terça-feira, 11 de agosto de 2009

Mea culpa, parte 1

Ainda me amas, sei isso. As vezes pensava que já o terias ultrapassado, mas também era estranha a tua sujeição aos meus caprichos, a aceitação das minhas propostas, o seguimento que davas ao que sugeria. Achava que era o gosto da minha presença, a diversão que conseguia proporcionar. Custa-me, até, acreditar que alguém possa gostar tanto de mim, dessa forma desinteressada, sem receber quase nada em troca, retirando atenção quase só quando me convém...Sinto-me mal com isto, um lixo quase, mas é tão bom ter-te ali disponível como nunca tive niguém. Basta-me levantar o telefone e lá estás tu...
Habituaste-me mal, muito mal. Imbuíste-me num amor sem interesse, afogaste-me em carinho sem resposta à altura. Ainda hoje me pergunto como podes ter gostado tanto de mim...Que te dei eu, afinal? Partilhei contigo alguns interesses, saímos, divertimo-nos, descobrimo-nos. Mostrei-te coisas que desconhecias. Fizeste-me viver num mundo que não era o meu. Acho que foi isso que nunca percebeste...ou será que fui eu que ainda não percebi? Contigo estava bem, sentia-me seguro. Era confiante, divertido, feliz, no fundo.
Por que, então, tive sempre necessidade de mais? Sentia sempre que faltava algo, que nunca eras capaz de me dar tudo...Por isso era incalçável na procura, por isso te magoei como não merecias...
Por uma vez, sinto mesmo que te usei...Mas não te deixaste também usar? Por que o fizeste? E por que me culpas agora? Usei-te, sim, mas se o fiz foi até para não te magoar mais, para que a ferida não fosse mais funda...Dói-me ter-te usado para me mostrar mais seguro, mais original, mais arrebatador, mais surpreendente...Desculpa-me, mas pede, também, deculpa a ti próprio. Temos de saber quando devemos dizer não, quando recebermos migalhas de atenção nos humilha e nos retira dignidade. Não soubeste, também, fazê-lo...
Tudo isto não atenua a minha culpa, mas pelo menos aplaca a ansiedade que me causa o facto de me ver, assim, tão sujo, tão cheio de remorsos...
Usar e deixar usar, não são, no âmago, as duas faces da mesma moeda? Em que é que ser usado, sabendo-o e permitindo-o, utilizando-o para o ataque posterior, é melhor do que usar, abertamente, sem ardis ou subterfúgios?

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