quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A reinvenção do amor...

Numa entrevista recente ao Público, Álvaro Pombo, homossexual "assumido" (palavra assustadora, mas particularmente identificativa da realidade a que pretende fazer-se referência), escritor conceituado, afirmou existir a necessidade de os "homossexuais reinventarem uma linguagem amorosa". Penso que se deve falar de invenção e não de reinvenção já que a homossexualidade (masculina) nunca proporcionou, maioritariamente, vivências que permitam criar uma linguagem efectivamente romântica.
É um lugar comum referenciar os gays como sendo, significativamente, mais promíscuos que os restantes homens. Nas associações LGBT desdiz-se o mito até à exaustão; mas com que bases? Não se avançam argumentos: é assim porque o homossexual é igual ao heterossexual; há gays promíscuos, tal como existem heterossexuais promíscuos. De onde emana, então, o "boato". Diz-se: onde há fumo, há fogo. Haverá aqui fogo? Ou será este fumo não mais do que o nevoeiro produzido pelo preconceito?
Penso que, à partida, os gays não são mais promíscuos do que os homens hetrossexuais. Subsistem, contudo, factores que podem (note-se, podem, não digo que necessariamente levem a que) fazer com que os gays procurem de uma forma mais ostensiva o sexo. Em primeiro lugar, é essa mesmo a linguagem subjacente à maioria, senão à totalidade, dos locais de "convívio gay". Depois, o medo, a vergonha, a exclusão e o osbscurantismo a que ainda se encontra vinculada a homossexualidade faz com que, normalmente, os primeiros encontros amorosos e namoros entre dois homens se dêem numa idade em que o sexo já é uma parte integrante de uma relação. Aquelas "relações", que mais não são do que brincadeiras, entre pré-adolescentes de 12-13 anos, não existem nos meandros da homossexualidade. O amor desenvolve-se numa idade em que o sexo já existe e acabam por se criar confusões entre amor e sexo.
Os gays vivem cercados por uma exclusão férrea, emersos numa rejeição diária. A criação de carências afectivas graves é, pois, uma consequência natural. E o sexo, uma forma tão rápida de as neutralizar, uma estratégia de compensação poderosa.
As associações LGBT são, por outro lado, incapaz de criar uma aproximação a uma "linguagem amorosa", a uma demonstração de uma vivência mais "romântica". Vivem muito coladas a uma, ultra necessária, faceta reinvindicativa e reintegrativa que não proporciona muito espaço para outras valências.
A invenção de esta linguagem amorosa só se poderá fazer com o tempo e terá de começar com a plena aceitação da homossexualidade. Quando olharmos todos com relativamente naturalidade para dois rapazes que se sentam, num qualquer benco de jardim, de mão dada, então teremos conseguido dar um passo importante para a "romantização" dos relacionamentos gays.

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