reaccionários e ultra-preconceituosos nacionais, a liberdade, o amor, a igualdade, a luta contra a discriminação venceram.


Estão, aliás, estas forças, destinadas a vencer, sempre. Não obstante o medo que sempre causa a liberdade (veja-se a pãnico e a pressa em acabar com a Revolução portuguesa), as pessoas vão, certamente, habituar-se a mais este passo em direcção à modernidade e em relação àquilo que é correcto, justo e humano, porque "uma sociedade justa é aquela qu não humilha os seus membros". A reacção tentou (através de criaturas como Isilda Pegado, uma lésbica arrematada, dizem muitos) manter e reforçar a humilhação a que todos nós, membros da sociedade portuguesa, e não apenas os homo e bissexuais vínhamos sendo sujeitos.


Pela minha parte sou completa e intrinsecamente contra o instituto do casamento. Muitas vezes cheguei a perguntar-me porque andava, eu que classifico de "horrenda" esse tipo de união, a recolher assinaturas pelo CPMS. A resposta é simples. Acredito que numa sociedade que pretende reger-se pelo primado dos direitos humanos, duas (ou três, ou mais, que também nada tenho contra a poligamia e o poliamor) devem, querendo, poder "oficializar a sua relação perante o Estado" ( e já agora, perante Deus. Mas aí, vá-se lá saber porquê, as Igrejas, e não só a Católica, Têm sido pródigas na manutenção das mais vis discriminações).


Claro que a luta por mais este direito (o casamento monogâmico, excluindo a discriminação) tem na base uma visão "normalista" e "heterossexualizada" da vida conjugal e é, em parte, um presente envenenado, na medida em que imprime um atestado de incompetãncia parental aos homossexuais. Ainda assim, numa sociedade em que a visão de gays (sobretudo) e lésbicas é a de que estes são mais promíscuos (e que mal teria isso, já agora? mas adiante...) e menos atreitos ao estabelecimento de relações "sérias" (aquelas que duram aí, pelo menos, dois anos, penso...porque uma "curte" de uma noite não pode ser séria, embora seja, habitualmente, bastante mais honesta...mas não nos detenhamos, por ora, aqui) e, por isso, menos dignos de verem as suas relações vistas como iguais às heterossexuais, o estabelecimento deste laço conjugal "máximo" irá, com certeza, permitir que uma alteração na aceitação dos casais LGB.


Assim, dia 4 será um dia que representa um progresso genericamente positivo para este país. As demonstrações públicas de homofobia representam, já, uma vergonha para quem as põe em prática. Hoje, um homófobo (tal como um racista, um intolerante religioso, etc.) tem noção do embaraço que o seu comportamento provoca nele próprio e sabe bem que ficará situado no mesmo patamar que um qualquer "cantorzeco" ordinário. Atingimos, neste momento, creio, esta vitória. Utilizar termos como "paneleiro" ou "fufa" para atingir e magoar um gay ou uma lésbica deixou de ser admissível, e quem os utilizar, enquanto insulto, perde qualquer tipo de dignidade, desmorona a sua ética pessoal, reflecte que não tem valores, não tem capacidade cognitiva para perceber o alcance dos seus actos, enfim, "subhumaniza-se". Porque "discriminar não é humano"!.

domingo, 30 de maio de 2010

A estupidez da reacção.





Um conhecido meu costumava dizer que as pessoas mais inteligentes eram de esquerda. Interiormente, desejoso de manifestar a mais aberta concordância, exteriorizava, todavia, algum desacordo com tal generalização e atirava com nomes como Vasco Pulido Valente e Vasco Graça Moura (embora este último, quando obcecado com a defesa de alguma posição ultra-reaccionária, não tenha qualquer problema em repetir os mais idiotas argumentos).

Toda esta histeria da reacção à volta da promulgação do casamento gay por Cavaco Silva me faz, porém, ter uma certa necessidade de concordar com o meu amigo, pelo menos no sentido de que os os mais reaccionários têm uma certa tendência para uma utilização menor do cérebro que as pessoas comuns.

Alguém, no pleno uso das suas capacidades intelectuais, pode, sem ser de forma imensamente desonesta e demagógica, afirmar que Cavaco Silva não é total e intrinsecamente contra o alargamento do casamento a casais de pessoas do mesmo sexo (e mesmo contra a extensão de quaisquer direitos a esta minoria). E têm, ainda, a insensatez de criticar Cavaco por ter promulgado o diploma que legalizou a IVG (sabendo que o actual PR não poderia ter uma posição mais contrária à medida). Atacaram a decisão de Cavaco, baseada, como sabemos, num referendo em que o todo o povo português participou, mas defendiam a realização de um referendo para impedir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Este já acatariam, se o resultado lhes fosse favorável, certamente...

Estas isildas pegado e césares das neves não percebem que lançarem figuras como Bagão Félix (!!!) ou o tenente-coronel João José Brandão Ferreira (quem é este, já agora?) só possibilita que Cavaco (o mais reaccionário grande político português) ganhe uma aura mais moderada, podendo avançar confortavelmente sobre o eleitorado do centro.


Não acredito que possa aparecer um candidato à direita de Cavaco que possa ter uma votação superior a 3%. Acredito, contudo, que a promulgação do casamento gay e, sobretudo, esta campanha da reacção podem fazer Cavaco Silva conquistar um número de votos muitíssimo superior àquele que, eventualmente, perderá. Assim sendo, das duas uma: ou estas patetices da ultra-reacção são apenas uma táctica para que o actual PR conquiste um maior número de votos, ou aquilo que o meu conhecido me dizia se aplica, pelo menos, aos sectores mais extremados da direita: a inteligência que terá, ali, sido, eventualmente, plantada não colheu nenhum tipo de frutos.