segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Crónica do retorno.



Reparo, hoje, que estive mais de um ano sem aqui escrever. Hoje volto. Deveria, talvez, justificar-me, perante os dois ou três leitores habituais destas arengas, mas a verdade pode muito bem ser que o que me levou ao temporário abandono da escrita seja demasiado íntimo para ficar, assim, pregado nas paredes da praça pública. Ou talvez se deva, apenas, à preguiça e, então, é melhor não nos imiscuirmos demasiado na inventariação das causas do sexto (?) pecado capital, não vá Belphegor continuar a cativar-nos com demoníacos panegíricos ao desleixo. Se, realmente, me puderem fazer acreditar que a leitura dos meus escritos vos interessava, talvez eu possa assumir o compromisso de não voltar a ficar tanto tempo sem reflectir em público. Entretanto, e porque já chega de mea culpa, remato esta primeira malha com um pedido de desculpas àqueles que aqui apareceram neste ano que passou para encontrarem estas ruas vazias de novidade.

Quando costumava escrever, aqui, com maior regularidade, reflectia, as mais das vezes sobre temas "políticos". Seguramente, uma das razões que me levou ao temporário abandono destas páginas foi o desencanto que trespassou a minha vontade de "intervir" politicamente. Depois de um momento em que me pareceu que o povo português havia acordado para a necessidade de mudança e parecia mobilizar-se para iniciar as transformações que recolocassem o país no caminho da justiça, igualdade e do desenvolvimento social e cultural, tudo morreu. As gigantescas manifestações iniciadas com a de 12 de Março de 2011 revelaram ser mais o grito angustiado do desespero de quem já não sabe o que fazer para melhorar a sua situação individual do que o início de um movimento consciente para a alteração da situação colectiva. Ali, protestava-se, no fundo, contra tudo o que é político e, assim, em concreto, não se protestava contra nada ou se propunha coisa alguma. Era a dança da chuva a pedir o dilúvio que limpasse tudo, sem se pensar na construção de uma barcaça que contivesse os princípios que iriam construir o primeiro dia de sol. A chuva não veio e a população remeteu-se, novamente, ao silêncio, ao embrutecimento. O "cada um por si", a emigração, a depressão e a aceitação pura e simples da realidade substituíram o clamor inicial.

Por outro lado - e isto é muito mais preocupante do que a situação de inconsciência e inconsistência do protesto -, perante a total falência do sistema político-económico capitalista em cumprir as suas promessas de melhoria constante das condições de vida, a esquerda europeia tem sido incapaz de aparecer como uma escolha alternativa para a esmagadora maioria da população. Em Portugal, entre uma esquerda soviética sem pretensões de chegada ao poder ou capacidade de diálogo e uma extrema-esquerda mais preocupada com infindáveis discussões ideológicas de pormenores, o cenário é, ainda, pior.

Tudo isto me imergiu numa "depressão política" profunda em que eu começava, já, a aceitar o embrutecimento populacional e a considerar que era melhor deixar de partilhar ideias em que a maioria não parecia rever-se. E, ainda assim, eu continuava a ser profunda e intrinsecamente de esquerda. Perdido todo o proselitismo, todo o desejo de debate, toda a capacidade interventiva, toda a perspectiva de combate, restava uma certeza - a de que, para além de toda a racionalidade, eu estava ligado aos ideais de esquerda. Ligado de maneira, essencialmente, sentimental, porque a verdade é que eu teria (quase) tudo para ser de direita. Cresci sem dificuldades financeiras, com possibilidades culturais, francamente, acima da média e num contexto bastante católico e, francamente, retrógrado. Tirando a questão sexual, digamos - que, na verdade e ao que se vê, não é assim tão determinante - eu teria todas as razões para defender o meu espaço e privilégios. Foi, contudo, sempre nos ambientes de esquerda que, interiormente, me senti mais amparado e, ao mesmo tempo, liberto. Foi aí que a minha diferença pôde, pela primeira vez, ser não só reconhecida, como, até, nalguns casos, valorizada.

Ser progressista acarreta, todavia, a obrigação de, continuamente, reflectir sobre a realidade - sobretudo, para, continuamente, ser corrigido. E talvez tenha sido por isto, afinal, que surgiu a necessidade de continuar a pavimentar estas ruas.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

E se o fervor da esquerda radical causar a nossa destruição? Desabafos - parte I.



É algo compungido que escrevo esta pequena reflexão. Isto porque sinto, pela primeira vez, que escrevo, também, contra mim próprio. Comecemos, assim, por um bater de punho cerrado no peito ("por minha culpa, minha tão grande culpa..."), um ritual tão cristão, mas prossigamos para outras actividades mais úteis. Aquilo que hoje me interessa, então, é procurar lançar uma ou duas ideias acerca de alguns excessos que podem estar a ser cometidos pelas esquerdas mais progressistas e seus praticantes (nos quais, obviamente, me incluo).

Em Portugal, creio, podemos dividir, assim de forma impressiva, todo o set de ideologias à esquerda do PS - a Esquerda proprio sensu - em dois grandes grupos: os marxistas ortodoxos e a novíssima esquerda (ou pós-marxista, ou marxista radical, vá....) - É impossível ser-se de esquerda sem se ter uma base, ainda que longíqua, marxista. Os marxistas ortodoxos têm, no nosso país e na maior parte daqueles que possuem um sistema político parecido com o nosso, representação parlamentar (por aqui, atravéds do PCP e BE) e continuam a basear a sua actuação numa leitura da sociedade através de umas lentes de um marxismo mais puro, ainda que alargado a todas as questões que a partir dos anos de 1960 a Nova Esquerda foi introduzindo: o género, a raça, a orientação sexual, etc., e não somente, ou preferencialmente, nalguns casos, o poder económico e as desigualdades na sua distribuição.

A novíssima esquerda será já uma evolução, de contornos ainda imprecisos, das esquerdas de 60's e, ao contrário destas últimas, procura, antes de mais, derrubar os conceitos de género, orientação sexual, raça, etc. É no seio ideológico que considero incluir-me. A novíssima esquerda não está, normalmente, organizada em partidos, embora exerça uma influência considerável sobre as margens esquerdas dos sistemas partidários (em Portugal, concretamente, sobre o Bloco de Esquerda). Na medida em que, muitas vezes, faz a junção da análise marxista com as soluções anarquistas, não se encontra, num vasto número de casos, estruturada em organizações hierárquicas, mas em grupos, movimentos, blogues, de pequenas dimensões e, normalmente, com uma orgânica interna relativamente fluída. Une-a (une-nos) o propósito da destruição do modelo branco, patriarcal, heterossexual e capitalista que estrutura as sociedades contemporâneas no ocidente.


Os nossos errros têm derivado tanto da constituição e genealogia do movimento, como de excessos e injustiças cometidos em relação a uma esquerda mais tradicional, digamos. Os primeiros relacionam-se, sobretudo, com a eterna demanda daquele que representa, de forma mais verdadeira, o pensamento de esquerda, daquele que é o mais esquerdista de todos, o mais radical, o mais "desconstrutor", o mais inovador, o mais criativo. E então submergimo-nos em debates infindáveis sobre a forma de artigo definido devemos utilizar ou como devemos terminar as palavras por forma a evitar qualquer referência ao género - o o/a já é demasiado estigmatizante, mas também, recentemente, a @, e então vamos optar, momentaneamente, pelo x, enquanto  não encontrarmos uma forma ainda mais inovadora e marginal - ou sobre a sigla que deve assumir o movimento pela libertação sexual - havia a LGBT, mas agora tem de ser LGBTQ, por causa dos queer, ou LGBTQI, para incluir os intersexuais, ou mesmo LGBTQQI, para ainda se meter os questioning, ou então sigla nenhuma porque, afinal, o que desejamos é mesmo destruir o conceito de orientação sexual, e cada um passa a amar um ser humano, que passa a ser o único conceito aceitável ao nível da sexualidade.

Estas e outras discussões inibem-nos, muitas vezes, de forjarmos alianças duradouras com a esquerda mais tradicional, ainda muito apegada aos conceitos e pensadores dos anos 60, ou anteriores, mesmo, que acusamos, frequentemente de não ir tão longe como seria necessário ou de criar discriminações secundárias no seu desejo de categorizar para eliminar as diferenças entre classes. E, assim, com o nosso desenfreamento podemos estar a excluir aliados importantes. Pessoas para quem o conceito de gay, puta, preto, mulher, tem importância, confere protecção e dá sentido à luta pela liberdade e igualdade.

Nas novíssimas esquerdas temos, sobretudo, de ter atenção para que o nosso fervor destrutivo não nos envolva num fenómeno de desconstrução total ou afastamento surreal em relação aquilo que são as preocupações das pessoas cujas vidas procuramos melhorar. De outra forma, transformamos uma destruição positiva num fenómeno de destruição em massa que contém as raízes do nosso próprio fim...

terça-feira, 16 de julho de 2013

Carta aberta a Isilda Pegado.

Cara Isilda Pegado,


Tomei hoje conhecimento de que planeia organizar, na próxima semana, uma vigília defronte do parlamento português, no sentido de alertar os deputados portugueses para os perigos da aprovação da lei da co-adopção por casais do mesmo sexo. De alguma forma, como protótipo de historiador, fico sensibilizado com organização do evento, um pouco em jeito de feira medieval, onde podemos levar a nossa pequenada e mostrar-lhes como se pensava em 1830. Onde lhes podemos ensinar que, afinal, os fósseis vivos não só se movem e respiram, mas falam, repetindo ladainhas bacocas e preconceitos que a maior parte da sociedade portuguesa já não tem pachorra para ouvir, quanto mais para suportar e reproduzir. Onde é possível mostrar o irrepetível e o errado.

Nestes tempos críticos, creio que a Isilda deveria apostar nesse nicho de mercado e ir fazer o papel de carpideira da perda da moral para um qualquer espaço entre a barraca de farturas e o curral dos cavalos usados na recriação das justas de cavaleiros em Óbidos. Desta forma, pelo menos, rentabilizava o esforço que leva a cabo no sentido de paralisar todo e qualquer progresso social e, quem sabe, se as pessoas lhe achassem graça, poderia até fazer uns trocos que lhe permitissem arrancar essa verruga gigante que já deve ter reparado que possui debaixo do seu igualmente grotesco nariz.

Mas não. A Isilda insiste em encarar a sua intervenção política de forma séria e não em jeito de palhaçada, que é como a maior parte das gentes esclarecidas deste país vai permitindo a sua existência. E, então, ao invés de se apresentar no Villaret, em comédia de quinta categoria, continua a insistir em nos entrar por casa adentro em programas de debate (a maior parte deles muito pouco sérios, diga-se) ou na mobilização pública d@s reaças locais.

Felizmente para todo o povo português, mesmo para aquele conjunto de acéfalos que a vêm apoiando, a sua luta está, creio, neste momento, perdida. E está perdida não, de forma primacial, porque o Estado português tem vindo a pôr em prática políticas de protecção das minorias e da liberdade individual, ou porque a intelectualidade portuguesa tenha evoluído num sentido especialmente libertário, mas porque a sociedade nacional, no seu nível mais chão, mais básico, se tem habituado à ideia muito simples de que, na cama, no sexo, no amor, com o próprio corpo, cada um faz o que quer.

É desta forma que a mulher que aborta já não é, hoje, estigmatizada pela maioria daqueles que a rodeiam, a menos, certamente, que viva no gueto de onde a Isilda não se conseguiu libertar; que o adolescente gay gargalha quando um dos seus compinchas o chama de paneleiro ou o acusa de ser menos merecedor de estabelecer laços familiare; que uma mulher goza de prazer com três ou quatro homens ao mesmo tempo, e se borrifa para aquilo que a senhora ou as outras isildas das nossas ruas pensam ou dizem.

Não quer isto dizer que já se atingiu tudo e que a luta deva terminar, mas simplesmente que, neste momento,    quem dá as cartas somos nós, as pessoas que se preocupam em divulgar a ideia de que a liberdade está intimamente ligada à felicidade. E este tipo de estrutura de pensamento, perdoe-me Isilda, mas por mais que se muna, e aos seus apoiantes, de terços, bíblias, cilícios e cintos de castidade, é impossível de destruir. O medo e a ignorância são forças poderosas a favor do obscurantismo, é certo, mas a mim, neste momento, basta-me ligar a televisão na mais brejeira das novelas da TVI (onde abundam os casais gay e as mulheres que fodem por prazer) para a derrotar.


Atenciosamente,

Manuel Campos de Magalhães.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Portugal e o racismo - percursos (parte I).




Enquanto petiz, uma das coisas que mais confusão me fazia no feixe ideológico que constitui a identidade portuguesa era a relação com a diferença "racial", sobretudo com aqueles que auferiam de ascendência africana, os pretos, ou as "pessoas de cor", como dizia a minha avó. Os pretos tomavam conta de nós (crianças), trabalhavam na pujante construção civil dos anos da minha infância (os anos de ouro dos "patos-bravos", os saudosos anos 90) e nas limpezas. Eram, claramente, subalternos. E, contudo, pelo menos ao nível do discurso das pessoas que então me rodeavam, não eram objecto do mesmo tipo de discriminação de outros subalternos (homossexuais, toxicodependentes, criminosos e, mesmo, pobres), estes últimos vítimas de ataques mais directos. O racismo era, então, mais subtil que a homofobia ou a "discriminação de classe". Actuava e existia, mas era, pelo menos, "feio" ou "indelicado" a assunção de posições assumidamente xenófobas, semelhantes às que, por exemplo, seriam mais habituais nos líderes brancos e protestantes dos EUA na altura.

Eu tinha amigos pretos e uma namorada mulata, a Luana, mas rapidamente compreendi que aquilo não era o mais habitual e que o "meu" mundo era bastante mais branco do que a ideologia de "racismo suave" explanada pressupunha - lembro-me, por exemplo, de, certa vez, me ser apresentada por uma amiga uma outra colega de brincadeira "muito simpática, mas que era pretinha" (assim, no diminutivo, porque, na consubstanciação do racismo subtil imperante em Portugal, é, ainda hoje, talvez, muito feio dizer os pretos, ou os negros). Portanto, no ambiente cristão em que cresci, não havia mal nenhum, na aparência, nos contactos branco-preto, simplesmente não aconteciam muito, e não interessava muito pensar sobre isso.

E eu fui crescendo, muitas vezes, sempre inconscientemente, evitando dizer "o preto" (substituía por "o black", terminologia muito comum nos subúrbios de Lisboa) e com muito poucas amizades "africanas", apesar de toda a propaganda católica em que nos emergiam, na escola, sobre a necessidade de rifarmos meia dúzia de porcarias para recolhermos dinheiro para "ajudar" os nossos "irmãos" africanos (a Igreja Católica tem destas coisas, em que somos todos irmãos e filhos do mesmo pai, e deve ser por isto que o sexo é tão mal visto, pois, como bem sabemos, não deve ser feito por membros de uma mesma família).

Entretanto, e por força do crescimento, fui sendo introduzido nos "rendez-vous coloniais", i. e., as reuniões dos retornados das ex-colónias, mormente de Angola, onde haviam vivido os meus avós maternos e nascido a minha mãe, em que o saudosismo do antigo império e as benfeitorias do mesmo eram exacerbados e o sonho de sociedades africanas multiraciais, repetido como mantra daquilo que Angola deveria ter sido e não foi.

A negritude (para utilizar um termo popular a partir da segunda metade de 1950's) era-me, assim, apresentada, não como uma despromoção do ser humano mais civilizado (o branco), mas como algo de diferente, ainda que, por força do desnível económico, com repercussões culturais e sociais fortes, ligeiramente inferior. O racismo em Portugal era, assim, algo de estranho, de antigo, de desactualizado, de pouco sexy e moderno. Se aparecia era aliado ao desconhecimento ou à idade mais avançada do orador. O racismo, tal como me era apresentado, tinha pouco de científico.

As origens deste racismo subtil vim a descobri-las, já homem feito, na Academia e provinham de um discurso pós-colonialista que adoptou uma data de preceitos advenientes do pensamento colonialista tardio (do Estado Novo). Este pensamento alicerçava-se na "teoria" (muito pouco científica, contando, sobretudo, com os inputs da intuição de um autor brasileiro, Gilberto Freyre) luso-tropicalista, que pregava a diferença do colonialismo português, sobretudo quando comparado com os seus congéneres norte-europeus (inglês e holandês). A colonização nacional, para além de periférica quase desde o seu começo, teria, assim, sido marcada por uma forte miscigenação, resultado da especial apetência dos portugueses para os contactos com as populações "tropicais". 

O racismo não tinha, assim, sido característica do colonialismo nacional e não poderia, dessa forma, fazer parte da ideologia do Portugal pós-colonial, que se queria pioneiro do "multiculturalismo" e da cooperação para o desenvolvimento. Ao contrário da homofobia e, mesmo, do machismo/sexismo, o racismo (no sentido branco-preto) foi sempre, de alguma forma, mitigado nas sua exteriorização, optando-se por formas mais subtis (ligadas em primeira instância à inferioridade económica).

E, assim, desmontando toda a lógica histórico-filosófica do Ocidente, a ideologia colonialista portuguesa poderá ter contribuído para o combate do racismo nos decénios seguintes...

terça-feira, 2 de abril de 2013

Caminhos do socialismo. Primeira estação: pensar.



Completaram-se, no mês que findou, 2 anos da manifestação da “geração à rasca”, na qual a esquerda nacional começou a dar os primeiros passos para correr com o “engenheiro” sócrates, principal culpado do avolumar da crise de moral e ética política que vem grassando e desgraçando no/o nosso país desde os sinistros tempos do dr. cavaco (A direita decidiu aderir, através de uma das suas grupetas construtoras de relvas e coelhos – a JSD –, mais não conseguindo que sobreviver ao coro de apupos e vaias sob o feliz mote de “alerta cabrão, está aqui a reacção!”). Depois de 12 de Março de 2011, e com a manutenção no poder do consórcio PSD/PS/CDS/Banca, a contestação foi subindo de tom e os números nas ruas aumentando – em 15 de Outubro do mesmo ano, 15 de Setembro de 2012 e 2 de Março do ano que corre. E, desta forma, em manifestações desvinculadas das principais forças partidárias, foi nascendo uma nova consciência política, sobretudo entre alguns dos mais jovens.


Vem percebendo a população em geral, ou pelo menos aquela que não quer limitar a sua existência à prostração mais inútil na frente de um qualquer ecrã de computador ou televisão, que o regime que se impôs em Portugal logo a partir de meados de 1976, mas que tem mostrado as suas garras mais sinistras, sobretudo, a partir de meados dos anos 2000’s, é injusto e degradante da dignidade que deve ser reconhecida a qualquer cidadão, independentemente da condição económica, cultural, social, intelectual, sexual, rácica, étnica, profissional, etc. Acredito, num inesperado rasgo de optimismo, que o povo (e mesmo aquilo a que os pseudo-intelectuais de esquerda, noblesse oblige, chamam, à boca pequena, o “povão”) têm encetado o caminho de compreensão de que aquilo que lhe foi prometido pelo “capitalismo regulado” (que mais não é do que o entendimento errado de Soares daquilo que lhe dizia o seu “amigo” Olof Palme e as “estrelas” do “socialismo francês”) não se tem cumprido.

Disseram-lhe que, liberto das amarras do fascismo e dos “excessos revolucionários”, poderia reinventar-se, melhorar a sua qualidade de vida, superar a condição de nascimento, libertar-se da armadilha da pobreza e de todas as outras que a pobreza vai montando nos sistemas de ensino, na justiça, no acesso à saúde, na fruição da cultura. 40 anos volvidos, o mesmo povo que se regozijava com o inebriante fulgor revolucionário de 74-75 (e que, como todo o ébrio, deixava que lhe roubassem a esperança a cada passo), apercebe-se de que as armadilhas montadas por um sistema que não reconhece a exacta igualdade de oportunidades para tod@s se agigantam. E, mais, toma consciência de que “ou socialismo, ou nada”, ou socialismo, ou manutenção de um regímen em que a ascensão é prometida pelas mesmas instituições e indivíduos encarregados de, depois, “esculacharem” os sonhos e objectivos mais chãos.

E, desta forma, de há dois anos para cá, o povo português empreendeu, ainda que em pequena escala e em doses moderadas, por enquanto, a perigosa tarefa de pensar. E, ainda que seja para dizer que o cerne do marxismo é a asseveração de que as interacções económicas se sobrepõem às suas congéneres políticas e sociais (a epítome do disparate), vale a pena.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Eu e Freitas do Amaral, ou de como a loucura (também apelidada de sonho) apenas alimenta as esquerdas.




Com tanto que tenho para ler, deu-me, numa noite de insónia, todavia, para pegar no I volume das memórias políticas do Freitas do Amaral, conhecido "socialista" que nos tempos da Gloriosa Revolução andava mais pelas (ou às...) direitas. Entre Malraux, Saramago, Freyre e uma série de bibliografia científica que me convinha conhecer urgentemente, a selecção era vasta, e estas memórias não constituíam prioridade. Mas, como bem se sabe - e se não o sabem ou sentiram alguma vez, é porque não fazem da leitura um passatempo de primacial estima -, são os livros que nos escolhem, e não o inverso.

Naquela noite, dizia eu, então, a obra que me escolheu foi o referido memorial do conhecido político e jurista nacional, o Freitas, como lhe chamam, sempre, os alunos de direito, o que cheguei a ser numa vida passada e talvez venha a reencarnar em existência futura. Logo nas primeiras páginas me apaixonei. O sentimento foi o mesmo que em mim havia sido desperto pelas memórias de Cavaco Silva, embora desta vez tenha ficado menos assustado por ser de índole positiva - agrada-me, no fundo, a forma simples como aquelas pessoas de direita explanam a sua formação política inicial, sempre muito pouco literária, roçando o simplório de se basear em situações quotidianas ou absurdos preconceitos basistas para alicerçar convicções ideológicas que crêem profundas. (As historietas políticas pessoais das esquerdas começam sempre com introduções intermináveis, ultra-ideológicas, com centenas de referências bibliográficas, desculpando nascimentos em berços de oiro, e explicando o apego às solidariedades marxistas. Nas direitas, ninguém leu ou escreveu grande coisa que se aproveite, e portanto, cumpre, apenas, procurar, depois de consolidado comezinhamente o pensamento, justificá-lo com duas ou três citações do Adam Smith, devidamente traduzidas pelo César das Neves).

Mas, voltando ao Freitas e às suas recordações... A certa altura, diz o notável jurista (não vejam isto como um elogio...) que, por volta da minha idade, talvez um pouco mais novo, se encontrava em Londres, com o intuito de melhorar o seu inglês, e se deparou com três personagens que, numa mesma rua, e alcandorados em improvisados púlpitos, discursavam. O primeiro sobre política, o segundo acerca de arte, o terceiro afirmando ser o Novo Messias, e justificando a sua condição. Freitas escolheu ouvir político, e ficou maravilhado com a forma como a polícia britânica o protegeu das vaias da multidão, quando insultava a Rainha - foi aqui que compreendeu e aderiu, definitivamente, à democracia, afirma.

Como é bom de ver, se me conhecem minimamente, ainda que apenas através do palavreado com que, atabalhoadamente, vou compondo estas atoardas, eu sentar-me-ia, no chão, defronte do novo salvador. E é aqui que, sinto, tudo me afasta de Freitas e, com alguma soberba na extensão do argumento, aparta a esquerda da direita.

Então se eu poderia estar a ouvir todo o arsenal argumentativo de um tipo que se proclama o novo messias, porque haveria de me perder em discussões políticas, que até podiam ser articuladas e bem sustentadas, claro, mas que não trariam muito de muito novo? Pior ainda se tratando da converseta sobre arte, onde poderia aprender imenso, certamente - porque é a minha principal e aflitiva falha cultural -, mas onde a informação veiculada seria aquela contida numa qualquer edição da Tate. Já a pretensa reencarnação de Deus, teria de desenvolver uma argumentária toda nova, senão cairia naquilo que já foi dito e feito pelo "verdadeiro" Messias (na concepção do Freitas). As perspectivas teriam de ser totalmente inéditas, sonhadoras, tresloucadas. E eu queria ouvi-las em primeira mão, ainda que fosse para, depois, as considerar absolutamente tontas e deslocadas.

Freitas, não. E a direita, genericamente, também não o faz. Procura instruir-se, obviamente, aumentar conhecimento, solidificar posições, como as ideologias políticas à esquerda. E, no entanto, ao contrário desta últimas, não busca (e rejeita, até) o sonho (apelidam de "idealistas" os tipos como eu, como se isso se tratasse de crítica e não panegírico), afasta a loucura da transformação radical (a Revolução), trucida as pontas das asas que nos levariam a poder saltar a capoeira da "segurança", do pragmatismo, do esperado e expectável. Mata a inovação pura.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A indentidade portuguesa - percursos históricos.




Hoje apetece discorrer, livre e acientificamente, sobre temáticas em relação às quais o meu enfoque tem sido, primacialmente, profissional - e, portanto, racional, lógico, etc. Desta feita, permite-se, para além da análise intelectual, a contaminação emotiva, tão mais cheia de conteúdo. No tocante à matéria sub judice, posso adiantar que pretendo elucubrar sobre a "identidade portuguesa".

Portugal é um acidente histórico. A formação da coroa espanhola na segunda metade do séc. XV e a posterior incorporação na mesma dos pequenos reinos da península Ibérica (geograficamente muito bem delimitada pelos mares e Pirinéus) – Granada e Navarra -, pareciam traçar o destino da miúda nação atlântica. O “império” havia, contudo, de a salvar - mais por causa da ideologia que em torno da conquista e ocupação de espaços extra-europeus foi criada, do que pelos benefícios económicos directos da exploração colonial.

O sucesso que se seguiu à saída das primeiras barcaças nos alvores do século XV - em menos de um século, os navegadores portugueses haviam conseguido chegar à Índia, contornando todo o continente africano, descoberto o Brasil e criado, nos primeiros espaços onde chegaram, sociedades produtivas que abriam boas perspectivas para a experiência ultramarina -, permitiu a concepção do português, em primeiro lugar, como um aventureiro resiliente, um soldado fiel ao seu rei e a Deus e um explorador preparado para climas e habitats menos acolhedores. Proporcionou, depois, uma nova conceptualização da cultura portuguesa. A expansão e instalação nacional nos "trópicos" foi, sempre, justificada, primacialmente, pelo espírito de "missionação" e "civilização", mesmo no século XX, quando o desenvolvimento económico passou, na alma europeia, a ser considerado um valor tão importante como a preparação religiosa e social humana. Se se queria ensinar alguma coisa aos povos que se iam encontrado, tinha de ser criado conhecimento, novo e antigo, estruturado naquilo que passou a ser a "identidade portuguesa".

A "ocupação" espanhola - de 1580 a 1640 - não destruiu este corpo teórico que, na proclamação e posterior garantia da independência, foi fundamental. O apoio inglês, as questões materiais do Império, a revolta na Catalunha, consubstanciaram condições importantes para o sucesso da  iniciativa portuguesa. Sem suporte ideológico, todavia, não teriam proporcionado mais do que uma revolta de escravos, como aconteceu, por exemplo, nas ilhas açucareiras das caraíbas, onde os "senhores", mais fracos em número, venciam porque os revoltosos não eram capazes de avançar uma alternativa de regime viável. Desta forma, as vitórias militares seiscentistas foram menos importantes do que a afirmação da identidade nacional, na sua vertente colonizadora e marítima, por personalidades como o Padre António Vieira e, sobretudo, pelo sentimento de "ser português" presente na metrópole e nas colónias.

O lusitanismo, com obra literária e ensaística própria - na poesia de Camões e prosa de Vieira e, muito depois, em Fernando Pessoa e Salazar, por exemplo - permitiu-nos, desta forma, resistir à eterna inimiga - Castela -, mais tarde, conviver com a colonização inglesa do nosso país e, já no século XX, manter, por muito mais tempo do que qualquer estratega militar imaginou, uma guerra contra os "verdadeiros interesses da nação e das populações africanas" nos despojos remanescentes do Império.

Não morreu, não obstante, este tipo de entendimento que nós portugueses temos acerca da nossa própria existência, com o 25 de Abril. Poucos foram aqueles que, no seguimento da Revolução, e sem estarem completamente comprometidos com o regime anterior, tiveram a coragem de asseverar que, com a perda física das colónias, uma parte da identidade portuguesa se desvanecia. Disse-o António José Saraiva, e foi escorraçado pelo regime que se impunha, mais voltado para uma "identidade europeia" e "globalizada". A velhinha identidade portuguesa, sempre reinventada e reconceptualizada, como é próprio de qualquer produto cultural duradoruro, não poderia ser esmagada pela simples perda da matéria (neste caso, os territórios africanos, sobretudo) e foi aqui que Saraiva errou.

Perderam-se as colónias, mas o Quinto Império de Vieira e Pessoa, o império imaterial, ganhou novos contornos nas concepções de Melo Antunes e Eanes de como deveriam ser postas em prática as relações externas pós-coloniais portuguesas. Ficou a saudade da suposta grandeza, que desde o Império Oriental de Afonso de Albuquerque vem alimentando o fado, e, no discurso e prática política, as características fundamentais dos portugueses. A especialidade nacional para a miscigenação, o cristianocentrismo, a hospitalidade "pobrezinha", o aventureirismo, o desprendimento material, permaneceram e alicerçaram, ontem, a CPLP, como conceptualizam hoje a forma como encaramos o racismo em Portugal - uma coisa estranha, politicamente incorrecta, própria dos "ingleses" e seus "derivados" (os "americanos"), menos "preparados" para a faina do contacto inter-cultural.

E a identidade portuguesa volta, neste século XXI, para fazer de nós maiores - os percursores (em conjunto com as nossas derivações, como o Brasil) do multiculturalismo, essa outra forma de racismo brando, muito próprio das nossas gentes, com Boaventura de Sousa Santos, à proa, desta feita, de novas caravelas apelidades de "conhecimentos periféricos".