domingo, 27 de dezembro de 2009

Hannah e Martin



Fui, hoje, ver a peça "Hannah e Martin". É magnífica. As suas mais de duas horas, se estivermos atentos ao conteúdo filosófico/especulativo da peça, colocam questões imensamente interessantes. Aborda a relação (afectiva, mas também académica e, digamos, "política"/"conceptual") entre o filósofo Martin Heidegger e a "pensadora" (recusou, sempre, o "título" de filósofa) Hannah Arendt.

A primeira parte trata da aproximação entre Hannah e Martin. Primeiro, uma aproximação académica (Heidegger era professor de Arendt), mas depois também amorosa (tornam-se amantes). Mas a relação afectiva que nutriam nunca se afasta muito da questão intelectual. Hannah é, já, brilhante, mas muito presa às concepções de Heidegger.

Neste primeiro momento, dá-se, ao fim de algum tempo, o afastamento físico (por pedido da mulher de Heidegger?), mas não o intelectual ou afectivo. Hannah continua a viver e a trabalhar para e sobre aquilo que Martin representa.

É só na segunda parte da peça que se dá o afastamento intelectual/ideológico entre Arendt e Heidegger. Heidegger "adere" ao nazismo, Hannah, judia, compreende os perigos do totalitarismo (termo que cunhou) e foge da Alemanha. Afasta-se também das concepções ontológicas de Heidegger (o ser do homem é um "ser que caminha para a morte"), afirmando as suas, influenciadas certamente pelo pensamento de S. Agostinho (Initium ut esset homo creatus est (para que houvesse um início o homem foi criado)): o que dá sentido à existência humana é o nascimento.

E tal como o nascimento e a morte estão distantes, também Hannah e Martin ficam. Hannah está magoada com Martin, não percebe como não pode este ter visto, logo de início, os malefícios que carregava o nazismo. Heidegger já não domina Arendt e, portanto, deixa de a compreender. Há uma redenção final. Hannah escreve em defesa de Martin, para que este possa voltar a ensinar.

A interpretação de Rui Mendes é brilhante. A de Ana Padrão fica um pouco aquém, mas consegue "comover-nos", igualmente. A peça é interessantíssima na forma como combina teatro com aquilo que posso chamar de "cinema presencial" (as personagens são filmadas, na altura, e a imagem projectada ao mesmo tempo). Os actores secundários dão um bom toque final a uma peça que recomendo vivamente.

(Obrigado, T., pelo convite. Valeu, mesmo, a pena.)

2 comentários:

  1. Não tens que agradecer o convite, terás sempre um lugar cativo no meu coração e serás sempre uma companhia, lado a lado, na minha vida.

    Adoro-te *

    Tatiana

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